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Desvendando o teórico Hermilo

05-06-2008

Obra de Hermilo Borba Filho

Ciclo de palestras é um convite à compreensão do alcance da obra do encenador pernambucano

Tatiana Meira
Da equipe do DIARIO

   Uma vertente pouco explorada da produção do multifacetado Hermilo Borba Filho será mostrada a partir de amanhã, quando começa a terceira edição de projeto em sua homenagem. O foco temático da Semana Hermilo Borba Filho este ano recai sobre o lado de pesquisador e ensaísta deste que também foi ator, ficcionista, jornalista e tradutor de peças. Para aproximar as novas gerações da obra de Hermilo e reforçar a preservação da memória do encenador, foram tomadas três obras como referência, que serão apresentadas em palestras, de quarta a sexta-feira, às 20h.

   No sábado, é a vez de uma leitura dramática de Um Paroquiano Inevitável, com direção de Carlos Bartolomeu. "Vamos focar na obra teórica para ajudar o público a conhecer um outro Hermilo. Ele era um homem à frente de seu tempo e está no mesmo patamar de um Décio de Almeida Prado ou um Sábato Magaldi, como um dos grandes teóricos do teatro contemporâneo brasileiro", ressalta Lúcia Machado, diretora adjunta do Centro de Formação e Pesquisa das Artes-Cênicas Apolo-Hermilo, no Bairro do Recife, onde será sediado o projeto.

   Na noite da quarta-feira, Fernando Augusto, que comanda há 28 anos o Mamulengo Só-Riso, trata de dois livros fundamentais para se entender o ofício dos bonequeiros no Brasil. O primeiro, Fisionomia e Espírito do Mamulengo, de autoria de Hermilo Borba Filho, foi publicado em 1966, adentrando um território até então inédito. Treze anos depois, Fernando lançou Mamulengo: Um Povo em Forma de Bonecos, pela Funarte/MEC, que se baseia no estudo de Hermilo e procura dar continuidade à pesquisa, levantando a situação sócio-cultural do brinquedo no Nordeste e em Pernambuco.

   Na quinta, Marco Camarotti parte dos espetáculos populares nordestinos para situá-los num contexto universal. "O teatro folclórico sempre esteve ativo em todas as culturas. É dele que se nutre o teatro convencional, apresentado em salas fechadas e com pagamento de ingressos", destaca Camarotti, que trabalhou com Hermilo no Teatro Popular do Nordeste (TPN), que existiu de 1960 a meados da década de 1970. Antes disso, de 1945 a 1953, Hermilo liderou o Teatro de Estudantes de Pernambuco (TEP).

   Marco Camarotti estudou o teatro popular em sua tese de doutorado, na Universidade de Warwick, na Inglaterra, e concluiu que existem 34 pontos ligando este tipo de teatro praticado em lugares tão distantes quanto o Canadá e a Oceania. Ele irá situar os espetáculos populares sob a ótica de Mário de Andrade e de Hermilo Borba Filho, por quem nutre admiração especial. Se antes estes rituais eram motivados por questões mágicas e religiosas, hoje eles carregam um cunho político e social, defende Camarotti.

   Antonio Cadengue, palestrante da sexta-feira, analisa a obra Diálogo do Encenador, de 1964. Neste livro, pioneiro ao apontar uma possível reteatralização do teatro do Nordeste brasileiro, Hermilo desvenda seus autores prediletos, que têm suas idéias detalhadas em três capítulos/diálogos. "Vou me deter especialmente na admiração de Hermilo pelo diretor da época da vanguarda russa Komisarjevsky. E o caminho empreendido entre a radicalidade de Meyerhold e o que se dizia ser o conservadorismo de Stanislavsky", explica Cadengue.

