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O jeitinho brasileiro

05-06-2008

Caetano Veloso

Hugo Sukman

   Curiosamente, ao falar do show de lançamento do projeto “A foreign sound”, seu disco de canções americanas, Caetano Veloso usa a palavra “jeitinho” — que ao mesmo tempo nos define como povo informal e nos envergonha como povo malandro — para revelar o que mais lhe interessa no projeto.— Não são propriamente as canções, mas o jeitinho com que elas estão ali — diz o cantor, que estréia hoje temporada de três shows (já com todos os ingressos vendidos) de “A foreign sound” no Teatro Municipal, acompanhado de orquestra de 21 figuras e banda dirigidas por Jacques Morelenbaum.

   Ao falar de “jeitinho”, Caetano diferencia o disco “A foreign sound” (Universal), exclusivamente de canções anglo-americanas, do show no qual elas são permeadas por canções brasileiras e referências estéticas e históricas muito próprias. No show, mais ainda do que no disco, a tradição da canção americana é submetida ao “jeitinho” brasileiro de Caetano ou, como ele prefere, “à bossa nova e ao tropicalismo como filtro”.

   — É como eu fazia no show de “Fina estampa” — diz Caetano, referindo-se ao trabalho que fez há dez anos sobre canções hispano-americanas. — Era um show de canções hispano-americanas mas eu voltava a Orlando Silva, cantava a primeira canção composta por João Gilberto (“Você esteve com meu bem?”) , ia ao germe da bossa nova, que era o filtro pelo qual eu via tudo aquilo. O show de “A foreign sound” não é muito diferente.

   De fato, desde que começou a rascunhar esse show no ano passado, em apresentações beneficentes no exclusivo bar Baretto, em São Paulo, que Caetano vai matreiramente enfiando suas próprias referências no universo da canção americana. Não por acaso, ele abre o show com a ironia de Noel Rosa no samba “Não tem tradução” (“As rimas do samba não são ‘I love you’”) e, ainda mais irônico, canta a tropicalista “Baby” e os seus versos “Baby, I love you”, que dialogam com a baba “Diana”, do canadense Paul Anka, como uma entrada no rico universo da canção americana pela porta dos fundos.

   No decorrer da temporada de shows de lançamento, que já esteve antes de chegar ao Rio em Nova York, São Paulo, Salvador, Curitiba, Porto Alegre e Belo Horizonte, as referências foram aumentando, um “Brasil pandeiro” ali, um “Mamãe eu quero” acolá, sempre canções que de alguma maneira comentassem a relação já centenária da música brasileira, e do Brasil, com o acachapante poder de sedução da canção americana. Falando de poder propriamente dito, Caetano até compôs um novo samba sincopado, “Diferentemente”, bem ao gosto de Carmen Miranda, no qual diz que “E no entanto, diferentemente de Osama e Condoleeza/Eu não acredito em Deus”, reforçando o caráter equidistante de um ponto de vista da música brasileira, num turbilhão de referências.

   O cerne do show, no entanto, como do disco é a grande canção americana. A que vai dos irmãos Gershiwn (“The man I love”) e Cole Porter (“So in love”, “Love for sale”) a Bob Dylan (“It’s alright, Ma, I’m only bleeding”) e até Kurt Cobain (“Come as you are”), em versões mais ou menos tropicalizadas. A grandiosidade da canção americana, Caetano reconhece, pode ter tornado o projeto “A foreign sound” mais frio e cerebral do que o “Fina estampa”.

   — As canções hispano-americanas são mais emocionais mesmo — diz Caetano. — Enquanto a sobriedade e a elegância das canções de Gershwin, Cole Porter, Irving Berlin e Richard Rodgers podem mesmo resultar em algo mais cerebral. Na época do “Fina estampa”, aquelas canções estavam mais frescas para mim, enquanto “A foreign sound” foi adiado várias vezes... Mas no palco acho que as canções não estão frias, não...

   Outra diferença entre “Fina estampa” e “A foreign sound” é que, no projeto hispânico, Caetano ainda brincava, referindo-se ao mercado de fala espanhola: “Como diz o pessoal da gravadora, isso é ampliação de mercado”.

   — Se ter relevância no mercado de língua hispânica já era difícil, ter alguma importância no de língua inglesa seria um feito — diz Caetano, ressaltando, contudo, a boa aceitação de disco (que já vendeu 200 mil entre Europa e EUA, cem mil no Brasil) e show nos Estados Unidos. — No Carneggie Hall houve uma ovação, longos aplausos. No Brasil, são aplausos curtos e entusiásticos. Como os shows são em teatro, as pessoas vão com espírito de concerto.

