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Mais essencial, mais Gal

05-06-2008

Jorge Cecílio

A diretora recebe um beijo de Gal: poucos instrumentistas em cena e, na definição de Bia Lessa, um clima de 'não-show' no início

 

Dirigida por Bia Lessa, Gal Costa aposta em minimalismo no show 'Todas as coisas e eu', que estréia hoje no Rio

Helena Aragão e Rodrigo Fonseca

   No princípio, era a voz. Singela, joãogilbertiana, a voz de Gal Costa. Em sua versão mais pura, mais Gal. E, após quatro décadas de descobertas e mutações, agora conduzida pelas mãos da diretora teatral Bia Lessa, é para lá que ela volta: para si mesma. Há cinco anos sem fazer show solo no Rio, Gal abre hoje, no Canecão, a curtíssima temporada de Todas as coisas e eu - nome que pode soar egocêntrico, mas que traduz bem o reencontro desta baiana de 58 anos consigo mesma.

   - Meu trabalho é mutante. E aqui eu queria a essência. Algo econômico - diz a cantora, usando, no último adjetivo, aquilo que pode descrever o atual trabalho de Bia Lessa.

   Contumaz fã do exagero, do grandioso (num divertido contraste com seu 1,49m de altura), Bia, que encerra esta semana a consagrada temporada da peça Medéia, se adaptou aos planos de Gal. E atribui à cantora a criação de Todas as coisas e eu.

   - Ela é a autora desse show. Quem for lá esperando ver cenários mirabolantes vai encontrar uma voz, um violão, a Gal - resume Bia, que percorreu com a cantora os tortuosos caminhos que envolveram a gestação do espetáculo.

   Os problemas começaram com o embate com a Indie Records, em outubro passado, quando o show que daria origem ao CD ao vivo Todas as coisas e eu seria realizado, no mesmo Canecão. Na hora agá, a gravadora deu sinal vermelho, por questões orçamentárias. Gal decidiu adiar a megaprodução e gravar o disco, que traz canções compostas entre as décadas de 20 e 50, em estúdio. Hoje, acredita que foi mesmo a melhor escolha:

   - O resultado tem qualidade. Era o que queria já no começo.

   Pronto o disco, voltaram as discussões sobre o show. E algo tinha mudado na cabeça de Gal, como observa Bia:

   - O adiamento foi uma frustração. Mas ela fez uma coisa esperta: pôs na cabeça que aquilo simplesmente não aconteceu. E quis o intimismo, o oposto do que havia pensado antes.

   Daí veio o mergulho na busca pela essência, que resultou na opção por um quarteto de violão, contrabaixo, bateria e sopros. E em sua volta ao violão no palco, em três canções - algo que não fazia desde 1995. A voz, aquela do princípio, voltou a ser a estrela principal. Quando fala sobre alguns críticos, que acham que seu agudo não é mais o mesmo, Gal desafia:

   - Sabe o agudo com que, no disco, encerro Ave Maria no morro? Pois é, também faço ao vivo e a cores. Não perdi o agudo. Ganhei graves.

   Isso pode ser conferido em canções que já estavam no CD, como Nossos momentos, de Luiz Reis e Haroldo Barbosa, e Fim de caso, de Dolores Duran, e nas que foram incluídas também no show, como Três da madrugada, de Torquato Neto, Imbalança, de Luiz Gonzaga, e Dama do cassino, de Caetano Veloso.

   - A escolha foi feita sem o menor medo de ser rotulada como antiga. Essa ditadura da novidade, uma coisa que vem dos americanos e que a gente adotou, isso me irrita. O antigo pode ser inovador. Há tanto novo com cara de velho... - diz Gal.

   A essa altura, a opção de aparar as arestas no projeto de show original já estava clara na cabeça da artista.

   - No começo foi difícil convencer a baixinha. Bia está acostumada a arrancar de seus atores aquilo que quer. Mas eu sou a Gal. Sou uma cantora, não uma intérprete. E todo cantor é o personagem que inventa para si - define Gal.

   Ambas classificam o show como minimalista.

   - Ser minimalista, simples, não significa ser pequeno, pobre - filosofa a cantora.

   Bia descreve, empolgada:

   - Começa como um não-show. Em certa hora, vira espetáculo e, depois, um concerto. Essa é a brincadeira.

   O encontro com agitadores culturais como Bia Lessa não é novidade na carreira de Gal.

   - É um reflexo da minha personalidade. Gosto de ousar - afirma a cantora.

   Nos anos 70, foi Waly Salomão quem incrementou com pimenta tropical o antológico show do LP Gal fatal. Há exatos dez anos, Gerald Thomas concebeu aquele que foi o mais ousado (e criticado) happening musical da cantora, o espetáculo O sorriso do gato de Alice, em que, além de entrar em cena engatinhando como felina, Gal Costa assumia o recorte da sensualidade, mostrando os seios para a platéia. Ela lembra:

   -- Fiz O sorriso do gato de Alice porque precisava quebrar barreiras. Mas foi um show mal-criticado. As pessoas insistiam em dizer que eu ficava desconfortável, e na verdade eu me sentia a gata do título.

   Onze quilos mais magra, à custa de malhação pesada e de boca fechada para acarajés, vatapás e afins, ela diz que ainda é a mesma gata de uma década atrás:

   - Não sou de se jogar fora não. Não me sinto com 58 nem no corpo, nem no espírito. Mas mudei a atitude. Hoje, não vou ficar mais cantando com a barriga de fora.  

JB Online)


Música: O nome dela é Gal

Felipe Benjamin  

Gal Costa / Foto de Divulgação

   Depois de cinco anos sem fazer uma temporada no Rio, Gal Costa retorna aos palcos cariocas com o show Todas as coisas e eu. ''Neste show canto um repertório préJoão Gilberto com filtro joãogilbertiano'', conta a cantora. O set list tem como base o álbum que dá nome ao espetáculo, mas as grandes surpresas são o retorno de Gal ao violão após 27 anos e músicas resgatadas de seu próprio repertório, sob novos arranjos.

   ''A decisão de voltar a tocar violão é fruto da busca pelo frescor e da vontade de incorporar novidades aos shows. A maior parte dessas músicas foi gravada nos 60 e 70 e a simplicidade dos novos arranjos fez com que soassem muito interessantes, quase a capela''. É o caso de Assum preto, que em sua nova versão traz Gal acompanhada por sopros. A direção do show - que foi adiado em novembro do ano passado, por divergências no orçamento da produção - é de Bia Lessa, de quem Gal é fã assumida: ''Ela trouxe uma concepção minimalista e uma estética muito interessante''.

  • Gal Costa - Canecão, Avenida Venceslau Brás, 215, Botafogo (2105-2000). 6ª e sáb., às 22h. Dom., às 20h30. R$ 25 (poltronas numeradas), R$ 40 (frisa lateral e mezanino), R$ 50 (setor C), R$ 60 (setor B e balcão nobre) e R$ 70 (frisa central e setor A).
  • JB Online)

     

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