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05-06-2008
O Teatro Municipal lotou na estréia do show do CD 'A foreign sound' Tárik de Souza ''Onde queres família, sou maluco/ e onde queres romântico, burguês/ onde queres Leblon, sou Pernambuco/ e onde queres eunuco, garanhão'' (O quereres, 1984). Este manifesto autobiográfico do disco Velô não consta de A foreign sound, show de lançamento do disco homônimo que Caetano Veloso estreou no Teatro Municipal, na abarrotada noite ''tout Rio'' de quinta-feira. Mas é a melhor tradução da dialética do autor aplicada ao roteiro da apresentação, onde misturam-se signos de popestrelato (gritinhos de ''gostoso!'', da platéia; Caetano fazendo o sinal dos metaleiros) com sarau erudito, a bordo de uma orquestra de cordas de 21 elementos. Num de seus muitos comunicados à audiência, ele informa que enquanto estava inteiramente concentrado no projeto, ''para que ficasse tão bacana como ficou'', pensava ao mesmo tempo em fazer um disco de sambas inéditos. E quando selecionou as músicas americanas queria acrescentar sucessos brasileiros que viraram standards no exterior, como Aquarela do Brasil, Garota de Ipanema, Desafinado e Na Baixa do Sapateiro. Ou seja, o duplipensar de Caetano o conduziu a essa mirada de sons estrangeiros, onde entram dos guinchos da no wave vanguardista de Arto Lindsay (Detached, com Ikue Mori e Tim Wright) ao Cole Porter de Love for sale à capella e ao uísque paraguaio Feelings (do falso importado Morris Albert, plágio de composição do francês Louis Gaste), pairando sob uma névoa de (belíssimas) cordas, arranjadas por Jaques Morelenbaum. Caetano define como oblíquo seu viés da música americana (''sou um cara oblíquo'', reforça) a partir do filtro da nação musical brasileira e por isso abre o show com o bem-humorado protesto de Noel Rosa (e Ismael Silva) Não tem tradução, gravado pelo co-assinante da composição Francisco Alves, em 1933. ''E essa história de alô, boy, alô, Johnny/ só pode ser conversa de telefone'' (outra ironia, uma empresa de telefonia está entre os patrocinadores do evento). Em seguida, rebate o petardo nacionalista com uma interseção de seu avatar tropicalista, a bossa-marcha Baby, e Diana, rock balada de Paul Anka. Assim como o megaclássico Manhattan (uma das palavras inseridas no cenário de Hélio Eichbauer), de Rodgers & Hart, enlaça-se na brejeira Manhatã, do próprio Caetano, que chama atenção para o nome indígena da ilha capital do capitalismo. De calça, sapatos e malha pretos sobre camisa social branca, ele contesta o ar senhorial do recital de banquinho (onde em vários números permanece sentado mesmo quando não está ao violão) com performances inusitadas no gestual (rebolados com as mãos e quadris) e eventuais caminhadas teatrais pela boca de cena. Nem tudo é provocação no espetáculo. Em So in love (Cole Porter), Caetano trabalha tanto a extensão vocal que parece almejar as oitavas de Johnny Mathis. Body and soul, The man I Love e Cry me a river desfilam respeitosas, com pequenas alterações no andamento. O hino gay Nature boy, prefaciado por Mora na filosofia, de Monsueto, transcorre sob forte luz verde. Não há monotonia no percurso, nem quando ele evoca sua incursão latina em Fina estampa e reincide nos agudos rombudos de Cu cu ru cu cu Paloma. Bem, vá lá, ele não precisava injetar sonolência no bis programado, o acalanto linear de Elvis Presley, Love me tender. Só que, até chegar lá, a platéia já foi sacudida por uma versão quase sambista de Come as you are, de Kurt Cobain, em que ele frisa a palavra ''memória'' e a frase I don't have a gun (''não tenho arma''), quando se sabe que o autor meteu uma bala na cabeça. Também foi sacudida pela vibrante recriação de It's allright, ma, de Bob Dylan, a despeito da leitura da letra extensa, encerrada no brado Te entrega, Corisco, de Sérgio Ricardo, do filme Deus e o diabo na terra do sol. (© JB Online) O cantor desafia certezas Os corcoveios do roteiro permitem ainda um samba novo do tal disco que faria, Diferentemente, onde a frase chave proclama que ele não acredita em Deus, como