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Caetano em inglês

05-06-2008

Caetano Veloso

No show do CD 'A foreign sound', o compositor canta clássicos americanos e música brasileira Cariocas vão ouvir pela primeira vez a inédita 'Diferentemente'

Luciano Ribeiro

   O show de A foreign sound, álbum relativamente comportado de Caetano Veloso e dedicado aos grandes cancioneiros americanos, chega ao Teatro Municipal, no Centro, com ingressos praticamente esgotados. É a primeira vez que o migrante da pequena Santo Amaro, na Bahia, lança um disco no mais portentoso palco carioca. Polêmica mesmo, como ele gosta, não deve ter - desde a estréia em abril no Carnigie Hall, em Nova York, Caetano só ouve aplausos. Mas provocações há por toda a parte.

   Uma delas é Feelings, cantada com a mão no peito, uma postura que levanta a dúvida: irônico ou reverente? A música, além de ruim de dar dó, seria do brasileiro Morris Albert, que perdeu na justiça o processo de plágio movido pelo francês Louis Gaste (autor de Pour toi). Por que Caetano resolveu gravá-la, sabe-se lá. O grunge de Kurt Cobain, que suicidou-se há dez anos, ganha, via Come as you are, tratamento similar ao de canções de Cole Porter (So in love e Love for sale), dos irmãos George e Ira Gershwin (The man I love) e da dupla Rodgers e Hart (Manhattan), os melhores da língua inglesa. Na abertura, Caetano evoca Noel Rosa, Francisco Alves e Ismael Silva com Não tem tradução, cuja letra é ressaltada até pelo Movimento Nacional em Defesa da Língua Portuguesa.

   Por essas e outras, o jornal britânico The Daily Telegraph considerou A foreign sound um dos CDs mais políticos de Caetano. Aquele que poderia ser apenas outro álbum de standards, como os dois feitos pelo escocês Rod Stewart (para citar exemplo recente), desperta na voz do baiano diversas provocações.

   - Não saberia dizer se ele é ou não político. Não penso muito nisso ao fazer, embora ache que não seja muito. Mas acabei de ler três resenhas do CD em jornais ingleses. Duas muito elogiosas e uma do Daily Telegraph, que viu muita ironia - diz Caetano.

   Mesmo no show essencialmente de intérprete, Caetano joga suas iscas, insiste na vontade de lançar idéias, levantar debates. A iniciativa na maioria das vezes (Feelings é exceção) não interfere na beleza do espetáculo. Não é preciso de bula para gostar do que o cantor mostra nas 20 canções durante 1h40min de apresentação. Além dos autores já citados, o compositor junta Baby, de seu próprio punho, com Diana, de Paul Anka. Cry me a river (Arthur Hamilton), balada açucarada e famosa na voz da bela e discreta Julie London, ganha toques de bossa nova. Interpreta Detached, do amigo Arto Lindsay; a extensa It's alright, ma (I'm only bleeding), de Bob Dylan; a marchinha Mamãe eu quero, de Jararaca e Vicente Paiva, e Brasil pandeiro, de Assis Valente. No Rio, canta pela primeira vez a inédita Diferentemente, música que junta no mesmo saco o terrorista Osama Bin Laden e Condolezza Rice, a assessora de Segurança Nacional da Casa Branca. A canção foi apresentada na exclusiva temporada que o cantor fez, a R$ 500, no Baretto, luxuoso bar do hotel Fasano, em São Paulo.

   Lá, foram shows enxutos. Mas para ficar próximo ao álbum, Caetano juntou aqui Jacques Morelenbaum (violoncelo e arranjador), Lula Galvão (violão), Pedro Sá (guitarra), Jorge Helder (baixo), Léo Reis (percussão) e Carlos Bala (bateria), além de uma orquestra de 21 músicos. O baiano já passou pelos EUA, Curitiba, Belo Horizonte, São Paulo e Porto Alegre, levando 44 mil pessoas às apresentações. Ele conta ter encontrado poucas diferenças na receptividade do público brasileiro e americano.

   - Nos EUA os aplausos foram mais demorados. Mas porque fiz apenas uma apresentação (Caetano cantou dois dias no Carnigie Hall, mas o segundo show foi ao lado de convidados, como o ex-Talking Heads David Byrne) - diz.

   Em cada cidade, o compositor convida orquestras locais. Com a agenda lotada do Municipal carioca, Caetano não pôde ensaiar no teatro. Foi para um estúdio. Mas nada que tire seu sono. Também não costuma ter cuidados especiais para manter a voz. Conta que precisa apenas dormir bem - algo que não tem conseguido devido às viagens.

   Caetano também gosta de dizer que tem limitações musicais. E não considera sua faceta de intéprete, bem explorada em A foreign sound, algo brilhante:

   - Gosto muito de cantar, mas sou um pouco limitado também. Quando ouço Djavan interpretando Correnteza ou Drão, músicas que não são dele, penso que não consigo chegar perto disso. A facilidade que ele tem o deixa mais à vontade para ser mais profundo.

   Na primeira vez que pôs os pés no Municipal, Caetano tinha 13 anos. Era um balé da ópera Carmen, de Bizet. Depois, voltou muitas vezes, mas menos do que gostaria. Ele não perde as apresentações do Grupo Corpo, para quem prepara uma trilha sonora ao lado de Zé Miguel Wisnik, e lembra de quando viu a coreógrafa alemã Pina Bausch, de quem ficou amigo. Não se sabe como vai estar o temperamento de Caetano nos shows desta sexta e sábado. Mas, animado, ele diz o que mais gosta de cantar:

   - Quando a voz sai bem, adoro Cry me a river. Se sai bacanérrimo, tem Love for sale, que acho difícil ficar como deve. Também adoro Adeus batucada e Come as you are - conta.

  • Caetano Veloso - Teatro Municipal, Praça Floriano, s/nº, Cinelândia (2262-3935). Capacidade: 2.350 pessoas. 6ª e sáb., às 21h. R$ 30 (galeria), R$ 60 (balcão simples) e R$ 100 (camarote, frisa, balcão nobre e platéia).
  • JB Online)

     

    Repertório do Show

     
  • Não tem tradução (Noel Rosa / Francisco Alves / Ismael Silva)
  • Baby / Diana (Caetano / Paul Anka)
  • So in love ( Cole Porter)
  • I only have eyes for you (Harry Warren / Al Dubin)
  • Something good (Richard Rodgers)
  • Body and soul (Robert B. Sour/Edward Heyman/ John W. Green / Frank Eyton)
  • It's alright, ma (I'm Only Bleeding) (Bob Dylan)
  • The man I love (George e Ira Gershwin)
  • Come as you are (Kurt Cobain)
  • Feelings (Morris Albert / Louis Gaste)
  • Manhattan (Richard Rodgers / Lorentz Hart)
  • Manhatã (Caetano Veloso)
  • Diferentemente (Caetano Veloso)
  • Brasil pandeiro (Assis Valente)
  • Cucurucucu Paloma (Tomas M. Sosa)
  • Love for sale (Cole Porter)
  • Cry me a river (Arthur Hamilton)
  • Detached (Arto Lindsay / Ikue Mori / Tim Wright)
  • O estrangeiro (Caetano Veloso)
  • JB Online)

     

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