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Sobre todas as coisas

05-06-2008

Gal Costa

 

Artur Xexéo

   Gal Costa está chegando ao Rio para quatro apresentações no Canecão: apertem os cintos porque serão noites de turbulência. Tem sido assim desde abril de 1969, quando, no meio de um cenário de Hélio Oiticica, a cantora baiana ocupou, na Lagoa, o palco da hoje extinta boate Sucata para mostrar ao público carioca como o tropicalismo podia ser “divino, maravilhoso”. Shows de Gal nos palcos do Rio não costumam passar em branco. São memoráveis os espetáculos que ela protagonizou no Teatro Tereza Rachel, em Copacabana (“A todo vapor”, em 1971, quando comandava o carnaval com a marchinha “Me segura que eu vou ter um troço”), no Teatro da Praia, também em Copacabana (“Cantar”, em 1974, quando embarcava nas sutilezas da direção musical de João Donato), no desativado Imperator, no Méier (“O sorriso do gato de Alice”, em 1994, onde cantava “Vaca profana” com os seios de fora). A platéia carioca nunca foi indiferente a um show de Gal. Para o que começa quinta-feira no Canecão, em Botafogo, ela também preparou surpresas.

   — Posso dizer que, com este espetáculo, começo as comemorações dos meus 40 anos de carreira — contabiliza. — A minha geração continua fazendo coisas interessantes. Por isso se mantém até hoje.

   Para tornar interessantes as coisas de “Todas as coisas e eu” — nome do show, que foi batizado com o mesmo nome de seu último disco, um sucesso lançado há menos de um ano e que já vendeu mais de cem mil cópias — Gal optou por um acompanhamento instrumental incomum.

   — Estou fazendo o show com um quarteto: sopro, bateria, contra-baixo e violão. Sem piano — descreve. — Faço questão que seja minimalista. Quero que os músicos toquem de forma econômica, delicada. Que não falem ao mesmo tempo. Que valorizem o meu canto e também a execução deles. Até as coisas que exigem mais energia quero que sejam tocadas com mais pressão. Quando precisar bater, que não bata com muito barulho. É uma contenção proposital.

   A economia de instrumentos provoca duetos inesperados, como na interpretação de “Assum preto”, de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira, em que é acompanhada só por saxofone, ou em “Nada além”, de Custódio Mesquita e Mário Lago, quando canta só ao som do baixo.

Um vestido diferente por noite

   Gal gosta de apostar no figurino. Em 1980, quando ficou um ano em cartaz no Teatro dos 4, na Gávea, com “Gal tropical”, a cantora que ficou célebre vestindo túnicas hippies entrava em cena elegantíssima em modelos de Guilherme Guimarães. Em 1973, em “Índia”, no Teatro da Galeria, no Flamengo, a platéia não entendia como ela conseguia equilibrar a saia nas ancas. Em 1988, quando se apresentou no Scala II (assim era conhecido o segundo andar da casa no Leblon), o jeans da Forum e a jaqueta de Gregório Faganello que usava eram mais comentados que o repertório.

   Desta vez, com uma silhueta 11 quilos mais magra da que vinha mostrando nos últimos anos — e nos últimos shows — Gal, dirigida por Bia Lessa, estará, em cada uma das quatro noites no Canecão, com um modelo diferente confeccionado por Narciso Rodrigues.

   O repertório segue o clima do disco de sucesso com standards brasileiros da fase pré-bossa nova. Quer dizer, da fase pré-bossa nova com algumas exceções. Gal está cantando, por exemplo, “Folhas secas”, de Nelson Cavaquinho e Guilherme de Brito, de 1973; e “Dama do cassino”, de Caetano Veloso, de 1988. Entre as “coisas mais recentes”, há, pelo menos, uma preciosidade: “Três da madrugada”, de Torquato Neto e Carlos Pinto, que Gal gravou em 1973 num compacto simples. Mas a maioria das 23 canções são mesmo os clássicos dos anos 20 aos 60: “Pra machucar meu coração”, de Ary Barroso; “Nossos momentos”, de Luís Reis e Haroldo Barbosa... Gal revirou o baú.

   A fórmula é infalível e o baú, inesgotável. Tanto que a Indie Records, a gravadora que lançou o CD, propôs à cantora a gravação de um “Todas as coisas e eu número 2”.

   — Não aceitei. Seria oportunismo.

   E mais um motivo para ser acusada de não acreditar na existência de bons compositores jovens, como aconteceu na época do lançamento do disco.

   — Isso foi uma má vontade da imprensa comigo por causa do Episódio ACM — desabafa Gal. — Qualquer coisa que eu dissesse seria mal interpretada. Mas eu estou cantando Lenine ( “Caribantu”, parceria com Sérgio Natureza ). E ele é um compositor pós-minha geração.

   O “Episódio ACM” a que Gal se refere aconteceu quando o político baiano Antonio Carlos Magalhães foi acusado de violação no painel do Senado e a cantora mostrou-se solidária a ele.