   Na opinião de Lúcia Machado, que inclusive fará uma participação especial, o texto escolhido para a leitura dramática no encerramento do projeto, no sábado, é delicioso. "Juntamos três gerações de atores", conta. Os mais experientes, como Maria de Jesus Baccarelli e Ivan Soares, conviveram e trabalharam com Hermilo Borba Filho. Há um grupo intermediário, representado por atores como Marilena Breda e os da geração mais jovem. Um convite tentador para conhecer um pouco da produção do encenador que aproveitou as potencialidades do povo em seus personagens, dando fôlego novo ao teatro nacional.


Programação

Quando: de 28 a 31 de julho, sempre às 20h
Local: Teatro Hermilo Borba Filho (Av. Cais do Apolo, s/n, Bairro do Recife. Fone: 3224.1114)

Quanto: Entrada franca

Ciclo de Palestras: estudos a partir da obra ensaística de Hermilo Borba Filho

QUARTA-FEIRA (28) - Palestra Fisionomia e Espírito do Mamulengo: um Povo em Forma de Bonecos, por Fernando Augusto;

QUINTA-FEIRA (29), - Palestra Espetáculos Populares do Nordeste: uma Abordagem Contemporânea, por Marco Camarotti;

SEXTA-FEIRA (30) - Palestra Diálogo do Encenador: Anotações à Margem, por Antonio Cadengue;

SÁBADO (31) - Leitura Dramática: Um Paroquiano Inevitável, antecedida de apreciação crítica da peça, por Luis Reis. Direção: Carlos Bartolomeu. No elenco, Maria de Jesus Baccarelli, Marilena Breda, João Ferreira, Ivan Soares, Aldonez Valença, Cláudio Lira, Marcelino Dias e Igor Almeida; Participação especial: Lúcia Machado.

Pernambuco.com)


Hermilo Borba Filho

   Romancista, teatrólogo, fundador do Teatro Popular do Nordeste, Hermilo Borba de Carvalho Filho nasceu em Palmares, a 08/07/1917. Filho de um senhor de engenho que na década de 1930 caiu em decadência, ocupou vários empregos (inclusive de escrivão de polícia) e acabou mudando para o Recife, com o objetivo de estudar Direito. Em 1943, dirigiu o Teatro de Ópera do Recife.

   Com o escritor Ariano Suassuna, seu colega na Faculdade de Direito, fundou, em 1945, o Teatro do Estudante de Pernambuco. Em 1957, já atuando em teatro como profissional, recebeu o Prêmio Revelação de Diretor, da Associação Paulista de Críticos Teatrais. Também em 1957 recebeu da prefeitura do Rio de Janeiro o Prêmio Melhor Diretor Nacional de Comédia e publicou o seu primeiro romance, "Os Caminhos da Solidão".

   Em 1958, funda, com Ariano Suassuna e outros, o Teatro Popular do Nordeste (TPN). Com um grupo de intelectuais (entre os quais Paulo Freire e Ariano Suassuna), funda, em 1961, no Recife, o Movimento de Cultura Popular (MCP) que pretendia, através da educação e da arte, "ampliar a politização das massas, despertando-as para a luta social". Em 1966, publica "Margem das Lembranças", primeiro romance da tetralogia "Um Cavalheiro da Segunda Decadência", considerada sua obra de maior importância: os outros romances da tetralogia são "Porteira do Mundo", "O Cavalo da Noite" e "Deus no Pasto".

   Por usar palavrões em seus romances, ganha o rótulo de "escritor maldito". Em 1967, torna-se membro da Associação Brasileira de Folclore - Museu de Artes e Temas Populares, da Campanha de Defesa do Folclore Brasileiro. Foi, também, professor universitário no Recife (História da Cultura e História do Espetáculo); secretário-geral da prefeitura do Recife; secretário de redação da revista Visão, SP, entre 1954/57; diretor do Departamento de Documentação e Cultura da prefeitura do Recife (1959).

