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Altos e baixos de texto rodriguiano

05-06-2008

Nelson Rodrigues

   Uma peça sobre um Rio de Janeiro que infelizmente não existe mais, aquele dos dourados anos 50. Uma história sobre a imprensa carioca que, felizmente, não existe mais, em que um jornal nanico explorava um escândalo com o objetivo de incrementar suas vendas. O novo trabalho da Cia. dos Atores, em cartaz no Teatro I do Centro Cultural Banco do Brasil, bebeu na fonte de Nelson Rodrigues, escritor que captou como ninguém o espírito carioca de meados do século passado, para dali extrair a essência da época. Se deu certo?

   A crítica Barbara Heliodora diz que não muito. Para ela, a peça “começa com o que parece cópia de um misto de muito de ‘O beijo no asfalto’, com pitadas de ‘Vestido de noiva’”, para prosseguir com cenas curtas, “em busca de um dinamismo rodriguiano”, que não dá resultado.

Para Barbara, falta ao texto “coluna dorsal definida”

   As restrições de Barbara dizem respeito, especificamente, ao texto de Filipe Miguez, colaborador antigo da companhia — são dele o excelente “Melodrama” e o menos bom “Cobaias de Satã” — que, segundo ela, “peca principalmente por não ter uma coluna dorsal definida”.

   Jefferson Lessa tem outra opinião. A restrição que faz ao texto é de ser um pouco longo. Outra observação — o excesso de clichês — não é exatamente uma crítica. “São aqueles clichês deliciosos”, escreve, “bons de se reencontrar, que divertem e servem para manter em alta a memória afetiva da cidade ao lembrar um tempo em que uma moça encontrada morta no porta-malas de um carro era motivo de escândalo”.

Críticos comentam esmero da produção

   Os dois críticos reconhecem que a companhia dirigida por Enrique Diaz (nesta montagem, a direção foi dividida com Ivan Sugahara) se esmerou na realização: cenários, figurinos, luz... E destacam as atrizes. Barbara chama atenção para Drica Moares (“Faz o possível por uma personagem mal delineada”); Jefferson também a elogia (“Está de chorar na pele da garota ingênua”) mas nota: quem dá um show é Susana Ribeiro.

   “Notícias cariocas” fica em cartaz no CCBB até 12 de setembro, de quarta-feira a domingo, às 19h.

O Globo)


Clichês gostosos de reencontrar

Jefferson Lessa

   É no mínimo curioso sair de um passeio pelas imediações do CCBB e assistir a “Notícias cariocas”. Por quê? Porque a área, bem preservada do jeito que está, guarda um pouco da aura de décadas passadas que será reencontrada dentro do teatro. Como a peça se passa nos anos 50, nosso passeio acaba servindo como uma preparação visual e sentimental para o que se verá no palco. É que ao centrar sua ação na briga entre um grande jornal e um jornaleco tentando se transformar para se manter no mercado, “Notícias cariocas” acaba falando, nas rebarbas, de uma cidade que não existe mais.

   E o faz recorrendo a clichês: estão lá o repórter policial que namora uma corista e se envolve mais do que devia com a polícia; o filho meio irresponsável do magnata da imprensa (o nome do cara é Bubi e ele tem um amigo socialite chamado Marianinho!); a mocinha sonhadora e boba que acaba protagonizando um escândalo; a milionária mimada e altiva cujas vontades não podem ser contrariadas; e tantos outros.

   Clichês, sim. Todos. Mas ressalte-se: são aqueles clichês deliciosos, bons de se reencontrar, que divertem e servem para manter em alta a memória afetiva da cidade ao lembrar um tempo em que uma moça encontrada morta no porta-malas de um carro era motivo de escândalo, bem como as festinhas de embalo com playboys da Zona Sul. Bons tempos aqueles.

Clima dos anos 50 é construído sem necessidade de cenários realistas

   Os figurinos de Marcelo Olinto ajudam a compor a atmosfera dos anos 50 com precisão e elegância. Bacana também o contraste entre modelitos realistas e gírias da época (a expressão “Qual é o busílis?” é emblemática) e o cenário moderníssimo de Gringo Cardia, clean e prático, além de bonito em sua simplicidade. O clima já está tão bem construído pelas roupas, pelas atuações, pelos poucos objetos de cena e pela luz de Maneco Quinderé que cenários realistas seriam mera apelação desnecessária.

   Muito interessante também a idéia de projetar, em alta velocidade, reproduções de páginas de jornais, fotos ou mesmo palavras soltas sobre a cena. Como o cenário é composto por painéis cor-decreme, instalados em três níveis, o palco se transforma numa espécie de tela. As palavras gigantes correndo sobre esta “tela” lembram um jornal sendo impresso nas rotativas, imagem tão cara aos filmes dos tempos retratados no palco. Parecem querer lembrar também que a imprensa e a palavra podem ser maiores que a vida, que podem engolir e transformar a realidade em narrativa. Como, de resto, nos provam os jornais diariamente.

