Aniversário coincidirá com criação de uma
Fundação para catalogar sua arte
Júlio Cavani
Da equipe do DIARIO
Como escultor, desenhista, gravurista e
ceramista ou como professor, agregador cultural e ativista político, o
pernambucano Abelardo da Hora marcou a arte brasileira e chega aos 80 anos
de vida no dia 31 de julho produzindo e renovando suas contribuições. A obra
do artista ainda merece um registro maior, como um livro ilustrado à altura
de sua importância ou uma grande retrospectiva, pois a última ocorreu há 16
anos. Na próxima quinta, no Barrozo, sua família comemora o aniversário
anunciando a criação de uma Fundação com seu nome.
Segundo Rodrigo Duguay, neto de Abelardo, as primeiras ações da Fundação,
que ainda depende de patrocínios e apoios governamentais, são a catalogação
da coleção pessoal do artista, a inauguração de um museu, a filmagem de um
documentário e o lançamento de dois livros com sua obra. Um deles, com um
panorama histórico e analítico, terá como eixo um ensaio escrito pelo poeta
Weydson de Barros Leal, autor de Brennand Desenhos. O outro vai reeditar uma
série de desenhos coloridos sobre as danças brasileiras do Carnaval,
lançadas na inauguração da galeria Mirante das Artes, de Pietro Maria Bardi.
MESTRE -"Duas linhas mestras vão guiar o texto: o valor original da
obra em si e a importância dele como mentor da grande geração da pintura
pernambucana no século XX, que inclui Brennand e Samico como seus antigos
discípulos", antecipa Weydson, sobre seu ensaio. O documentário vai ser
dividido em dois capítulos, Abelardo e o Povo, sobre sua atuação social, e
Abelardo e o Novo, sobre a contribuição estética de sua obra. Roberto
Menezes vai dirigir o vídeo, que começa a ser rodado no segundo semestre.
Paralelamente, um grupo de estudantes da Universidade Católica também
prepara um filme sobre o artista.
"Por incrível que pareça, o único livro existente sobre meu avô é aquele
organizado por Paulo Bruscky e Ronildo Maia Leite, lançado quando ele
completou 40 anos de carreira, uma publicação muito boa, mas modesta,
editada em preto e branco", lembra Duguay, se referindo a Abelardo de Todas
as Horas, de 1988. Abelardo também é bastante citado em Memórias do Ateliê
Coletivo, escrito pelo pintor José Cláudio, mas nenhuma das duas obras está
disponível em livrarias. "Ele está completando 80 anos em 2004 e até agora
ninguém se manifestou."
Abelardo da Hora continua trabalhando a todo vapor em seu ateliê na Rua
do Sossego. Em 2004 ele conclui dois novos monumentos, um em homenagem a
Luiz Gonzaga, que vai ficar em uma praça na BR-232, e outro dedicado aos
passistas de frevo, com três metros de altura, a ser instalado no Aeroporto
dos Guararapes, onde já foi inaugurada sua escultura de Gilberto Freyre. Ele
é um dos artistas pernambucanos com mais monumentos distribuídos pela
cidade, em locais como o Parque 13 de Maio, o Zoológico de Dois Irmãos, a
Praça da República, a Praça Euclides da Cunha (Clube Internacional) e a
Praça do DIARIO, onde há uma fonte e três bustos seus, um deles retratando
Assis Chateubriand. "Vou fazer uma escultura sobre os Sem-Terra", promete o
artista, para si mesmo e para a sociedade.
(©
Pernambuco.com)
Na luta por uma arte democrática e plural
Obra de Abelardo da Hora é marcada pelo
engajamento temático
Nascido em São Lourenço da Mata, Abelardo
Germano da Hora, além de ser reconhecido como artista, desempenhou um
importante papel ao fundar e integrar a Sociedade de Arte Moderna do Recife,
o Ateliê Coletivo e o Movimento de Cultura Popular, determinantes nos rumos
artísticos de Pernambuco, tanto por suas contribuições estéticas quanto
pelas sociais. Sempre esquerdista, hoje ele é admirado por todos,
independente de ideologias políticas. Também já ocupou cargos públicos, como
o de secretário de Educação de quatro prefeitos, entre as décadas de 1950 e
1960, sendo preso pela ditadura em 1964. "Aqueles bandidos rasgaram muitos
dos meus álbuns", resmunga o mestre com razão, pois os militares, entre
outros feitos, destruíram uma obra sua de mais de cinco metros que seria a
primeira escultura do Dinamismo no Brasil.