   Mas Gal não prepara surpresas políticas para a minitemporada no Canecão. Ela queria surpreender mesmo mostrando uma canção inédita do sessentão Chico Buarque. O compositor lhe entregou duas melodias — isso mesmo, melodias! — que compôs para uma versão teatral musicada que produtores da Itália planejaram fazer de “Dona Flor e seus dois maridos”.

O Globo)


Nossos momentos

NO TEREZA RACHEL:

A crônica do verão carioca de 71 só se completa quando é lembrado o show em que ela cantava “Antonico”, “Vapor barato”, “Detalhes”...

NO TEATRO DA GALERIA

Com umbigo de fora, flor no cabelo, um bustiê, muita sensualidade e, principalmente, uma afinação absurda, Gal mostrou, em 1973, que a guarânia “Índia” (“Índia, teus cabelos nos ombros caídos”) não era tão cafona assim

NO TEATRO DA PRAIA

Gal encontra, em 1974, as sutilezas harmônicas de João Donato, o diretor musica de “Cantar”. Um show intimista e incompreendido. No repertório, “Barato total”, de Gilberto Gil, e “Até quem sabe”, de João Donato

NO TEATRO DOS 4

Um fenômeno no Shopping da Gávea: em 1979, “Gal tropical” ficou um ano em cartaz . O diretor Guilherme Araújo deu um banho de loja na cantora que fazia um dueto arrepiante com a guitarra de Robertinho do Recife

NO CANECÃO

O show “Fantasia”, de 1981, tinha cenário sofisticado e Gal, sentada numa lua em quarto crescente e tocando violão, cantava uma canção infantil: “Lili” (“Eu passo a vida cantando/ Hi, Lili; Hi, Lili; Hi Lo”)

NO SCALA II

Em 1988, Gal surpreendeu o público botando no palco o bloco baiano Raízes do Pelô. No roteiro musical, ela cantava “Lua de mel”, de Lulu Santos. Mas a crítica só falou da jaqueta curta desenhada por Gregorio Faganello

NO IMPERATOR

Gal fez seu espetáculo mais polêmico em 1994. Dirigido por Gerald Thomas, “O sorriso do gato de Alice” escondia os músicos, fazia a cantora se arrastar por um telhado como uma gata no cio e ainda a deixava com os seios à mostra

O Globo)


Sem nova música de Chico Buarque

   O projeto italiano não foi para a frente mas as músicas ficaram. Gal entregou as melodias para José Miguel Wisnik e aguarda as letras. Tem esperança de que, pelo menos, uma fique pronta para a estréia carioca de “Todas as coisas e eu”. Gal ainda não sabe, mas não vai ficar.

   — Estive muito ocupado com outras coisas nos últimos tempos, inclusive com a Flip ( Festa Literária Internacional de Paraty ), onde dirigi show e fiz palestra — justifica Wisnilk. — Só agora voltei para casa e posso me concentrar, e é o que vou fazer. Mas sou sempre demorado para fazer letra de música, e esse é um tipo de trabalho para o qual não se pode estabelecer prazo.

   Mesmo sem música nova de Chico, Gal, que há cinco anos não faz temporada carioca, vai brindar o público com um velho hábito que tinha abandonado em suas apresentações mais recentes: cantar acompanhando-se ao violão. Como aconteceu em “A todo vapor”, quando interpretava “Detalhes”, de Roberto e Erasmo Carlos, e em “Gal tropical”, quando cantava “Força estranha”, de Caetano Veloso. Desta vez, são três de uma enfiada, logo no início do espetáculo: “Nega manhosa”, de Herivelto Martins; “Samba rubro-negro”, de Wilson Baptista e Jorge de Castro; e “Um favor”, de Lupicínio Rodrigues.

“A gente sobrevivia de bilheteria, mas hoje não dá”

   Mas se perguntarem a Gal qual o melhor momento do show, ela vai citar um que acontece quase no fim:

   — De “Ave-Maria no morro” (de Herivelto Martins ) até “Vapor barato” ( de Jards Macalé e Waly Salomão ) é tudo muito tenso. ( Entre as duas, ela canta “Assum preto”, de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira. ) Deixa as pessoas sem respiração. É muito delicado, mas também tem densidade.

   Gal Costa chega ao Rio um mês após estrear o show em São Paulo, mostrá-lo em Milão, passar por Nova York para provar as roupas de Narciso Rodrigues e fazer um concerto em Porto Alegre. Chega ao Canecão prontinho. São só quatro espetáculos, como exigem os novos tempos.

   — Tudo mudou. Antigamente, a gente conseguia fazer temporadas grandes e sobrevivia. Cheguei a fazer o Canecão de terça a domingo por quatro meses com a casa abarrotada de gente — recorda-se. — Hoje, temos uma cultura desmantelada. Precisamos de patrocinador. A gente sobrevivia de bilheteria, mas hoje não dá. O Canecão não tem um som espetacular. Estou trazendo som de fora. O Canecão não tem um equipamento de luz maravilhoso. Estou adicionando um material. Isso é caro. A bilheteria não vai pagar.

O Globo)

 

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