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05-06-2008
Mestre de várias gerações de artistas plásticos pernambucanos, o escultor, desenhista, gravurista e agitador cultural comemora esta semana seus 80 anos PAULO SÉRGIO SCARPA O pernambucano Abelardo Germano da Hora completa 80 anos no próximo dia 31. O escultor, gravurista, desenhista, agitador cultural, ativista político e mestre de uma geração de grandes artistas plásticos será homenageado pela sua família quinta-feira, no Barrozo. Serão anunciadas as criações da Fundação Abelardo da Hora, a publicação de ensaio sobre a sua vida, um documentário em vídeo, um catálogo, a edição do álbum de desenhos Danças Brasileiras de Carnaval, de 1966, e o relançamento da mais famosa e polêmica obra do artista, Meninos do Recife, de 1962. O ensaio histórico e crítico da obra de Abelardo será feito por Weydson de Barros Leal. Até agora, lembra o produtor Abelardo da Hora Filho, seu pai tem apenas um livro comemorativo aos 40 anos de carreira, feito pelo artista plástico Paulo Bruscky e pelo jornalista Ronildo Maia Leite, Abelardo de Todas as Horas, de 1988, uma referência biográfica e crítica ainda não superada. O documentário em vídeo será dirigido por Roberto Meneses, da RTV, que tratará dos dois lados mais marcantes do artista, para registrar os “tempos” de Abelardo: a atuação social e política e a definitiva contribuição que deu à formação de uma estética tipicamente nordestina. Foi de Abelardo da Hora a idéia para a consolidação do Movimento de Cultura Popular (MCP), que contou com o apoio do então prefeito do Recife Miguel Arraes de Alencar. Uma inspiração retirada do Movimento Povo e Cultura, realizado em Paris, na década 60, e a partir da exposição bem-sucedida organizada pelo Governo Barbosa Lima com os trabalhos artísticos da Escola de Engenharia, na Rua do Hospício. O MCP interligou alfabetização de crianças e adultos, escolinha de arte, música, teatro e conscientização política, uma revolução pedagógica para a época e que foi oferecida a uma geração que produziu artistas, atores, diretores e ativistas políticos que ainda estão na ativa, como o ator José Wilker. O artista define, hoje, o MCP como uma espécie de “universidade popular”. Os projetos que comemoram os 80 anos do mestre, explica Abelardo Filho, dependem de apoio governamental e do patrocínio de particulares. Eles já passaram pela primeira seleção do Fundo de Incentivo à Cultura de Pernambuco (Funcultura). A família está concentrada, principalmente, na republicação do álbum Danças Brasileiras de Carnaval, lançado originalmente em 1966 na Galeria Mirante das Artes, do curador italiano e criador do Museu de Arte de São Paulo (Masp), Pietro Maria Bardi. A tiragem foi rapidamente esgotada e Abelardo foi projetado como artista no Sul do País a partir das críticas de Geraldo Ferraz e José Geraldo Vieira. O álbum nunca mais foi editado. O outro álbum é o famoso e sempre lembrado Meninos do Recife, de 1962. Nem o próprio autor tem a obra completa. Foram editadas apenas 500 cópias. Em 1964, com a perseguição da ditadura militar, algumas cópias chegaram a ser vendidas por Mano Teodósio, do Partido Comunista Brasileiro, para ajudar a sustentar a família de Abelardo, o pai preso e os sete filhos (Lenora, Sandra, Leda, Ana, Sara, Abelardo e Yuri). E muitos álbuns foram parar numa fogueira preparada pelos militares, com exemplares da cartilha de alfabetização do pedagogo pernambucano Paulo Freire. O álbum tinha prefácio de Miguel Arraes. “Possuir a obra significava estar ao lado dos artistas perseguidos e não estar submisso à ditadura”, lembra Abelardo da Hora Filho. (© JC Online) Fundação abrigará a acervo e cursos A Fundação Abelardo da Hora (FAH) será o ponto central de todas as homenagens. Sem fins lucrativos, será uma Organização da Sociedade Civil de Interesse Público. Está previsto a criação de um museu para abrigar as obras do acervo pessoal do artista e até de obras em coleções particulares, ou seja: vale a doação, a permissão de cópia e até a compra da obra, se for viável financeiramente. A FAH terá escolinha de arte, espaço para exposições e artes cênicas e salas para cursos de iniciação à arte e história da arte. Entre as obras em mãos de particulares, uma é a mais desejada: ter a original ou cópia de um busto em cerâmica do negro Sabino, antigo funcionário do Engenho São João, na Várzea, criado por Abelardo quando ele trabalhou, na década de 40, com o industrial Ricardo Brennand. A obra é a única peça moderna e de artista brasileiro em exibição no castelo medieval criado na Várzea por Ricardo Brennand, sobrinho de Ricardo.A família negocia a compra de um terreno bem atrás da casa que Abelardo da Hora sempre viveu, na Rua do Sossego, 307, no Bairro de Santo Amaro. “A fundação, então, será uma projeção do lugar onde meu pai sempre trabalhou e trabalha”, conta o filho. O espaço terá 1.200 metros quadrados de área e ficará a apenas duas quadras da Universidade Católica de Pernambuco, “bem no meio de um corredor cultural, produto da inteligência recifense”, sintetiza. A família vai convidar o arquiteto Carlos Augusto Lira para projetar o prédio da fundação e criar o espaço interno do novo Centro Cultural a funcionar no Recife. O edifício precisará ter