Artur Xexéo
Gal Costa está chegando ao Rio para quatro apresentações no
Canecão: apertem os cintos porque serão noites de turbulência. Tem sido
assim desde abril de 1969, quando, no meio de um cenário de Hélio Oiticica,
a cantora baiana ocupou, na Lagoa, o palco da hoje extinta boate Sucata para
mostrar ao público carioca como o tropicalismo podia ser “divino,
maravilhoso”. Shows de Gal nos palcos do Rio não costumam passar em branco.
São memoráveis os espetáculos que ela protagonizou no Teatro Tereza Rachel,
em Copacabana (“A todo vapor”, em 1971, quando comandava o carnaval com a
marchinha “Me segura que eu vou ter um troço”), no Teatro da Praia, também
em Copacabana (“Cantar”, em 1974, quando embarcava nas sutilezas da direção
musical de João Donato), no desativado Imperator, no Méier (“O sorriso do
gato de Alice”, em 1994, onde cantava “Vaca profana” com os seios de fora).
A platéia carioca nunca foi indiferente a um show de Gal. Para o que começa
quinta-feira no Canecão, em Botafogo, ela também preparou surpresas.
— Posso dizer que, com este espetáculo, começo as comemorações dos
meus 40 anos de carreira — contabiliza. — A minha geração continua fazendo
coisas interessantes. Por isso se mantém até hoje.
Para tornar interessantes as coisas de “Todas as coisas e eu” —
nome do show, que foi batizado com o mesmo nome de seu último disco, um
sucesso lançado há menos de um ano e que já vendeu mais de cem mil cópias —
Gal optou por um acompanhamento instrumental incomum.
— Estou fazendo o show com um quarteto: sopro, bateria,
contra-baixo e violão. Sem piano — descreve. — Faço questão que seja
minimalista. Quero que os músicos toquem de forma econômica, delicada. Que
não falem ao mesmo tempo. Que valorizem o meu canto e também a execução
deles. Até as coisas que exigem mais energia quero que sejam tocadas com
mais pressão. Quando precisar bater, que não bata com muito barulho. É uma
contenção proposital.
A economia de instrumentos provoca duetos inesperados, como na
interpretação de “Assum preto”, de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira, em que
é acompanhada só por saxofone, ou em “Nada além”, de Custódio Mesquita e
Mário Lago, quando canta só ao som do baixo.
Um vestido diferente por noite
Gal gosta de apostar no figurino. Em 1980, quando ficou um ano em
cartaz no Teatro dos 4, na Gávea, com “Gal tropical”, a cantora que ficou
célebre vestindo túnicas hippies entrava em cena elegantíssima em modelos de
Guilherme Guimarães. Em 1973, em “Índia”, no Teatro da Galeria, no Flamengo,
a platéia não entendia como ela conseguia equilibrar a saia nas ancas. Em
1988, quando se apresentou no Scala II (assim era conhecido o segundo andar
da casa no Leblon), o jeans da Forum e a jaqueta de Gregório Faganello que
usava eram mais comentados que o repertório.
Desta vez, com uma silhueta 11 quilos mais magra da que vinha
mostrando nos últimos anos — e nos últimos shows — Gal, dirigida por Bia
Lessa, estará, em cada uma das quatro noites no Canecão, com um modelo
diferente confeccionado por Narciso Rodrigues.
O repertório segue o clima do disco de sucesso com standards
brasileiros da fase pré-bossa nova. Quer dizer, da fase pré-bossa nova com
algumas exceções. Gal está cantando, por exemplo, “Folhas secas”, de Nelson
Cavaquinho e Guilherme de Brito, de 1973; e “Dama do cassino”, de Caetano
Veloso, de 1988. Entre as “coisas mais recentes”, há, pelo menos, uma
preciosidade: “Três da madrugada”, de Torquato Neto e Carlos Pinto, que Gal
gravou em 1973 num compacto simples. Mas a maioria das 23 canções são mesmo
os clássicos dos anos 20 aos 60: “Pra machucar meu coração”, de Ary Barroso;
“Nossos momentos”, de Luís Reis e Haroldo Barbosa... Gal revirou o baú.
A fórmula é infalível e o baú, inesgotável. Tanto que a Indie
Records, a gravadora que lançou o CD, propôs à cantora a gravação de um
“Todas as coisas e eu número 2”.
— Não aceitei. Seria oportunismo.
E mais um motivo para ser acusada de não acreditar na existência de
bons compositores jovens, como aconteceu na época do lançamento do disco.
— Isso foi uma má vontade da imprensa comigo por causa do Episódio
ACM — desabafa Gal. — Qualquer coisa que eu dissesse seria mal interpretada.
Mas eu estou cantando Lenine ( “Caribantu”, parceria com Sérgio Natureza
). E ele é um compositor pós-minha geração.
O “Episódio ACM” a que Gal se refere aconteceu quando o político
baiano Antonio Carlos Magalhães foi acusado de violação no painel do Senado
e a cantora mostrou-se solidária a ele.