O Globo)


Encontros de 'A foreign sound'

KURT COBAIN & GEORGE GERSHWIN: Num de seus típicos paradoxos, Caetano mistura no repertório o mais luxuoso dos compositores populares americanos, Gershwin (“The man I love”, em grandioso arranjo orquestral), e o compositor-símbolo do rock dos anos 90, Kurt Cobain (“Come as you are” com direito a tamborim), do Nirvana

ASSIS VALENTE & BOB DYLAN: Autores estranhos, únicos. Assis Valente fez “Brasil pandeiro” para Carmen Miranda, que, nos EUA, recusou-o por não gostar da letra. Anos depois, João Gilberto a ensinaria aos Novos Baianos. A letra linda e ingênua de Valente é contraponto à complexa e expressionista de Dylan em “It’s alright, Ma (I’m only bleeding)”

OSAMA BIN LADEN & CARMEN MIRANDA: Estrangeiros na história dos EUA, Bin Laden e Carmen flutuam sobre “A foreign sound”. O terrorista é citado em “Diferentemente” (“...de Osama e Condoleezza, eu não acredito em Deus”) e simboliza o anti-americanismo que o disco docemente contesta. Carmen está em “Mamãe eu quero” e em tudo mais

MORRIS ALBERT & PAUL ANKA: Autores das duas “babas” do show, o brasileiro Morris Albert é autor de uma das canções “americanas” de maior sucesso de todos os tempos, “Feelings”. O canadense Paul Anka fez outro grande sucesso, “Diana”, rock-balada que fez sucesso mundial nos anos 60 e inspirou a tropicalista “Baby”

CAZUZA & LULU SANTOS & RICHARD RODGERS & LORENZ HART: A dupla de compositores americanos compôs o standard “Manhattan”, uma espécie de hino de Nova York, cantado por Caetano no show, e lançada em disco apenas como faixa-bônus da edição americana de “A foreign sound” (na edição brasileira, a faixa-bônus é “Love me tender”, de Elvis Presley). É justaposta no show à “Manhatã”, canção do próprio Caetano lançada no disco “Livro”, então dedicada a Lulu Santos, que costumava chamar a ilha cujo nome tem origem na língua dos índios americanos com uma pronúncia inspirada na língua dos índios brasileiros. Na época, Lulu fez questão de esclarecer que a pronúncia “Manhatã” havia sido inventada não por ele, mas por Cazuza

COLE PORTER & NOEL ROSA: Contemporâneos, inventivos e cronistas de seu tempo e de seu lugar (Nova York e Rio) e ambos craques tanto em letra e música, Cole Porter e Noel são sempre comparados. É um Noel que abre o show de forma irônica, criticando justamente a influência da cultura estrangeira no Brasil em “Não tem tradução” (“O cinema falado/É o grande culpado da transformação...”), samba que havia inspirado Caetano no filme “O cinema falado”, referência obsessiva do compositor. É irônico também, no show, o Porter de “Love for sale” em contraponto ao romântico de “So in love”.

O Globo)

 

Caetano filma e recita nomes de árvores em tupi
 

DA REDAÇÃO

   "Jacarandá, caiuá, paraparaí; urucum. Ibirapitanga, orabutã, ibirapiranga, ibirapitã."

   Do topo de um edifício paulistano, Caetano Veloso, de câmera na mão, recitará esses nomes enquanto filma outros prédios ao redor. Eles são de árvores nativas brasileiras batizadas pelos tupis.

   A participação de Caetano no filme "Bem-Vindo a São Paulo" completa o time de nomes escolhidos por Leon Cakoff e Renata de Almeida, diretores da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, para retratar a cidade. Além do trecho acima descrito, o cantor e compositor baiano também lerá textos introdutórios para cada um dos episódios.

   Entre os artistas que participam do projeto, estão o australiano Phillip Noyce ("Jogos Patrióticos"), o americano Jim McBride ("A Força do Amor"), o palestino Hanna Elias ("A Colheita das Olivas"), a brasileira Daniela Thomas ("Terra Estrangeira") e a portuguesa Maria de Medeiros ("Capitães de Abril").

   Recentemente acrescentado ao elenco, o israelense Amos Gitai ("Kadosh"), que esteve aqui para participar do Fórum Cultural Mundial, filmou seu episódio no hotel Holliday Inn Anhembi. Imensa construção finalizada depois de um abandono de mais de 30 anos, que lhe concedeu o apelido de "esqueleto", o prédio foi comparado pelo cineasta aos edifícios de apartamentos soviéticos.
Gitai também pediu que o alemão Becker completasse para ele cenas aéreas da cidade, que deseja usar para compará-la a Tel Aviv e Jerusalém. Ao lado do iraniano Abbas Kiarostami, Gitai será um dos homenageados da próxima Mostra e terá uma retrospectiva de seus filmes dentro do evento.

São Paulo do alto

   Os episódios de "Bem-Vindo a São Paulo" seguem duas exigências de Cakoff, a de que o tema seja sempre São Paulo e de que as imagens sejam captadas "in loco".

   A abertura do filme começará com um sobrevôo que mostrará o oceano Atlântico, a serra do Mar, e, na seqüência, o centro histórico da cidade de São Paulo, com imagens de fotos antigas dialogando com tomadas recentes dos mesmos ângulos.

   A idéia do projeto surgiu de uma constatação de Cakoff de que a Mostra traz todo ano personalidades do mundo do cinema, mas não aproveita isso completamente. Com o filme, os diretores poderiam, então, marcar suas passagens pela cidade.

   Os episódios já foram finalizados. Diferentes aspectos da vida na cidade foram neles abordados. Enquanto Hanna Elias (Palestina) filmou um ensaio da escola de samba Vai-Vai, Tsai Ming-Liang (Taiwan) retratou o edifício São Vito e ambulantes do centro da cidade. Por sua vez, a portuguesa Maria de Medeiros posicionou sua câmera na célebre esquina das avenidas São João e Ipiranga. É onde entra mais uma vez Caetano Veloso, com a execução de "Sampa". (SC)

Folha de S. Paulo)

 

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