Não que a política tenha deixado o
músico menos zen, mas Gilberto Gil, o ministro, considera-se hoje um homem
mais pragmático. Afirma ter descoberto, por exemplo, que a hipocrisia "é
uma ferramenta da civilidade" e diz vir fazendo uso dela com freqüência. À
frente da pasta da Cultura desde o início do governo Lula, já passou por
maus bocados: teve de demitir um amigo de infância suspeito de malversação
de recursos, bateu de frente com setores do PT que, entre outras coisas, o
acusaram de defender publicamente o governo do ex-presidente e amigo
Fernando Henrique Cardoso, e agora enfrenta críticas a seu projeto de
mudança da Lei Rouanet, que concede abatimentos no imposto de empresas que
patrocinam projetos culturais. Pai de sete filhos e avô cinco vezes, acaba
de completar 62 anos. Há 23 está casado com Flora Gil, que não só
administra sua carreira de cantor como, segundo conta, "dá palpite em
tudo" – política incluída. Por sugestão dela, o ministro tingiu
recentemente os cabelos de acaju. Pouco antes de sair de férias do
ministério para dar início a uma turnê musical pela Europa, Gil concedeu a
seguinte entrevista a VEJA.
Veja – Analisando o seu desempenho no
governo até hoje, qual seria, em sua opinião, o seu ponto fraco?
Gil – Eu não gosto de briga. E, muitas vezes, no exercício do poder,
você tem de ter uma certa volúpia.
Veja – Por quê?
Gil – A capacidade de brigar, de demandar com veemência – eu diria
até com o uso de uma certa violência simbólica – pode ajudar os governantes
a acelerar alguns processos. Mas de vez em quando eu também grito alto,
surpreendentemente. Quando criança, fiz um teste psicológico que apontou que
um dos meus traços básicos era "agressividade camuflada".
Veja – De que forma o senhor expressa essa
agressividade? Fala palavrões, dá murros na mesa?
Gil – Não, minhas bombas não são assim tão espetaculares. São bombas
caseiras, pequenas. Palavrão não falo, não gosto, só uso alegoricamente. Mas
às vezes bato na mesa. Faço assim: pá. E aumento o tom de voz.
Veja – O senhor disse ter descoberto que a
hipocrisia é uma ferramenta da civilidade. O que quis dizer com isso?
Gil – O exercício da hipocrisia se refere a um modo de ser
civilizado, necessário à convivência entre as pessoas. Veja o caso das
cantoras Marlene e Emilinha, rivais históricas na década de 50. Não fosse
pela hipocrisia, elas teriam se matado.
Veja – O senhor tem feito uso da
hipocrisia?
Gil – Toda hora.
Veja – O que o senhor achou das críticas a
seu projeto de mudar a Lei Rouanet, que estimula as empresas privadas a
patrocinar iniciativas culturais?
Gil – Temos de tratar os desiguais de forma desigual – essa é a
lógica que queremos aplicar. Queremos que a lei seja mais democrática, mais
abrangente e que atenda melhor os que historicamente não são atendidos. Da
forma como está, 87% dos recursos vão apenas para dois Estados, São Paulo e
Rio de Janeiro. E o dinheiro é usado para financiar somente projetos de
pessoas famosas. Ou seja, manifestações populares e manifestações culturais
de interesse das parcelas mais pobres da população não têm acesso aos
incentivos.
Veja – Mas não é arriscado tomar para o
governo a missão de definir o que é "manifestação cultural de interesse das
parcelas pobres da população"?
Gil – Se estivéssemos em um Brasil em que todos fossem educados e
ilustrados, evidentemente não teríamos mais setores populares diferenciados
e a cultura estaria uniformemente espalhada. Na medida em que você precisa
fazer ainda políticas de discriminação positiva, você faz. É uma prática que
está se disseminando pelo mundo em vários setores.
Veja – O senhor já declarou que filme ruim
também é cultura. Música ruim também é cultura?
Gil – Claro. É uma expressão cultural. Você tem um grupo, uma
comunidade que se expressa com essas características. Podemos até
desautorizá-las, mas nunca ignorá-las. A cultura é um software aberto.
Veja – Quando o senhor deixou de ser
vereador, reclamou de uma sensação de "inadequação" na política. Disse que
ela obrigava as pessoas a "brandir o chicote" e que o senhor era pautado
pela ética da bondade. Continua se pautando por essa ética?
Gil – Cada vez mais.
Veja – Mesmo agora, como ministro?
Gil – Qualquer coisa que eu tenha de fazer com relação a pessoas ou
grupos, por mais dura e contundente que seja, sempre passa pelo filtro da
minha interioridade. E, na minha interioridade, eu quero ser bom.
Veja – No início de seu mandato, o senhor
disse que o salário de ministro, de 8 000 reais, era pouco. Politicamente,
isso foi ruim...
Gil – Disse porque tinha um padrão de vida que implicava gastos acima
disso. Foi só isso que eu disse.
Veja – O senhor se considera ingênuo?
