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FUNDAJ O desafio da renovação

05-06-2008

À direita, o presidente da Fundaj, Fernando Lyra, abraçado pelo prefeito do Recife, João Paulo

 

O Jornal do Commercio inicia hoje uma série de reportagens sobre a Fundação Joaquim Nabuco, que completa 55 anos esta semana em processo de transformação contínuo

CAROL ALMEIDA

   A restauração do salão nobre do Teatro Santa Isabel, o índice de preços ao consumidor da Cidade do Recife e a improvisada sala de cinema montada na Praça Euclides Dourado no último Festival de Inverno de Garanhuns. Em comum, esses eventos têm um selo com o nome e sobrenome do abolicionista pernambucano Joaquim Nabuco. E quem dá corpo e verbo a este selo é uma instituição que na próxima quarta-feira completa 55 anos de atividade, criada e batizada pelo sociólogo Gilberto Freyre: a Fundação Joaquim Nabuco, também conhecida como Fundaj. De hoje até a data do aniversário em questão, o Jornal do Commercio publica uma série de matérias sobre as atividades das quatro instituições (pesquisa, documentação, formação e cultura) que formam a Fundaj, quais são seus projetos e como a própria fundação se observa enquanto mediadora entre a pesquisa e a sociedade.

   Depois de 22 anos sob a tutela de Fernando Freyre, filho do próprio Gilberto Freyre, a Fundaj agora está nas mãos de uma nova administração, que assumiu a presidência da instituição em fevereiro do ano passado. Fernando Lyra, ex-ministro da Justiça e ex-deputado federal de Pernambuco, senta desde então na cadeira principal da fundação e tenta, via articulações políticas, abrir mais o espaço da casa ao público e, principalmente, trabalhar como grande mediadora entre órgãos públicos e sociedade civil não apenas de Pernambuco, como do Nordeste.

   Ao lado da Fundaj, nesse processo de redes políticas, estão dois pilares fundamentais para o orçamento da instituição: o Ministério da Ciência e Tecnologia e o Ministério da Educação. Somente este último conseguiu dobrar o investimento direto do governo para a Fundaj, que passou de R$ 3 para R$ 6 milhões. Esse orçamento foi obtido na época ainda que Cristóvão Buarque ainda era titular da pasta de Educação, mas Lyra garante que a mudança do ministro não irá modificar as diretrizes estabelecidas por ele no começo de 2003. “É claro que o novo ministro tem outras orientações para o MEC, mas o apoio tem sido cada vez maior. Até porque a Fundaj ainda é o único núcleo de contato do MEC com o Nordeste inteiro”, frisa Lyra.

   Para este ano e para 2005, Lyra fala de algumas mudanças e novos projetos que já fazem parte das diretrizes anunciadas no começo de sua gestão. Entre eles, está um acordo firmado nesta última semana com o governo francês para que a fundação seja um dos braços do Ministério da Cultura em uma grande exibição sobre a cultura brasileira em Paris, no ano que vem. Além disso, como um dos focos da instituição passou a ser o próprio nome de Joaquim Nabuco, ficou certo para este ano ainda o lançamento dos diários do abolicionista, textos estes nunca antes publicados.

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Massangana é nova vitrine da Fundaj

Lançamento de revista, quarta-feira, marca os 55 anos da Fundação Joaquim Nabuco. Publicação fará circular a produção intelectual e o acervo da instituição

   Quando comemorar os 155 anos do próprio Joaquim Nabuco, no próximo dia 16 de agosto, a Fundaj estará lançando a revista Massangana, primeira manifestação da vontade cada vez maior que a instituição tem de circular o patrimônio da casa em raios que vão bem além de seus prédios principais. A idéia não é lançar uma revista institucional, mas sim de criar valor cultural agregado ao nome da Fundaj.

   Ainda quanto à divulgação do nome da casa, a fundação programou para o próximo mês de agosto uma exposição sobre o escritor Graciliano Ramos, com textos e artigos pessoais do autor. Outro grande projeto, este sem o objetivo de funcionar como vitrine, mas sim como exemplo, é a catalogação do perfil dos meninos de rua do Recife depois de uma extensa e inédita pesquisa feita em parceria com outros órgãos públicos.

   Iniciativas como essas são prioridades agora na nova política da instituição, que junto ao Governo Federal pretende dar uma nova visibilidade e dinamicidade ao funcionamento do órgão. Essa dinamicidade, no entanto, está longe de ser aquela objetivada nos planos do presidente Fernando Lyra em 2003. Parcerias, por exemplo, com o Banco do Nordeste, que a princípio seria um dos maiores aliados em projetos da Fundaj, ainda não foram firmadas. Das grandes empresas que planejaram fazer trabalhos em conjunto com a fundação, apenas a Chesf atua em alguns projetos maiores da casa.

