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Historiador de Padre Cícero reavalia o mito

05-06-2008

Padre Cícero Romão

 

Sociólogo norte-americano Ralph della Cava, autor da primeira obra aprofundada sobre o religioso cearense, Milagre em Joaseiro, volta ao Brasil 70 anos após a morte do protagonista de seu livro

JOTABÊ MEDEIROS
Agência Estado

   JUAZEIRO DO NORTE – Quando John F. Kennedy foi assassinado, o cidadão norte-americano Ralph della Cava lembra que recebeu a notícia da morte de seu presidente na Praia de Iracema, em Fortaleza (CE). Della Cava era então, no início dos anos 60, apenas um esforçado candidato a doutor, como define, e escrevia sua tese de doutoramento no Nordeste brasileiro sobre o mito religioso do Padre Cícero (1844-1934).

   Ele viveu 14 meses entre Fortaleza, Juazeiro do Norte, Rio de Janeiro e outros lugares do País, pesquisando para um tema que sempre foi cercado de controvérsia – e continua sendo polêmico ainda hoje. Nos idos de 1964, na biblioteca municipal da capital cearense, ele iniciou uma pesquisa para um livro que mudaria a forma como o Brasil se relacionaria com o mito do Padre Cícero, Milagre em Joaseiro (Miracle at Joaseiro), publicado em 1976 pela Editora Paz & Terra.

   “Na verdade, eu poderia nunca ter colocado os pés no Brasil”, lembra. “Tinha intenção de ir à Argentina, para pesquisar o movimento operário socialista, e a ação da indústria de mineração colonial no Novo Mundo”, contou. Seu orientador nos Estados Unidos o convenceu a mudar de idéia. Argumentou que as romarias e os milagres atribuídos ao Padre Cícero reuniam temas que o fascinavam: religiosidade, política, cultura popular.

   Já se vão 40 anos desde que Della Cava pôs os pés no País pela primeira vez, e ele está de volta após 21 anos sem regressar – teve uma filha em Fortaleza, e tem particular orgulho de suas amizades e de seu vínculo com o sertão brasileiro, mas temia voltar justamente porque acha que hoje já não teria nada de novo a dizer sobre o tema que o tornou famoso.

   Hoje, pesquisador sênior do Centro de Estudos Sobre a América Latina na Universidade de Colúmbia e professor emérito da Universidade de Nova Iorque, o sociólogo e historiador repassou o método e a história de como escreveu o famoso livro Milagre em Joaseiro.

   “Em muitos aspectos, parte desse meu livro já está superada, e tive conhecimento de que novos arquivos sobre o Padre Cícero, que estiveram fechados todos estes anos, estão agora sendo tornados de conhecimento público pelo bispo dom Fernando Panico (da Diocese do Crato). Está na hora de se fazer uma nova investigação”, ponderou.

   De fato, Milagre em Joaseiro foi (e ainda é) a primeira obra séria e profunda sobre o tema. “Canudos teve a sorte de ter um grande historiador debruçado sobre o tema, José Calasans. Teve também Euclides da Cunha e Os Sertões, e Walnice Nogueira Galvão. Havia uma produção acadêmica e ainda há sobre o tema de Canudos. De Padre Cícero não tinha quase nada.”

   Durante a recente permanência no Brasil, Della Cava visitou alguns pontos cruciais de suas andanças nos anos 60, quando pesquisou para o livro. Subiu até o Horto, ponto mais alto da região, onde foi edificada a estátua do padre milagreiro (é a quarta maior do País, com 25 metros e 500 toneladas). Ele revelou que gastou um par de sandálias franciscanas quando tentou fazer a via-crúcis dos romeiros, subindo a pé da cidade até o alto do morro pela estradinha de pedra que é utilizada pelos fiéis.

   Nesta semana, de volta aos pés da estátua gigante, cercado por esmoleiras mirins (crianças entre 8 e 14 anos que contam histórias e cantam benditos, cânticos religiosos, em troca de alguns trocados), Della Cava comentou a massificação do mito – hoje, em Juazeiro, as imagens de gesso vendidas nas lojinhas são produzidas em série, assim como os terços, as fitinhas de amarrar no pulso e pedir desejos. A devoção e o entretenimento (bares, lojas, roteiros turísticos) caminham lado a lado. Os abrigos estandartizados para os romeiros e as lojinhas configuram uma espécie de grande shopping center da fé.