Gil – Eu sou ingênuo. Flora diz isso.
Veja – Além de ser sua mulher, Flora tem
uma participação intensa na sua vida profissional. Quais os limites que o
senhor estabelece para essa interferência?
Gil – Os limites são cada vez mais tênues. Eu e Flora temos uma vida
muito compartilhada. Ela mexe em tudo, tem acesso a tudo. Flora tem crachá
all areas [válido para todas as áreas].
Veja – Serve para o ministério também?
Gil – Sim, Flora me ajuda muito! No caso de Roberto Pinho [seu
compadre e ex-secretário, demitido no início do ano sob a acusação de tentar
se beneficiar de um contrato do ministério], foi ela quem me disse que
eu tinha de fazer uma reunião entre todos os envolvidos no conflito. Foi ela
quem chamou as pessoas, telefonou para todo mundo. Flora dá palpite em tudo
na minha vida.
Veja – Ela continua morando no Rio?
Gil – Agora está vindo mais comigo. Arrumou minha casa toda aqui em
Brasília. Flora é enérgica, dá piti, dá carão... É uma administradora muito
forte, muito firme.
Veja – Isso não o incomoda?
Gil – Não! Flora é mandona, mas ganhou muito da minha dimensão nos
últimos anos. Antigamente, ela não gostava do discurso do mistério, não se
interessava por isso. Hoje, até freqüenta candomblé...
Veja – E Preta Gil, sua filha, tornou-se
evangélica...
Gil – Pois é, Preta virou evangélica. Eu apenas disse a ela: "É assim
mesmo, filha: uns nascem, vão crescendo descrentes e, na maturidade, ficam
crentes. Outros, como eu, nascem crentes, crescem crentes e depois vão
ficando descrentes". Ela ficou decepcionada pelo fato de eu me dizer um
descrente.
Veja – O senhor se sente um descrente?
Gil – Sinto-me cada vez mais agnóstico. Eu me afastei do uso da
dimensão religiosa. Não peço mais a Deus que me dê isso ou que me livre
daquilo. Antes, eu tinha uma visão um pouco mais utilitária da
religiosidade. Agora, diminuiu a intensidade da busca. Estou mais próximo
daquilo que a letra de Andar com Fé diz: "Mesmo a quem não tem fé a
fé costuma acompanhar".
Veja – No videoclipe Kaya N'Gan Daya,
o senhor faz uma referência ao fato de ter dificuldades para entrar nos
Estados Unidos. Pode contar essa história?
Gil – Toda vez que eu entro lá, tenho de receber uma espécie de
perdão do governo. É um procedimento regular que a imigração americana adota
em relação a quem já sofreu processo por porte de drogas. No meu caso, fui
preso com maconha em 1976. Foi há muito tempo, mas não sai dos registros
deles, fica lá para sempre. O fato de eu ser ministro não muda nada. Agora
mesmo, quando fui fazer o show da ONU, tive de ficar numa salinha especial
onde eles processam o perdão. É um perdão a cada entrada.
Veja – Qual a posição do senhor sobre
drogas hoje?
Gil – Eu não fumo mais maconha. Perdi o hábito. Mas sou favorável à
liberação das drogas. Tenho a convicção de que elas deveriam ser tratadas
como os fármacos. Liberadas, mas submetidas às mesmas regras de controle e
vigilância que os medicamentos.
Veja – Com quem o senhor já falou sobre
isso?
Gil – Com muita gente. Oficiosamente, com o ministro Márcio Thomaz
Bastos, da Justiça, e com o senador Aloizio Mercadante.
Veja – O que o ministro achou?
Gil – Ele acha que o horizonte da liberação é o que se põe à nossa
frente. Já o senador Mercadante disse que vê outros mecanismos, anteriores à
liberação, que poderiam ser acionados. Com o presidente Lula ainda não falei
sobre o assunto.
Veja – Qual sua avaliação do governo Lula?
Gil – Acho que ele acertou muito na questão da macroeconomia e tem
feito um esforço razoável, que ainda não tem respostas muito fortes, na
questão da microeconomia. Também creio que o governo tem dificuldades na
gestão interna, na comunicação entre os ministérios. Esse relacionamento
está aquém do necessário, principalmente entre os ministérios e as
instâncias às quais eles têm de se reportar: Casa Civil, Ministério do
Planejamento e na Fazenda. Em geral, os fluxos com essas três instâncias são
difíceis.
Veja – O que o levou a declarar, tempos
atrás, que o ex-presidente Fernando Henrique era melhor do que o presidente
Lula?
Gil – Essa declaração foi tomada fora do contexto. Eu dei uma
série de exemplos de problemas que o Lula está enfrentando e que o Fernando
Henrique não enfrentou. E disse que, por causa disso, seria difícil o
governo Lula superar o anterior em popularidade. Os jornalistas daqui
distorceram tudo. Me lembro que estava na Espanha quando soube e fiquei
muito zangado. Dizia ao telefone: "Aqueles imbecis! Por que eles não são
honestos comigo?" Pronto, vocês não queriam um exemplo de agressividade
minha? Aí está.