Mas Gal não prepara surpresas políticas para a minitemporada no
Canecão. Ela queria surpreender mesmo mostrando uma canção inédita do
sessentão Chico Buarque. O compositor lhe entregou duas melodias — isso
mesmo, melodias! — que compôs para uma versão teatral musicada que
produtores da Itália planejaram fazer de “Dona Flor e seus dois maridos”.
(©
O Globo)
Nossos momentos
NO TEREZA RACHEL:
A crônica do verão carioca de 71 só se completa quando é lembrado o show em
que ela cantava “Antonico”, “Vapor barato”, “Detalhes”...
NO TEATRO DA GALERIA
Com umbigo de fora, flor no cabelo, um bustiê, muita sensualidade e,
principalmente, uma afinação absurda, Gal mostrou, em 1973, que a guarânia
“Índia” (“Índia, teus cabelos nos ombros caídos”) não era tão cafona assim
NO TEATRO DA PRAIA
Gal encontra, em 1974, as sutilezas harmônicas de João Donato, o diretor
musica de “Cantar”. Um show intimista e incompreendido. No repertório,
“Barato total”, de Gilberto Gil, e “Até quem sabe”, de João Donato
NO TEATRO DOS 4
Um fenômeno no Shopping da Gávea: em 1979, “Gal tropical” ficou um ano em
cartaz . O diretor Guilherme Araújo deu um banho de loja na cantora que
fazia um dueto arrepiante com a guitarra de Robertinho do Recife
NO CANECÃO
O show “Fantasia”, de 1981, tinha cenário sofisticado e Gal, sentada numa
lua em quarto crescente e tocando violão, cantava uma canção infantil:
“Lili” (“Eu passo a vida cantando/ Hi, Lili; Hi, Lili; Hi Lo”)
NO SCALA II
Em 1988, Gal surpreendeu o público botando no palco o bloco baiano Raízes do
Pelô. No roteiro musical, ela cantava “Lua de mel”, de Lulu Santos. Mas a
crítica só falou da jaqueta curta desenhada por Gregorio Faganello
NO IMPERATOR
Gal fez seu espetáculo mais polêmico em 1994. Dirigido por Gerald Thomas, “O
sorriso do gato de Alice” escondia os músicos, fazia a cantora se arrastar
por um telhado como uma gata no cio e ainda a deixava com os seios à mostra
(©
O Globo)
Sem nova música de Chico Buarque
O projeto italiano não foi para a frente mas as músicas ficaram.
Gal entregou as melodias para José Miguel Wisnik e aguarda as letras. Tem
esperança de que, pelo menos, uma fique pronta para a estréia carioca de
“Todas as coisas e eu”. Gal ainda não sabe, mas não vai ficar.
— Estive muito ocupado com outras coisas nos últimos tempos,
inclusive com a Flip ( Festa Literária Internacional de Paraty ),
onde dirigi show e fiz palestra — justifica Wisnilk. — Só agora voltei para
casa e posso me concentrar, e é o que vou fazer. Mas sou sempre demorado
para fazer letra de música, e esse é um tipo de trabalho para o qual não se
pode estabelecer prazo.
Mesmo sem música nova de Chico, Gal, que há cinco anos não faz
temporada carioca, vai brindar o público com um velho hábito que tinha
abandonado em suas apresentações mais recentes: cantar acompanhando-se ao
violão. Como aconteceu em “A todo vapor”, quando interpretava “Detalhes”, de
Roberto e Erasmo Carlos, e em “Gal tropical”, quando cantava “Força
estranha”, de Caetano Veloso. Desta vez, são três de uma enfiada, logo no
início do espetáculo: “Nega manhosa”, de Herivelto Martins; “Samba
rubro-negro”, de Wilson Baptista e Jorge de Castro; e “Um favor”, de
Lupicínio Rodrigues.
“A gente sobrevivia de bilheteria, mas hoje não dá”
Mas se perguntarem a Gal qual o melhor momento do show, ela vai
citar um que acontece quase no fim:
— De “Ave-Maria no morro” (de Herivelto Martins ) até
“Vapor barato” ( de Jards Macalé e Waly Salomão ) é tudo muito
tenso. ( Entre as duas, ela canta “Assum preto”, de Luiz Gonzaga e
Humberto Teixeira. ) Deixa as pessoas sem respiração. É muito delicado,
mas também tem densidade.
Gal Costa chega ao Rio um mês após estrear o show em São Paulo,
mostrá-lo em Milão, passar por Nova York para provar as roupas de Narciso
Rodrigues e fazer um concerto em Porto Alegre. Chega ao Canecão prontinho.
São só quatro espetáculos, como exigem os novos tempos.
— Tudo mudou. Antigamente, a gente conseguia fazer temporadas
grandes e sobrevivia. Cheguei a fazer o Canecão de terça a domingo por
quatro meses com a casa abarrotada de gente — recorda-se. — Hoje, temos uma
cultura desmantelada. Precisamos de patrocinador. A gente sobrevivia de
bilheteria, mas hoje não dá. O Canecão não tem um som espetacular. Estou
trazendo som de fora. O Canecão não tem um equipamento de luz maravilhoso.
Estou adicionando um material. Isso é caro. A bilheteria não vai pagar.
(©
O Globo)