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05-06-2008
TEATRO Casa de candomblé abre portas para peça que trata da busca de identidade por meio das mulheres do sertão do NE VALMIR SANTOS O pagode come solto do lado de fora do hotel que hospeda boa parte dos elencos. Protagonismo dos 16 artistas da cia. São Jorge de Variedades. Roda de pandeiro, gogó e toda sorrisos. Dali a meia hora, eles vão conhecer o próximo espaço onde apresentarão "As Bastianas": uma "roça de candomblé", como se diz na religião afro-brasileira. Depois do asfalto, o microônibus escolar (todo o transporte do evento é feito em veículos desse tipo, graças às férias dos alunos da rede pública) levanta o pó da rua de terra na Estância Jóquei Clube, onde fica o Ilê Asé Katispero, casa de candomblé transformada em palco neste Festival Internacional de Teatro (FIT) de São José do Rio Preto, no noroeste paulista, que vai até domingo. O terreno amplo, de árvores floridas, lembra uma chácara, como muitas do bairro. Ao fundo, está o barracão onde acontecem as cerimônias da casa de candomblé, cujo nome por extenso é Ilê Asé Adnukuenú Ingomensá Katispero, traduzido do dialeto africano banto como "local onde Oxalá habita e o espera". Quem explica é o babalorixá (pai-de-santo) Carlos Siciliano,
39, batizado na religião como Kingongo d'Anun Gongo, ou "o mago da aldeia",
no banto. Na tarde de quarta-feira, ele recebeu a cia. São Jorge para conhecer o espaço onde se apresenta hoje e amanhã. "Essa aproximação com a cultura é importante. O teatro é um forte ritual", diz Siciliano. A casa existe desde 1964. "As Bastianas" vingou no ano passado como adaptação de contos do primeiro livro do ator e poeta Gero Camilo, "A Macaúba da Terra" (2002). Trata da busca de uma nova identidade e do cotidiano de uma aldeia no sertão nordestino, com suas histórias e sua religiosidade. São mulheres que falam da criação, da luta pela terra e da vontade humana de amor, sabedoria e sossego. O espetáculo é itinerante. O público acompanha cenas ao ar livre e em local fechado. Começa na rua, quando uma vendedora ambulante surge com seus "bolos de girassol", abre-alas das histórias de seis devotas, sobretudo devotas de uma cultura popular, e os quatro missionários que encontram no caminho. Em São Paulo, o espetáculo foi apresentado em albergues
municipais (Canindé e Boracea) e na Febem do Tatuapé. A idéia de
apresentá-lo numa casa de candomblé partiu de um dos organizadores do
festival, Jorge Vermelho. A São Jorge endossou. A estética primitiva, naïf, perpassa a dramaturgia e a encenação de "A Noiva", espetáculo de Campo Grande que estréia hoje na programação com uma das companhias pioneiras do teatro sul-mato-grossense: Gutac/Inecon (Grupo Teatral Amador Campo-grandense e Instituto de Educação e Cultura Conceição Freitas), fundada em 1971. Segundo a autora e diretora Cristina Mato Grosso, a composição da Grécia Antiga e sua mitologia entrelaça a tragédia que envolve a atração incestuosa de um pai pela filha, a submissão forçada desta a um casamento com um coronel e o conflito da autoridade com o namorado da moça, também um explorado. Há diálogos que se apóiam na estrutura medieval do cordel. O espaço cênico é rústico. "O único recurso é um carrinho de mão que se transforma num fogão. É um espetáculo em estado puro, no sentido trágico", diz Mato Grosso, influenciada nos ano 70 e 80 pelo teatro dos diretores Carlos Alberto Soffredini e Ilo Krugli, que veio ao Festival com a montagem, dividida em duas partes, de "Victor Hugo, Onde Você Está?". O jornalista Valmir Santos viaja a convite da organização do festival (© Folha de S. Paulo)
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