muitas salas para os diversos cursos – pintura, desenho, modelagem, história da arte, etc. – e espaço amplo para as grandes esculturas. “Muitas vezes, as paredes de nossa casa foram quebradas para uma obra passar, sair”, lembra Abelardo Filho. Por fim, o catálogo das obras, porque ninguém sabe ao certo quantas foram criadas pelo artista. “Está tudo na cabeça de meu pai. É ele quem sabe para quem vendeu, para quem deu, onde elas estão”, conta o filho. “Bebé - como o filho chama carinhosamente o pai, por causa da altura - nunca soube cuidar das coisas de casa. Ele viveu para a família e para o trabalho, mas não se conta com ele para o dia a dia, está sempre mergulhado em alguma obra”, diz. Para quem anda pelo Recife, a busca fica mais fácil: as obras de Abelardo da Hora estão em praças públicas, parques, jardins, shoppings, museus e galerias. Em sua maioria, figuras femininas de proporções gigantescas que, por sua sensualidade, provocam desejos de beliscar. Ou como o artista mesmo se define: “Faço minha arte respondendo a uma necessidade de vida. Como que ama, sofre, sente fome, se alegra ou se revolta. Sempre tive compromissos com o povo da minha terra”. (© JC Online) A lição de quem crê no coletivo Artistas como José Cláudio dão a exata dimensão da importância que tem Abelardo da HoraO pintor José Cláudio foi aluno, parceiro e amigo de Abelardo da Hora desde os tempos do Atelier Coletivo (1952-1957), uma experiência artística que mudou radicalmente a maneira dos artistas pernambucanos enxergarem a arte e seu público. Ele garante que sua vida de artista começou quando conheceu Abelardo. “Hoje, seria um advogado burro, incompetente e infeliz. Estou feliz porque tive a sorte de encontrar com ele no meu caminho. Foi ele que me deu aquela força para abandonar tudo e ser pintor. Ele é um mestre de toda uma geração”, define Segundo ele, Abelardo da Hora bem que já poderia ser chamado de esteta “porque a influência dele independe de técnica”. O artista, acrescenta, é um “esteta da vida prática da arte, que não se perde em discussões bizantinas”. Para José Cláudio, arte e política não podem ser separadas em Abelardo da Hora. “A direção que ele nos indicou foi a de uma arte voltada para os trabalhos do povo, os divertimentos, os xangôs, as danças, a arte popular. E ele nos fazia ir até o povo e eu nunca me desviei disso”. A maior criação de Abelardo da Hora, acentua José Cláudio, surgiu a partir da Sociedade de Arte Moderna do Recife, fundada em 1948, por Abelardo e Hélio Feijó: o Atelier Coletivo. Um espaço aberto à realização de cursos de desenho, pintura e escultura voltada para o aperfeiçoamento técnico dos artistas. Todos desenhavam e usavam modelo vivo e adotaram uma técnica criada por Abelardo, a pose rápida, que fazia com que o artista colocasse no papel a sua primeira impressão sobre a cena olhada, o que ajudava a desenvolver a técnica. Em oposição ao academicismo, o Atelier Coletivo buscou valorizar a expressão brasileira na arte, defendia a democratização do ensino artístico e buscava a integração da arte e da cultura popular. Participaram da experiência, entre outros, Gilvan Samico, Ionaldo Cavalcanti, Ivan Carneiro, José Cláudio, Wellington Virgolino, Guita Charifker, Wilton de Souza, Adão Pinheiro, Bernardo Dimenstein, Celina Lima Verde, Corbiniano Lins, Genilson Soares. Abelardo da Hora nasceu em São Lourenço da Mata, formou-se na Faculdade de Direito de Olinda, freqüentou o curso livre de Escultura da Escola de Belas Artes, onde estudou com Casimiro Correia, modelou estuques sobre a orientação de Edson de Figueiredo, transferiu-se em 1945 para o Rio de Janeiro para participar do Salão Nacional de Belas Artes, que acabou não ocorrendo, retornou em 1946 ao Recife, onde realizou sua primeira exposição em 1948 na Associação dos Empregados no Comércio. Abelardo foi presidente, durante dez anos, da Sociedade Moderna do Recife (1949-59), foi diretor da Divisão de Parques e Jardins, secretário de Educação em quatro administrações municipais (entre os anos 50 e 60) e diretor da Divisão de Artes Plásticas e Artesanato da Prefeitura do Recife. O artista nunca negou sua ligação com o Partido Comunista Brasileiro (PCB), o “partidão”. Sempre se colocou como um artista de esquerda, foi perseguido pela ditadura militar e escapou, por muito pouco, de ser preso na própria casa e na frente dos filhos pela Polícia do Exército, que vivia buscando o artista em casa. Foi salvo pela amiga Guita Charifker, que residia na mesma Rua do Sossego. Guita colocou Margarida, a mulher de Abelardo, e os sete filhos dentro de seu carro e foi buscar o artista na Prefeitura do Recife, onde trabalhava. Levou todos para um lugar seguro. Mas alguns vizinhos viram a movimentação: na mesma noite, Guita foi chamada ao Dops. O fato ocorreu na semana do golpe militar, em 1964. O jornalista Ronildo Maia Leite se diz quase irmão gêmeo de Abelardo da Hora. Ronildo era um rapazote de 20 anos quando ele inaugurou o seu ateliê na Rua da Soledade, “parede-meia com a casa dos meus pais”. O futuro jornalista não quis ter nada com as artes plásticas, mas com Abelardo aprendeu coisa maior: “a importância da vida”. São mais de 50 anos de convivência. (© JC Online)
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