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A dama da parada de sucessos

05-06-2008

A maranhense Alcione

 

João Pimentel

   Boa sambista, boa de carimbó, boa cantora romântica e, principalmente, boa-praça, a maranhense Alcione Alves da Luz — Marrom, para os íntimos — vive uma situação inusitada no mercado musical. Nas lojas, seu último disco compete com outros discos dela mesma.— Como estou vendendo bem, as outras gravadoras relançam coletâneas para aproveitar o embalo — explica.

   “Vendendo bem” é pouco para o sucesso de Alcione numa indústria que sofre a ação da pirataria e que vê o CD ser substituído pelo abstrato arquivo digital. Dois meses após lançar “Faz uma loucura por mim”, seu 30 disco — terceiro pela Indie Records — ela já ganhou um disco de ouro — 50 mil cópias vendidas — e mantém o sambão-jóia “Você me tira do sério”, uma das faixas do CD, entre as dez músicas mais tocadas nas rádios. Depois de ganhar o prêmio TIM como melhor cantora de samba do ano, ela fechou a semana com a canção em terceiro lugar entre as mais ouvidas no país. Só perde para Ivete Sangalo (“Flor do reggae”) e Zezé Di Camargo e Luciano (“Nosso amor é ouro”).

   Tem sido assim desde 1975, quando, na sua voz rascante, “Não deixe o samba morrer” estourou nas paradas de sucesso. Ela acredita que a sua permanência no seleto cenário da música brasileira deve-se ao fato de nunca ter dado bola a conselhos de amigos de ocasião. Sempre fez o que quis:

   — Não compro grilo de ninguém. Não sou linear, sou brasileira. E o Brasil tem samba de roda, maracatu, forró, samba de quadra, reisado. Como posso cantar uma coisa só?

   São quase 30 anos amealhando admiradores com seu estilo peculiar. A novelista Glória Perez é um deles:

   — Não perco um show da Marrom. Tenho todos os discos dela. Gosto da voz, gosto da intérprete, gosto da pessoa. Adoro especialmente os sambas, mas vibro também, e muito, com as músicas românticas, aquelas “de cortar os pulsos”, que ela canta como ninguém.

   Apesar dos elogios, Alcione não nasceu diva. Ela, que subiu ao palco pela primeira vez em São Luís, acompanhando a orquestra do pai, e que largou tudo para vir tentar a vida artística no Rio, desde cedo teve que brigar para conseguir o seu espaço.

   — Quando cheguei no Rio, tive que arrumar um emprego, mas precisava ter “boa aparência”. Hoje eu me olho no espelho e me acho um abalo. Mas, naquele tempo, eu era magrinha — diz. — O único trabalho que arrumei foi em uma loja de discos. Só depois consegui cantar na noite.

   Amigo desde os primeiros passos de Alcione no Rio de Janeiro, o cantor e compositor Jorge Aragão se diz um privilegiado pelo convívio com a cantora. Tanto que, em vez de falar da intérprete, prefere falar do seu lado humano:

   — É uma grande figura, honesta diante da vida e uma cantora que veste a música. Por isso ela tem uma carreira tão duradoura.

   Moradora do Recreio dos Bandeirantes, mangueirense e flamenguista roxa (“É um absurdo a torcida fazer a festa mais bonita do mundo e depois apanhar da polícia e ser roubada na saída”), Alcione, ao lembrar de seu começo de carreira, quando participava de programas de calouros, diz que sempre foi difícil uma mulher conseguir espaço no meio musical, principalmente no samba:

   — O samba sempre foi um meio machista e se engana quem acha que isso mudou. As gravadoras continuam acreditando pouco nas cantoras e nas instrumentistas do samba. Hoje, tem mulher mandando ver em baterias de escolas de samba, percussionistas de primeiro time — avalia. — Mas só começaram a me aceitar quando apareci tocando trompete. Era exótico.

“Sei quando o cosmos conspira a favor”

   Alcione tem autoridade para falar das dificuldades das mulheres no meio musical. Juntamente com Clara Nunes e Beth Carvalho, ela faz parte do primeiro time de cantoras a vender mais de cem mil discos, lá pelos anos 70. Mas passou por altos e baixos:

   — Sempre tive um público fiel. Em determinadas fases da minha vida vendi muito, fiquei em evidência. Em outras, nem tanto. São fases boas para descansar, pensar na vida — diz. — Sei quando o cosmos conspira a favor e aproveito. Estar na Indie hoje, uma gravadora brasileira que apostou em mim, só me deixa feliz. Ao contrário do que estava estabelecido pelas grandes gravadoras, eles apostaram em uma boa cantora e em um bom repertório.

   Parceira de ofício, Leci Brandão conheceu Alcione no Pujol, uma boate em Ipanema onde a amiga cantava no início dos anos 70.

   — Era uma casa de shows e ela era a atração fixa. Muitas vezes eu chegava antes do show só para vê-la. Ela já arrasava. É a minha grande amiga na música. Numa fase ruim da vida, quando quase perdi o apartamento onde moro, ela gravou um samba meu e do Darcy da Mangueira, “Quero sim”, para me levantar. Essas coisas a gente não esquece — diz. — Ela é uma das maiores cantoras, não do samba, mas da música brasileira de todos os tempos.

   Jorge Cardoso, que largou o posto de violonista da banda de Alcione para tornar-se seu produtor, convive com a cantora há 22 anos e diz que a receita de Marrom está na autenticidade:

   — Ela construiu uma carreira com muito suor e nunca fez concessões a ninguém. Mesmo quando não estava por cima como hoje sempre enchia casas de shows no Brasil inteiro. Ela é a voz da mulher brasileira e não teve vergonha de cantar Sullivan e Massadas quando todos diziam que eles eram bregas. Hoje, virou cult — diz. — Ela canta o sentimento do povo, principalmente das mulheres.

   Cardoso lembra de uma passagem para exemplificar a popularidade da cantora.

   — Certa vez fomos fazer um show no Rio Jazz Club ( casa que funcionava no Hotel Méridien, em Copacabana ) e Alcione preparou um repertório de standards americanos, de Cole Porter a Louis Armstrong. Quando ela começou a cantar, a platéia, cheia de madames, começou a pedir “Garoto maroto”, “Estranha loucura” e “Gostoso veneno”. É isso, ela agrada à patroa e à empregada.

O Globo)


Quem está vendendo*

1. “Ivete Sangalo ao vivo”
2. “Temas italianos de novelas”
3. “Inevitável” (Bruno & Marrone)
4. “Ira! acústico”
5. “Jota Quest ao vivo”
6. “A foreign sound” (Caetano Veloso)
7. “Faz uma loucura por mim” (Alcione)
8. “Under my skin” (Avril Lavigne)
9. “Fallen” (Evanescence)
10. “Zeca Pagodinho acústico”

* Discos mais vendidos no país entre 7 e 13 de julho
FONTE: Revista Sucesso CD


Quem está tocando*

1. Zezé Di Camargo & Luciano (“Nosso amor é ouro”)
2. Ivete Sangalo (“Flor do reggae”)
3. Alcione (“Você me vira a cabeça”)
4. Edson & Hudson (“Porta-retrato”)
5. Ana Carolina (“Encostar na tua”)
6. Sandy & Júnior (“Você pra sempre”)
7. Grupo Revelação (“Talvez”)
8. Bruno & Marrone (“Será”)
9. Alanis Morissette (“Everything”)
10. Guilherme & Santiago (“Perdi você”)

*Músicas mais tocadas na primeira semana de julho
FONTE: Revista Sucesso CD

O Globo)

 

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