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05-06-2008
Hugo Sukman Curiosamente, ao falar do show de lançamento do projeto “A
foreign sound”, seu disco de canções americanas, Caetano Veloso usa a
palavra “jeitinho” — que ao mesmo tempo nos define como povo informal e nos
envergonha como povo malandro — para revelar o que mais lhe interessa no
projeto.— Não são propriamente as canções, mas o jeitinho com que elas estão
ali — diz o cantor, que estréia hoje temporada de três shows (já com todos
os ingressos vendidos) de “A foreign sound” no Teatro Municipal, acompanhado
de orquestra de 21 figuras e banda dirigidas por Jacques Morelenbaum. (© O Globo) Encontros de 'A foreign sound' KURT COBAIN & GEORGE GERSHWIN: Num de seus típicos paradoxos, Caetano mistura no repertório o mais luxuoso dos compositores populares americanos, Gershwin (“The man I love”, em grandioso arranjo orquestral), e o compositor-símbolo do rock dos anos 90, Kurt Cobain (“Come as you are” com direito a tamborim), do Nirvana ASSIS VALENTE & BOB DYLAN: Autores estranhos, únicos. Assis Valente fez “Brasil pandeiro” para Carmen Miranda, que, nos EUA, recusou-o por não gostar da letra. Anos depois, João Gilberto a ensinaria aos Novos Baianos. A letra linda e ingênua de Valente é contraponto à complexa e expressionista de Dylan em “It’s alright, Ma (I’m only bleeding)” OSAMA BIN LADEN & CARMEN MIRANDA: Estrangeiros na história dos EUA, Bin Laden e Carmen flutuam sobre “A foreign sound”. O terrorista é citado em “Diferentemente” (“...de Osama e Condoleezza, eu não acredito em Deus”) e simboliza o anti-americanismo que o disco docemente contesta. Carmen está em “Mamãe eu quero” e em tudo mais MORRIS ALBERT & PAUL ANKA: Autores das duas “babas” do show, o brasileiro Morris Albert é autor de uma das canções “americanas” de maior sucesso de todos os tempos, “Feelings”. O canadense Paul Anka fez outro grande sucesso, “Diana”, rock-balada que fez sucesso mundial nos anos 60 e inspirou a tropicalista “Baby” CAZUZA & LULU SANTOS & RICHARD RODGERS & LORENZ HART: A dupla de compositores americanos compôs o standard “Manhattan”, uma espécie de hino de Nova York, cantado por Caetano no show, e lançada em disco apenas como faixa-bônus da edição americana de “A foreign sound” (na edição brasileira, a faixa-bônus é “Love me tender”, de Elvis Presley). É justaposta no show à “Manhatã”, canção do próprio Caetano lançada no disco “Livro”, então dedicada a Lulu Santos, que costumava chamar a ilha cujo nome tem origem na língua dos índios americanos com uma pronúncia inspirada na língua dos índios brasileiros. Na época, Lulu fez questão de esclarecer que a pronúncia “Manhatã” havia sido inventada não por ele, mas por Cazuza COLE PORTER & NOEL ROSA: Contemporâneos, inventivos e cronistas de seu tempo e de seu lugar (Nova York e Rio) e ambos craques tanto em letra e música, Cole Porter e Noel são sempre comparados. É um Noel que abre o show de forma irônica, criticando justamente a influência da cultura estrangeira no Brasil em “Não tem tradução” (“O cinema falado/É o grande culpado da transformação...”), samba que havia inspirado Caetano no filme “O cinema falado”, referência obsessiva do compositor. É irônico também, no show, o Porter de “Love for sale” em contraponto ao romântico de “So in love”.
(©
O Globo)
DA REDAÇÃO "Jacarandá, caiuá, paraparaí; urucum. Ibirapitanga,
orabutã, ibirapiranga, ibirapitã." Do topo de um edifício paulistano, Caetano Veloso, de
câmera na mão, recitará esses nomes enquanto filma outros prédios ao
redor. Eles são de árvores nativas brasileiras batizadas pelos tupis. A participação de Caetano no filme "Bem-Vindo a São
Paulo" completa o time de nomes escolhidos por Leon Cakoff e Renata de
Almeida, diretores da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo,
para retratar a cidade. Além do trecho acima descrito, o cantor e
compositor baiano também lerá textos introdutórios para cada um dos
episódios. Entre os artistas que participam do projeto, estão o
australiano Phillip Noyce ("Jogos Patrióticos"), o americano Jim
McBride ("A Força do Amor"), o palestino Hanna Elias ("A Colheita das
Olivas"), a brasileira Daniela Thomas ("Terra Estrangeira") e a
portuguesa Maria de Medeiros ("Capitães de Abril"). Recentemente acrescentado ao elenco, o israelense Amos
Gitai ("Kadosh"), que esteve aqui para participar do Fórum Cultural
Mundial, filmou seu episódio no hotel Holliday Inn Anhembi. Imensa
construção finalizada depois de um abandono de mais de 30 anos, que
lhe concedeu o apelido de "esqueleto", o prédio foi comparado pelo
cineasta aos edifícios de apartamentos soviéticos. Os episódios de "Bem-Vindo a São Paulo" seguem
duas exigências de Cakoff, a de que o tema seja sempre São Paulo e de
que as imagens sejam captadas "in loco". A abertura do filme começará com um sobrevôo que
mostrará o oceano Atlântico, a serra do Mar, e, na seqüência, o centro
histórico da cidade de São Paulo, com imagens de fotos antigas
dialogando com tomadas recentes dos mesmos ângulos. A idéia do projeto surgiu de uma constatação de Cakoff
de que a Mostra traz todo ano personalidades do mundo do cinema, mas
não aproveita isso completamente. Com o filme, os diretores poderiam,
então, marcar suas passagens pela cidade. Os episódios já foram finalizados. Diferentes aspectos
da vida na cidade foram neles abordados. Enquanto Hanna Elias
(Palestina) filmou um ensaio da escola de samba Vai-Vai, Tsai
Ming-Liang (Taiwan) retratou o edifício São Vito e ambulantes do
centro da cidade. Por sua vez, a portuguesa Maria de Medeiros
posicionou sua câmera na célebre esquina das avenidas São João e
Ipiranga. É onde entra mais uma vez Caetano Veloso, com a execução de
"Sampa". (SC)
(©
Folha de S. Paulo)
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