Condoleezza (a dama de ferro de Bush) e Osama (Bin Laden, cuja família tem ligações com o sobrenome anterior, como prova em seu novo filme o cineasta Michael Moore). Daí vai para a bela Adeus, batucada, de Synval Silva, gravada por Carmen Miranda, e Brasil pandeiro (de Assis Valente, ''baiano de Santo Amaro da Purificação'', sublinha), que ela se recusou a gravar, com direito a show de distorções hendrixianas de Pedro Sá na guitarra, sob delírio da galera. Único número aplaudido logo de início, a obra-prima O estrangeiro encaixa-se perfeitamente em A foreign sound, algo que não acontece a Mamãe, eu quero, sacada no bloco das músicas brasileiras de sucesso exterior, cuja alegria estridente não fecha ''para cima'', como seria de esperar, o zigue-zague dialético do roteiro. Ou a idéia era mesmo um frenético anticlímax? O olhar oblíquo de Caetano desafia certezas. (T.S.) (© JB Online) Com o falador solto
Lula Branco Martins Caetano Veloso estava com o falador solto anteontem, no Teatro Municipal, na estréia do show baseado em seu disco em inglês, A foreign sound - que encerra hoje sua microtemporada. Várias vezes auto-elogiativo, chamava o CD de ''bacana'', ou mesmo ''bacanérrimo''. A platéia ria - muitos, espantados com o displante; outros, sorriam com certo orgulho, como se avalizassem seu atrevimento. Numa certa hora, o compositor chegou a dizer que o Brasil ''devia ter orgulho'' daquele disco e daquele show. Talvez tenha mesmo razão. Caetano está, atualmente, em qualquer lista dos cinco ou dez maiores artistas da música mundial - e, num ano em que perdemos Ray Charles e Marlon Brando, é uma das personalidades vivas mais importantes do planeta. Opinioso desde os primórdios, por causa disso enfileirou desafetos ao longo da carreira. É comum, sobre ele, alguém falar: ''Eu gosto do Caetano cantando, mas quando ele fala...'' Acontece que, cada vez mais, o que Caetano faz é o que ele fala. Seu pensamento, seu jeito de ver o mundo, surge escancarado em shows, músicas e discos. Agora, por exemplo, ele parece ainda estar brincando de tropicalista, em seu quintal de sérias diversões, nesta cruzada pró-música americana. Há quem diga: que subserviência, essa coisa de cantar em inglês. Que colonizado, que servo. Mas, que tal esta outra leitura? Dá orgulho, o tal ''orgulho'' de que ele falava no show, ao ver o tratamento que um brasileiro consegue oferecer a uma música e, mais que isso, a uma musicologia estrangeira. Brasil e Estados Unidos têm as duas melhores músicas do mundo. Porém, quando os americanos bebem em sons brasileiros, não conseguem devolver na mesma qualidade. Relembre-se, por exemplo, Elvis Presley tentando prestar um tributo à bossa nova. Virou rumba, uma coisa mexicanizada. Relembre-se até Ella Fitzgerald, infeliz no seu disco em homenagem a Tom Jobim. Quando resolvem homenagear o Brasil, os americanos acertam a mão apenas e tão-somente quando têm a assessoria de brasileiros. Foi assim com Sinatra e Jobim. Foi assim com Stan Getz e João Gilberto. Caetano, com músicos brasileiros e produtores brasileiros, pega os temas americanos, os degusta e os devolve com classe, em alto nível, num disco e num show que, em leitura oblíqua, podem ser considerados muito brasileiros. Mente aberta, ele mistura Cole Porter com Paul Anka. Gershwin com, lá vem polêmica, Morris Albert. Anteontem, no Municipal, o seu maior sucesso, Feelings, recebeu da platéia aplausos comedidos. Recepção muito melhor teve a canção do Nirvana; ou o solo à capella em Love for sale, sofisticado tema de Porter. Fellings, no entanto, é desprezada pela classe social que lotou as poltronas, frisas e camarotes do velho teatro. Canção de 150 gravações mundo afora, interpretada por artistas como Frank Sinatra, Tony Bennett, Dionne Warwick, Ray Conniff e Barbra Streisand, Feelings é um das músicas românticas mais populares do planeta. Recentemente, inclusive, foi descoberta uma gravação de Elvis, que vai virar single. Lançada pelo brasileiro de codinome Morris Albert, em 1974, costuma ser adjetivada, na imprensa ou nas altas rodas, como ''ruim de doer'', ''baba