   A Fundaj também quer renovar o seu quadro de pessoal. Hoje, são 470 funcionários ativos, sendo que 91 deles foram preenchidos por cargos comissionados. Muitas desses servidores já poderiam estar aposentados, e outras tantas estão para se aposentar, uma vez que o único concurso público realizado para admissão de funcionários foi feito em 1989, substituindo o mero apadrinhamento político. “Até início de agosto vou a Brasília só cuidar disso, ver de que forma a gente pode trabalhar para instituir um novo concurso público”, afirma Lyra.

   Quanto ao patrimônio físico da fundação, Lyra frisa que o tanto o Museu do Homem do Nordeste quanto a Biblioteca Blanche Knopf e o Cinema da Fundação estarão restaurados até o próximo ano. “As licitações já foram feitas e estamos esperando o resultado desses processos”, diz o presidente da Fundaj. Sabe-se, no entanto, que as licitações, quando definidas para uma empresa, passam por embates burocráticos quando outras empresas recorrem. O Cinema da Fundação, por exemplo, já concluiu seu processo de licitação para o projeto da reforma, mas precisa passar ainda por toda a segunda etapa de licitação para as obras.

HISTÓRIA

   A Fundação Joaquim Nabuco faz aniversário na quarta-feira, mas o aniversariamente na verdade tem outro nome: Instituto Joaquim Nabuco era a graça original da casa, criada em 21 de julho de 1949 pelo sociólogo Gilberto Freyre. Sua primeira sede, improvisada, foi instalada em algumas salas cedidas pelo Instituto Arqueológico, na Rua do Hospício. Neste mesmo ano, o instituto, que em sua origem tinha como função a pesquisa social do homem da Zona da Mata (diretriz natural em se tratando de um órgão pensado por Gilberto Freyre), mudou-se para a Av. Rui Barbosa. Em 1952, a sede foi para onde hoje está o prédio principal da fundação, a casa de número 2.187 da Avenida 17 de Agosto. Apenas em 1980, o instituto passou a ser a Fundação Joaquim Nabuco e atualmente são três os campi da Fundaj, em Casa Forte, Apipucos e Derby. (C.A.)

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Ex-dirigentes não escondem a mágoa

SCHNEIDER CARPEGGIANI

   Ser ex-Fundaj. Atual presidente da Fundação Gilberto Freyre, Fernando Freyre está fora da Joaquim Nabuco deste o ano passado. Durante três décadas ocupou cargos de chefia na instituição, inclusive o de presidente - esse último por 22 anos. “É difícil dirigir a Fundaj, porque tinha de entrar em competição com outras instituições de todo o País, e sempre é mais complicado liberarem recursos para o Nordeste”, declarou em entrevista para o JC.

   Na conversa, Freyre ressaltou sua insatisfação com a nova administração da Fundação. “Que gestão democrática é essa que estão fazendo na Joaquim Nabuco, que só valoriza questões políticas? Todas as decisões que tomávamos eram a partir de bases democráticas, com o auxílio do conselho-administrativo, dissolvido sem que qualquer outro órgão tenha sido criado para ocupar o seu lugar.”

   “Outro problema que vejo nessa administração nova é que diversos funcionários antigos estão sendo perseguidos, se sentindo isolados na Fundaj, ou mesmo colocados em funções meramente burocráticas”, atestou Freyre. Questionado da origem dessas perseguições, completou: “não é a mim que você tem de perguntar isso, mas à nova administração.”

   Com a sua saída da Fundaj, o ex-presidente levou para a Gilberto Freyre o Seminário de Tropicologia, que é realizado com apoios da UFPE e da UFRPE. “A nova administração dissolveu o Núcleo de Tropicologia e não tomava uma decisão em relação ao Seminário, então decidi trazê-lo para cá.”

   A antropóloga Fátima Quintas, que trabalhou durante 37 anos na Fundação Joaquim Nabuco, endossa as críticas. “O que ficou para mim de todo esse tempo de Fundaj foi a liberdade que sempre tivemos na hora de dar uma opinião, de sugerir. Havia esse clima democrático, com os funcionários vestindo a camisa.”

   Fátima Quintas divide com Fernando Freyre o descontentamento com a nova administração da Fundaj. “Acho que o humanismo de antes foi substituído por um um partidarismo político e ideológico.”

   Procurado pela reportagem, o historiador Manoel Corrêa de Andrade não quis conceder entrevista sobre sua experiência na Fundaj. Alegou motivos pessoais.

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