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05-06-2008
Ensaio sintético de Wander Melo Miranda faz boa apresentação do autor de "Vidas Secas" e "São Bernardo" SILVIANO SANTIAGO O poder de síntese é tão mal distribuído entre os mortais quanto o dinheiro. Wander Melo Miranda é um privilegiado. Nas seis páginas iniciais do ensaio intitulado "Graciliano Ramos", recém-editado pela Publifolha, consegue não só sintetizar o estado atual dos estudos sobre o romancista, como também apresentar ao iniciante e ao especialista uma sólida e rentável introdução à leitura das suas obras. Esse poder de síntese, que é o dos poetas, já aparece na epígrafe tomada a Murilo Mendes. Ali se diz que as passadas trágicas do romancista escreveram a épica real do Brasil, que explode desintegrado. Sob o comando de Graciliano, a épica renascentista fez-se prosa para ser lida na modernidade. Tornou-se modesta para ser rigorosa. Ganhou mordacidade e crítica para deitar abaixo os pilares de uma nação construída pela injustiça econômica e social. Cônscio da situação do intelectual num país onde o analfabetismo é chaga, Graciliano soube que podia apenas contar com "armas insignificantes, mas são armas". Cimentada na experiência, a literatura de Graciliano vive na brecha aberta entre opostos e no conflito ali gerado e dali expandido para a vida e a escrita. Wander levanta as extremidades que se opõem: imaginação e memória, texto literário e história, sujeito e discurso, formação burguesa e empenho político a favor do excluído. Levanta os extremos opostos, acentua a conjunção "e", que paradoxalmente os distancia, para concluir que "o espaço de atuação intelectual e artística de Graciliano revela-se intervalar". No intervalo, é o próprio corpo dilacerado do artista, do brasileiro, que está sendo dramatizado. Escreve Wander: "O corpo do sujeito, o do preso, mas também o do menino, o dos retirantes, é o lugar privilegiado onde se marca a história e se enuncia, em carne viva, sem subterfúgios, a violência desmedida do poder". Os destaques da obra multifacetada de Graciliano serão analisados e interpretados nos sucessivos capítulos do livro. No romance de estréia, "Caetés", Wander desentranha o enlace de Graciliano com os modernistas paulistas. No romance histórico homônimo, que teria sido escrito pelo narrador, o tema principal é a deglutição do bispo Sardinha pelos índios, episódio presente no manifesto antropófago, de Oswald de Andrade. No entanto, em Graciliano, "o índio é destituído de símbolo instituinte da nação e se transforma na personagem ausente de um romance não-realizado". Percebe-se que, como em Machado de Assis, a figura retórica central no texto de Graciliano é a ironia. Naquele romance, ironia em relação à tradição literária, ao romance histórico ou de fatura realista e aos vanguardistas brasileiros. Talvez o traço irônico seja responsável por certa dificuldade em se ler Graciliano hoje. Apontados com pertinência e constância por Wander, os jogos irônicos poderão, no entanto, servir de lugar de auto-reflexão para os jovens leitores. A ironia é diferente do humor, que borbulha como champanha na escrita das novas gerações, tomada pelo estilo Luis Fernando Verissimo. Ao contrário do dito humorístico, a ironia não é engraçada. Ela não se escancara. É furtiva e finge brincar com a graça para poder abrir o sorriso da mente. Ao ser detectada nas entrelinhas pela atenção crítica do leitor, serve-lhe o manjar dos deuses. A ironia deixa para o humor o entreabrir dos lábios em riso e para a chalaça, a gargalhada estrepitosa. Os romances seguintes de Graciliano aprimorarão as astúcias da ironia frente ao leitor, sendo que este será cada vez mais requisitado para dar sentido à trama que lê. "Vidas secas" é um marco duplo. Ao centro da obra, espécie de dobradiça, tanto aponta para a miséria da vida rural quanto abre espaço para uma crítica contundente dos desmandos do poder a partir do Estado Novo. O romance tanto fecha o ciclo da ficção em primeira pessoa quanto abre espaço para a escrita autobiográfica de "Infância" e "Memórias do Cárcere". A terceira pessoa narrativa de "Vidas Secas", escreve Wander, "reconstitui, pela via literária, o hiato entre seu saber de intelectual e a indigência dos retirantes alteridade que buscou compreender pelo exercício da palavra enxuta e medida". A notável obra de Graciliano se completa por dois depoimentos. O relato da infância e o da sordidez nos porões da ditadura. É preciso tomar cuidado com o sentido de depoimento, avisa Wander ao leitor incauto. Em observação válida para os dois relatos, aclara: "Por associações e derivações, as memórias se escrevem como ficção, libertam-se da determinante documental e abrem espaço para a reinvenção do eu que escreve". E complementa, detendo-se agora nas "Memórias do Cárcere": "Lembrar é, para Graciliano, esquecer-se enquanto sujeito-objeto da lembrança, esgueirar-se para os cantos, colocar-se à margem do texto ser escrito por ele, ao invés de escrevê-lo -, para que a linguagem em processo intermitente de produção possa cumprir seu papel de instrumento socializador da memória e afirmar o valor ético do narrado". Silviano Santiago é escritor, poeta e crítico, autor de, entre outros, "O Falso Mentiroso" e "Uma Literatura nos Trópicos" (Rocco) FOLHA EXPLICA GRACILIANO RAMOS. (© Folha de S. Paulo)
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