melosa'' e até definida como ''o mais baixo momento da música nacional''. A coisa ainda ficou mais radical de alguns anos para cá, quando o compositor foi acusado de ter feito plágio de uma canção francesa e perdeu na Justiça. A desgraça veio na medida para seus críticos, que agora não medem mais palavras. (© JB Online) Música inédita fala de Osama Plágio é uma coisa mesmo feia. Mas é interessante notar como a mesma virulência não se dá, por exemplo, em outro caso conhecidíssimo de plagiador, George Harrison na canção My sweet lord. Ele também perdeu nos tribunais e pagou o devido ao autor da canção He's so fine, sucesso em toda a América em 1962 (a balada do beatle é de 1970). Não se vê, em revistas, jornais ou na TV, Harrison crucificado por causa disso. Para Morris Albert, porém , não houve perdão. E olha que o próprio autor da canção, Louis Gaste, admitiu que pode ter sido ''uma coincidência musical'', já que sua música original não era famosa nem na França, lançada num lado B, nos anos 50. Caetano se diverte com a questão Feelings. No camarim, ouvido após o espetáculo pela reportagem do JB, ele disse: - Eu gosto de cantá-la, ela é linda. Ser uma composição de um brasileiro com nome artístico em inglês e que mora nos Estados Unidos, ser plágio, ser imitação de uma música francesa, essa confusão, isso tudo me interessa. O JB ouviu outros fãs de Caetano, que estavam no Municipal, sobre Feelings. A atriz Regina Casé, amiga de longa data do baiano, gosta: - Eu sou pop. O público não aplaudiu muito, mas eu gosto. E já gostava antes de o Caetano gravar. Essa canção é que nem Sonhos, do Peninha. Muito popular e muito boa. O jogador de futebol Edmundo, do Flu, entrevistado entre três beldades nas escadarias do teatro, se esquiva: - Eu sou muito novo, acho que não conheço, não. Qual é mesmo o nome da música? O repórter insiste: - Feelings. O Caetano cantou no início do show... Nada. Memória fraca. O repórter então se esforça, esquece a timidez, paga o mico e canta o refrão. Edmundo lembra: - Ah, sei. É, é muito bonita. Com o Caetano, ficou demais. O papo com o guitarrista Rodrigo Amarante, da banda Los Hermanos, foi menos truncado, mas mais tenso. A entrevista deu-se perto da fila do beija-mão de Caetano, após o show. A seguir, alguns trechos: - Rodrigo, o que você acha de Feelings? - É muito boa. - Mas você já gostava antes de o Caetano gravar? Você acha que o Caetano gravando, de certa forma, autoriza Feelings? - Esse é o grande problema dos jornalistas: vocês deviam deixar mais claras as opiniões de vocês, isso é até saudável, mas eu não caio nessa. Se essa é a sua opinião, publique. - Mas o que eu preciso ouvir é a sua opinião... - Você vestiu a carapuça. - Então, vamos lá: eu só queria saber se você já gostava da música antes? - Entrevista, para mim, é entre-vista, olhando nos olhos. Uma pessoa olhando para a outra. E você não está nem querendo me ouvir. - Quero, sim. É o seguinte. Percebo que é uma tendência as pessoas desgostarem e, por um motivo ou outro, passarem a gostar de certas músicas. Isso acontece com você? - Por que veio perguntar pra mim? - Porque estou ouvindo artistas sobre isso. Você é um dos Hermanos, por isso sua opinião é importante. - Você está subestimando a minha inteligência. Você perdeu. Perdeu. - Rodrigo, você poderia me dizer simplesmente isso: já gostava de Feelings? - Eu não conhecia. Outra canção do show que já está causando polêmica é o samba Diferentemente, de safra recentíssima, que o Rio ouviu pela primeira vez anteontem. Rima ''Madonna'' com ''detona'' e tem versos em inglês: ''Diferentemente de Osama e Condoleezza/ eu não acredito em Deus''. O compositor andou afirmando, na imprensa, que seria a primeira vez que alguém admitia, em música, não acreditar em Deus. Não é bem assim. John Lennon, no início de sua carreira solo, já falou o mesmo e enfatizou a idéia botando God como o nome da música. Dizia ele, entre outras descrenças: ''Eu não acredito em Hitler/ eu não acredito nos Beatles/ eu não acredito em Deus''. (L.B.M.) (© JB Online)
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