   Em 1975, juntamente com o compositor Chico Buarque de Hollanda, o sociólogo Fernando Henrique Cardoso, o indigenista Orlando Vilas Boas e outros, integra o conselho editorial do jornal Movimento, semanário de circulação nacional editado em São Paulo. Morreu no Recife, a 02/06/1976. Em l997, a TV Globo produziu e exibiu o especial "O Almirante", adaptação de um dos seus contos.

Bibliografia

Teatro:
- "Teatro (Electra no Circo, João Sem Terra, A Barca de Ouro)" , Edição Teatro do Estudante de Pernambuco, Recife, 1944.
- "Teatro: Arte do Povo e Reflexões Sobre a Mise-en-Scène", Diretoria de Documentação e Cultura da prefeitura do Recife, 1947.
- "Auto da Mula do Padre", Departamento de Documentação e Cultura da prefeitura do Recife, 1948.
- "História do Teatro", Livraria Casa do Estudante do Brasil, Rio de Janeiro, 1953.
- "Teoria e Prática do Teatro", Agência Editora Íris, 1960.
- "Diálogo do Encenador", Imprensa Universitária de Pernambuco, Recife, 1964.
- "Um Paroquiano Inevitável", Imprensa Universitária de Pernambuco, Recife, 1965.
- "A Donzela Joana", Editora Vozes, Petrópolis, 1966.
- "História do Espetáculo", Edições O Cruzeiro, RJ, 1968.
- "Cartilhas de Teatro", Ministério da Educação e Cultura, Serviço Nacional de Teatro, RJ, 1969.
- "Sobrados e Mocambos", Editora Civilização Brasileira, RJ, 1972.
- "As Moscas" e "O Cabo Fanfarrão", peças não publicadas, encenadas pelo Teatro Popular do Nordeste.

Ensaio:
- "Herry Miller: Vida e Obra", José Álvaro Editor, Rio de Janeiro, 1968.

Literatura infantil:
- "História de Um Tatuetê", Gráfico Amador, Recife, 1958.

Cultura popular:
- "É de Tororó", com Ascenso Ferreira, Ariano Suassuna, Capiba e Lula Cardoso Ayres, Livraria Editora Casa do Estudante do Brasil, Rio de Janeiro.
- "Apresentação do Bumba-Meu-Boi", Imprensa Universitária de Pernambuco, Recife, 1966.
- "Espetáculos populares do Nordeste", Edições Buriti, SP, 1966.
- "Fisionomia e Espírito do Mamulengo", Companhia Editora Nacional, RJ, 1966.
- "Cerâmica Popular do Nordeste" (em colaboração com Abelardo Rodrigues), Ministério da Educação e Cultura/Campanha de Defesa do Folclore Brasileiro, RJ, 1969.

Romance:
- "Os Caminhos da Solidão", Livraria José Olympio Editora, RJ, 1957.
- "Sol das Almas", Editora Civilização Brasileira, RJ, 1964. Segunda edição pela Editora Três, SP, 1974.
- "Um Cavalheiro da Segunda Decadência I - Margem das Lembranças", Editora Civilização Brasileira, RJ, 1966.
- "Um Cavalheiro da Segunda Decadência II - A Porteira do Mundo", Editora Civilização Brasileira, RJ, 1967.
- "Um Cavalheiro da Segunda Decadência III - O Cavalo da Noite", Editora Civilização Brasileira, RJ, 1968. Segunda edição pelo Cículo do Livro, 1975.
- "Um Cavalheiro da Segunda Decadência IV - Deus no Pasto", Editora Civilização Brsileira, RJ, 1972.
- "Agá", ilustrado em quadrinhos por José Cláudio, Editora Civilização Brasileira, RJ, 1974.
- "Orilla de los Recuerdos", Ediciones de la Flor, Argentina, 1969.
- "Un Chevalier de la Seconde Décadence", Stock, França, 1975.

Novela:
"O General Está Pintando", Editora Globo, Porto Alegre, RS, 1973
"Sete Dias a Cavalo", Editora Globo, Porto Alegre, RS, 1975.

Pernambuco de A/Z)

 

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