   “O discurso marxista costumava dizer que a religião é o ópio do povo. Mas o Brasil está cheio de exemplos de como, por meio da religião, o povo enfrentou as hierarquias e as injustiças. É também pelo motivo religioso que as pessoas são capazes de se mobilizar para enfrentar o poder. Há outros momentos históricos que ratificam isso.”

   Ainda caminhando pelo alto do Horto, uma senhora reconhece o historiador nas escadarias do monumento ao padre de Juazeiro e lembra que o estudioso já esteve em seu restaurante, em Fortaleza, há muitos anos. Dona Inês Cabral é cunhada de uma das cinco pessoas às quais ele dedicou seu best-seller, o cearense Odílio Figueiredo Filho.

   Della Cava conta que um dia, perdido, pediu informação em Fortaleza. Ao solícito interlocutor, contou sobre a tese do Padre Cícero e então os dois iniciaram uma conversa que faria deles grandes amigos. Orgulhosa do encontro, dona Inês apresenta o historiador ao filho. “É um escritor muito famoso”, diz. O autor rebate imediatamente: “Eu apenas contei uma história. Só isso”.

JC Online)


Milhares rezam nos 70 anos da morte do padre Cícero

Jotabê Medeiros, enviado especial

Vidal Cavalcante/AE
Para alguns, o Padre Cícero é um aliado das oligarquias nordestinas; para outros, é um ideólogo das políticas sociais; para os romeiros, é santo, e pronto

   Juazeiro do Norte, Ceará - Eles vêm de todo lugar, e de todas as maneiras: a pé, a cavalo, em ônibus de excursão, de motocicleta, bicicleta, burro e jegue. Cerca de 25 mil pessoas, segundo estimativa da prefeitura local, vieram a Juazeiro do Norte para as celebrações dos 70 anos da morte de um dos maiores mitos religiosos do Nordeste brasileiro, o padre Cícero Romão Batista (1844-1934), o Padim Ciço, na manhã desta terça-feira. A data mobiliza também um grande contingente de intelectuais do País e estrangeiros, como o norte-americano Ralph della Cava, que escreveu, nos anos 70, o primeiro grande estudo sobre a devoção a Padre Cícero, o livro Milagre em Joazeiro.

   Até hoje controversa, a figura mítica do Padre Cícero (um aliado das oligarquias nordestinas, para alguns; um ideólogo das políticas sociais, para outros; santo, para os romeiros) ainda desperta debates acalorados.

   O bispo Fernando Pânico, da Diocese do Crato, é hoje um dos seus ardorosos defensores (dizem que se tornou adepto depois de ter uma graça pessoal) e fez um emocionado discurso na primeira missa da manhã.

   O bispo elogiou a iniciativa da realização do simpósio intelectual, que parte da pergunta “Padre Cícero: E quem é ele?”, mas questionou a racionalização do mito. "Os estudiosos, pessoas letradas, ainda não chegaram a uma conclusão. Nem a própria Igreja chegou a uma conclusão", afirmou. "Padre Cícero é meu irmão, é minha mãe, é minha irmã, porque ele escutou a palavra de Deus."

Os santos deixam rastros

   Segundo o bispo, "os santos deixam rastros, deixam marcas, já que eles, por sua vez, seguiram as pegadas de Jesus". Para Pânico, o aumento da romaria é um sinal de que, em Juazeiro, encontra-se "o dedo de Deus" e conclamou os estudiosos e teólogos presentes a admitirem que em Juazeiro está presente o dedo de Deus.

   O simpósio internacional sobre Padre Cícero prossegue até quinta-feira na cidade de Juazeiro, reunindo intelectuais das Universidades de Berkeley (Estados Unidos) e Strasbourg (França), e produtores e artistas, como o cineasta Rosemberg Cariri.

estadao.com.br)

 

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