Nesse período, ele transformou o Sítio da Trindade no espaço de cultura
e lazer que permanece até hoje. Confeccionou ainda dois monumentos em
homenagem aos trabalhadores informais e projetou os escorregos-esculturas de
concreto do Parque 13 de Maio e de outras praças que criou. "Gastava-se
muito dinheiro com brinquedos de ferro e madeira, que machucavam e
precisavam ser trocados". Junto com Arraes, ele consolidou o Movimento de
Cultura Popular, que alfabetizava em centros culturais a partir de uma
pedagogia desenvolvida pelo artista para ensinar arte.
SENSUALIDADE - Mesmo com algumas exceções em sua produção recente,
voltadas para a sensualidade feminina, Abelardo sempre foi defensor de uma
arte democrática nas temáticas e na linguagem comunicativa. "Minha arte é
feita de amor e solidariedade. O amor eu dedico às mulheres e a
solidariedade ao povo." Mesmo nas musas percebe-se uma preocupação com a
cultura brasileira, manifestada nas curvas voluptuosas. Elas se tornaram
mais presentes, quase uma obsessão, uma tara, a partir da década de 1980,
abrindo mais espaço para as formas arredondas em seu trabalho, antes
caracterizado pelas retas e vértices. "Na verdade eu mudo de estilo e de
traço de acordo com o tema", corrige, mostrando que uma cena de denúncia
merece menos leveza e harmonia visual.
Retratar o povo, denunciando a miséria ou valorizando a cultura popular,
vem sendo sua prioridade desde a primeira metade do século XX. Nos seus
traços e formas por vezes contorcidos, ou com exageros nas retas, a
expressividade é característica marcante, valorizada por formas sem grandes
detalhismos, provocando identificação. Influenciado pela arte moderna mas
sem nunca se distanciar da realidade, sem se render à abstração, a sensação
de movimento é bastante presente em seus trabalhos. Dos movimentos
internacionais, o engajado Muralismo Mexicano foi o que lhe causou maior
identificação.
A formação artística de Abelardo começou no Colégio Agamenom Magalhães e
foi desenvolvida quando ele passou um tempo hospedado na casa do industrial
Ricardo Brennand, ainda na década de 40. Com menos de 20 anos de idade, o
artista teve sua primeira produção em série de cerâmica financiada pelo
empresário, pai do artista Francisco Brennand, com quem o jovem dividia o
quarto. Ele também é criador de técnicas como a do modelo vivo em pose
rápida, que valoriza a percepção do artista observador. "Deixo os alunos
olharem para a modelo durante o tempo que quiserem, mas o desenho deve ser
feito em poucos segundos. Como resultado, cada um descobre seu estilo",
ensina.(Júlio Cavani)
Depoimentos
"Ele continua sendo o mesmo Abelardo e merecendo o
mesmo respeito. Em 1952, um amigo chamado Ivan Carneiro sabia que eu gostava
de desenhar e me disse que um grupo de artistas estava se reunindo para
formar um ateliê. Acabei participando do Atelier Coletivo, que era dirigido
por Abelardo. Até hoje sou influenciado por sua orientação de fazer uma arte
compreensível para o grande público, retratando a vida do povo, o trabalho,
a cultura"
José Cláudio, aluno e parceiro desde o Atelier Coletivo.
"Uma coisa bastante visível em sua arte é o sentido de solidariedade humana.
Voltado para a comunidade, ele era um modelo do que se costumava chamar de
artista engajado. No temperamento combativo, aguerrido e, de certa forma,
agressivo, Abelardo, que nunca foi rico, foi espontâneo nessa opção desde
jovem. É claro que ele teria que abraçar uma causa, com unhas e dentes"
Francisco Brennand, que dividiu o mesmo quarto com Abelardo quando seu pai,
o industrial Ricardo Brennand, o adotou em sua casa e financiou a produção
de cerâmica de Abelardo antes de ele completar 20 anos.
"Em toda a história da cultura pernambucana, provavelmente não encontraremos
alguém tão coerente como Abelardo da Hora, que ao contrário da maioria dos
artistas, que tendem a se acomodar com a consagração, está sempre disposto a
colaborar com os movimentos culturais, sendo fundador/participante da
maioria deles. Ele é de todas as gerações e das lutas pela democratização da
cultura"
Paulo Bruscky, no seu livro Abelardo de Todas as Horas
"Abelardo teve, na contemplação da vida em sua terra, sugestões originais
para compor figuras isoladas e em grupos, especialmente famílias,
manifestando-se com amor, acentuando sofrimentos e momentos de paz, valendo
suas interpretações de conhecimento e compreensão."
Pietro Maria Bardi, fundador do Masp (Museu de Arte de São Paulo), no livro
Abelardo de Todas as Horas
(©
Pernambuco.com)