   Sem mais filosofias baratas, vamos ao que interessa. Com cerca de duas horas de duração, “Notícias cariocas” é mais longa do que seria necessário. Meia horinha a menos e seria o espetáculo ágil que a direção conjunta de Ivan Sugahara e Enrique Diaz buscou. Salva-se, neste particular, pelas performances de um elenco homogêneo nas boas atuações. Drica Moraes está de chorar na pele da garota, ahn, ingênua (a gente fica querendo mais Drica em cena). Gustavo Gasparani realiza com brilho a transição do repórter policial meio cômico em profissional entusiasmado e amigo devotado. E César Augusto transforma seu Mirabeau Ribeiro num apaixonado e apaixonante homem de imprensa que não deixa de lado uma certa canalhice quando se trata de vender jornal.

Atriz dá um show no papel da mulher de homem de imprensa

   Mas é Susana Ribeiro quem dá o show como Marta Novais, a mulher sensata, inteligente, sensível e acolhedora de Mirabeau, jornalista que, por força de sua personalidade e das circunstâncias, acaba misturando casa e redação. É a verdadeira grande mulher por trás do homem público, a dona de casa que a gente queria ter em posição de comando em qualquer redação. A atriz consegue, com muita inteligência e um esforço aparentemente mínimo, passar toda a carga desse tipo de esposa e mulher. Uma curiosidade: no programa, sua personagem é identificada como um tipo, a “mulher de jornalista”. Nada poderia ser mais adequado.

   Contas feitas, o saldo de “Notícias cariocas” é bastante positivo. Leve, divertido, bonito de se ver. Atenção à música: a engraçadíssima canção sobre os jornais de sangue, original da década de 50, é perfeita e dá a impressão de que foi composta especialmente para a peça. O espectador que for em busca de diversão sem maiores pretensões vai sair satisfeito. Talvez até guarde com carinho na lembrança alguns personagens. Até o fim do jantar ou do drinque pós-teatro.

O Globo)


Não existe salvação para texto confuso

Barbara Heliodora

   Diz o autor, Filipe Miguez, que, em “Notícias cariocas”, o que o “encanta é a perspectiva de mostrar o mundo em que Nelson (Rodrigues) viveu e criou, mas não me agrada a idéia de produzir um texto de acento rodriguiano”, insistindo em ter “liberdade editorial”. No entanto, o que está no palco do Teatro I do Centro Cultural Banco do Brasil, comemorando os 15 anos da Cia. dos Atores, começa com o que parece cópia de um misto de muito de “O beijo no asfalto”, com pitadas de “Vestido de noiva” e outras. O texto, composto de cenas curtas, em busca de um dinamismo rodriguiano, peca principalmente por não ter uma coluna dorsal definida: passada na década de 1950, a peça foi concebida para mostrar os porões morais da imprensa, mas falta coerência, pois a fabricação e a exploração de um escândalo a fim de fazer crescer a vendagem de um pequeno jornal, tema inicial, ficam perdidas a partir de certo ponto. A trama passa pela mudança de emprego de um jornalista e pela morte do editor do pequeno jornal sem que isso tenha conseqüências ou importância dramática, e principalmente por parecer estar mais interessada no alvo dos escândalos do que na exploração do mesmo. Na verdade, um percentual altíssimo do texto é usado para o suposto clima das redações àquele tempo, com pouca ação (diferenciada de agitação, que há muita). O resultado é uma repetição um tanto cansativa.

Direção de Enrique Diaz e Ivan Sugahara procura não deixar a peteca cair

   A cenografia de Gringo Cardia é atraente e funcional, e muito bem iluminada por Maneco Quinderé. Um espaço amplo e claro, em três planos, com painéis verticais, fixos e corrediços, serve de tela para os vídeos, também de Cardia, que evocam o Rio ou aspectos vários da vida de um jornal, com mesas, máquinas de escrever etc. Já os figurinos de Marcelo Olinto são de modo geral bons, mas tropeçam nos da moça rica, pois Olinto a faz usar, a todas as horas do dia, roupas mais adequadas a fim de tarde ou noite. Se a intenção fosse crítica, o que não parece, os vestidos deveriam ser de mau gosto, o que não são.

   A direção dupla de Enrique Diaz e Ivan Sugahara procura não deixar a peteca cair, recorrendo à rapidez e à agitação, que por vezes cortam a possibilidade de maior expressão. A verdade, porém, é que falta tensão ao próprio texto, e tudo resulta repetitivo e confuso.

   O elenco, que tem de viver personagens marcados pelo universo de Nelson Rodrigues, registra mais tipos do que indivíduos: César Augusto e Marcelo Valle emprestam um pouco mais de verdade ao Diretor e ao Redator-Chefe. Gustavo Gasparani apela mais para o entusiasmo; Marcelo Olinto está rígido e inexpressivo como o repórter político; e Felipe Rocha, discreto em suas pequena aparições. No naipe feminino quem se sai melhor é Drica Moraes, que faz o possível por uma personagem mal delineada. Bel Garcia é de um artificialismo irritante na rica filha do dono de um grande jornal; Susana Ribeiro é discreta na mulher do diretor do jornal pequeno; e Raquel Rocha erra demais nos exageros da atriz de revista.

   Não há dúvida de que foi feito um esforço considerável na realização, mas o texto-base é confuso, impossível de ser salvo por um elenco de alcance modesto, como provavelmente por qualquer outro.

O Globo)

 

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