Veja – O senhor já se desentendeu com algum
ministro?
Gil – Tive um momento com o ministro Luiz Fernando Furlan. Discutimos
sobre transgênicos. Eu sou pela posição da vigilância constante e da
submissão constante à apreciação da sociedade de tudo o que diga respeito a
transgênicos, porque é uma coisa nova, uma coisa complicada.
Veja – O senhor continua fazendo
macrobiótica?
Gil – Hoje em dia, meus hábitos alimentares são muito abertos. Uma
vez, quando Fernando Henrique era presidente, fui a um almoço na casa dele e
levei uma marmita, com meus bolinhos de arroz integral. Naquela ocasião,
tive um diálogo muito interessante com dona Ruth. Ela ponderava que o ser
humano é onívoro, que devemos comer de tudo. Disse que o presidente, por
exemplo, adorava tripas. Acho que foi um diálogo crítico em relação à minha
maneira de comer. Mas aquele era um momento de rigidez dietética. Agora,
estou mais variado.
Veja – É verdade que, quando sua filha
Preta posou nua, o senhor disse a ela que deveria ter feito regime antes?
Gil – Eu sou um vigilante do peso constante. Em relação a mim e aos
outros. Quando a Preta posou nua, eu disse que ela estava gordinha porque
sempre preferi a estética da magreza. Então, preferia que ela estivesse mais
magra. Depois, achava desnecessário ela usar elementos, assim,
extracurriculares para promover a carreira dela como cantora.
Veja – O senhor já disse que não acreditava
na posse em um casamento. Continua pensando assim?
Gil – Já vai para 23 anos que Flora e eu estamos juntos. Fomos
encontrando modos de atenuar nossa possessividade em relação um ao outro,
com uma visão mais generosa de que cada um de nós pertence ao mundo – e, ao
mesmo tempo, com uma visão mais rigorosa de que nós pertencemos um ao outro.
Usamos os nossos critérios. Eu sou ciumento, Flora é ciumenta. Mas fomos nos
livrando das oportunidades de exercer o ciúme. Deixei de causar ciúmes a
ela, ela deixou de causar ciúmes a mim, naquilo que eventualmente motivava
ciúmes – desde a questão sexual até a questão afetiva. Fomos tentando
intumescer a irracionalidade do ciúme com uma certa racionalidade dos nossos
hábitos. Mas a posse não é uma coisa sob controle, ela continua em aberto. O
que você tem de fazer são escolhas: se eu fizer tal coisa, aborreço a Flora.
Faço ou não faço? Meço a relação custo-benefício e escolho. E ela idem.
Veja – O senhor acha que as pessoas
conseguem diferenciar o ministro do músico Gilberto Gil?
Gil – Acho que não há necessidade de fazer essa distinção. As pessoas
sabem que eu sou o Gilberto Gil cantor, compositor e que estou ministro.
Como dizem os americanos, sou uma pessoa só, mas com dois chapéus.
Veja – É fácil trocar de chapéu?
Gil – Fácil! É tirar o terno, pegar a guitarra, subir no palco e
cantar.
(©
Revista Veja)
Gilberto Gil fala muito e
canta pouco em festival na França
da France Presse, em Juan les Pins (França)
O ministro da Cultura, Gilberto Gil, fez um show discreto
ontem no festival de jazz francês de Juan les Pins, no qual a música
eletrônica relegou a música brasileira à categoria de coadjuvante.
Rendendo homenagens a Chuck Berry, John Lennon e Bob Marley,
saltando e gritando, Gil, acompanhado por um quarteto eletrônico, cantou
poucas músicas brasileiras, que era o que o público queria ouvir.
Com longos discursos entre cada canção sobre a globalização ou a
escravidão, o que fez com que alguns espectadores gritassem "canta",
Gilberto Gil parece ter esquecido que não estava no festival como ministro.
Gil, que falou em francês, citou a atriz Brigitte Bardot, o
escritor Jean-Paul Sartre e também prestou tributo ao tenista Yannick Noah
quando cantou uma música sobre a luta contra o racismo.
Quando pediu a entrada de um grupo de dançarinos acrobatas
brasileiros no palco, o público teve a certeza de que, pelo menos por uma
noite, Gilberto Gil não era o herói da música popular brasileira.
(©
Folha Online)
Gilberto Gil se apresenta
no México em setembro
da France Presse, na Cidade do México
O ministro da Cultura, Gilberto Gil, fará um show no dia 24 de
setembro no Auditório Nacional mexicano, informaram os organizadores do
evento.
Gil, 61, nomeado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, não
parou de fazer apresentações no Brasil e no exterior. Recentemente anunciou
que deseja transformar o samba em patrimônio da humanidade.
Militante do Partido Verde há mais de 20 anos, Gil é um dos
fundadores do tropicalismo, movimento que na década de 1960 transformou
completamente a música popular brasileira incorporando influências
estrangeiras.
(©
Folha Online)