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05-06-2008
O centenário de Luperce Miranda, hoje, passa despercebido em sua terra
natal, o Recife, mas merece comemoração significativa no Rio de Janeiro “Lupércio é como um cometa que passa de mil em mil annos. Nelle é um dom que trouxe do seu ser, ninguém pode igualal-o naquelle pequenino instrumento. No Radio onde o escuto, fico absorto ao ouvil-o, digo para mim, será possível, havier um gênio igual?”. Os elogios (na grafia original) estão no livro O Choro (1936), de Alexandre Gonçalves Pinto. O “Lupércio” trata-se do bandolinista recifense Luperce Miranda, cujo centenário de nascimento acontece exatamente hoje. Sem nenhuma homenagem em sua terra natal, ele será lembrado no Rio de Janeiro, no Centro Cultural Carioca, com o lançamento do livro Luperce Miranda O Paganini do Bandolim – uma exposição com fotos e instrumentos – e um show reunindo nove dos melhores bandolinistas brasileiros (entre eles, o pernambucano Marcos César) e a cantora Mariana Balthar. Luperce Pessoa Bezerra de Miranda nasceu na Rua São Miguel, em Afogados (faleceu em 5 de abril de 1977, no Rio), e aprendeu os primeiros acordes no bandolim aos oito anos, integrando, com os dez irmãos, uma orquestra dirigida pelo pai, o pianista João Pessoa de Miranda. Aos 15 anos, compôs a primeira música, um frevo, e no ano seguinte organizou a Jazz Leão do Norte, ao mesmo tempo em que participava do bloco carnavalesco Apois Fum, de Felinto Morais. Aos 22 anos ajudou a fundar o seminal Turunas da Mauricéia, do qual participavam seus irmãos Romualdo e João Miranda, mais Augusto Calheiros, Manuel Lima e João Frazão. Este grupo fez furor na então capital federal em 1927 (Luperce só se reuniria ao conjunto seis meses mais tarde), levando os ritmos nordestinos, até aí desconhecidos no Sudeste. Fundaria em seguida o grupo A Voz do Sertão, cujo vocalista principal era o embolador Minona Carneiro. Em 1946, já famoso, Luperce Miranda voltou ao Recife, trabalhando na Rádio Clube e depois na Jornal do Commercio, até 1955. De volta ao Rio reintegrou-se ao elenco da Rádio Nacional, onde ficou até 1973, quando se aposentou. Luperce Miranda deixou cerca de 500 composições, e participou de 700 gravações (tocou com Carmem Miranda, Noel Rosa, Francisco Alves, Mário Reis). Sua discografia individual, no entanto, é proporcionalmente reduzida em relação à extensão da sua obra e talento. (© JC Online, 28.07.2004) Onipresença criadora na formação da MPB na década de 1930 A marca de Luperce Miranda é onipresente na formação do que chamamos hoje de MPB. A música que fez com os Turunas da Mauricéia impressionou tanto os músicos cariocas que logo Noel Rosa, Almirante, Braguinha, Henrique Brito e Alvinho, estudantes da classe média, formariam um grupo no mesmo formato, o Bando de Tangarás. Durante toda década de 30, Luperce Miranda (que também era exímio no cavaquinho, violão, violino e piano) foi um dos músicos mais requisitados nos estúdios do Rio.Seu bandolim pode ser escutado em inúmeros clássicos da época. Ele está em Até amanhã, de Noel Rosa, com João Petra de Barros, em Cabide de Molambo, de João da Baiana, com Patrício Teixeira, e em No tabuleiro da baiana, de Ary Barroso, com Carmem Miranda e Luiz Barbosa (é dele a conhecida introdução deste samba), em Se você jurar, de Ismael Silva, com Mário Reis e Francisco Alves, e na gravação original de Com quê roupa, com Noel Rosa. Com a Academia de Música Luperce Miranda, fundada por ele ainda na década de 50, continuou a influenciar a MPB, desta vez como professor de bandolim. (© JC Online, 28.07.2004) Rapidez e genialidade nas mãos do mestre “Ele se tornou uma referência do instrumento a partir dos anos 20. Era um músico de uma extrema habilidade, mas muito difícil de tocar”, o comentário é do também bandolinista Marcos César. Conhecido como “O Paganini do Bandolim” pela rapidez com que interpretava suas peças, Luperce Miranda divide com Jacob do Bandolim as honras de melhor do Brasil neste instrumento em todos os tempos.O historiador de MPB Lúcio Rangel afirmava que Jacob do Bandolim teria aprendido os rudimentos do instrumento com Luperce Miranda, que chegou a ratificar isto em seu depoimento ao Museu da Imagem e do Som do Rio, em 1964. O que provocou um episódio suis-generis. Ao saber que o rival havia dito que ele fora seu aluno, Jacob, que se orgulhava de ser autoditada, exigiu ao Conselho Superior de Música Brasileira do MIS que uma réplica fosse anexada ao depoimento do pernambucano: “Nunca fui aluno de Luperce Miranda. Se tivesse sido, estaria sobremodo honrado com isso. Honrado porque seria, para mim, um diploma...Mais honrado estaria porque teria conseguido me desvincular do seu estilo e criar o meu próprio”. Rivais que se admiravam, e se completavam. A rapidez impressionante de Luperce Miranda era contraponto para as interpretações sempre emocionadas, e emocionantes, de Jacob. O violonista Canhoto da Paraíba tocou com ambos e é pródigo em elogios ao conterrâneo, que conheceu no Rio: “Tocava rápido demais, mas eu não me intimidei, peguei o violão e comecei a acompanhar o que ele tocava, Quando via que eu estava indo certo, ele se espantava e me elogiava dizendo: ‘Este garoto aqui é muito bom’. Jacob do Bandolim foi mais popular, até porque a maioria de suas composições é mais acessível. Por sua vez, Luperce Miranda conseguia compor tanto músicas que foram sucesso carnavalescos nos anos 20, O pequeno tururu, Pinião, quanto instrumentais complexos tais como Moto-Contínuo, Segura o dedo, Vamos dançar, Alma em delírio. Luperce Miranda foi o primeiro músico a receber o título de Bacharel da Música Popular Brasileira, pelo MIS, em 1970, década em que mais lançou discos individuais. Todos, no entanto, encontram-se lamentavelmente fora de catálogo. (© JC Online, 28.07.2004) Luperce Miranda, um velocista Livro e show homenageiam o ás do bandolim, artista que nos anos 30 deu mais status ao instrumento Helena Aragão Quando começou a ter problemas cardíacos, com sopro no coração, o bandolinista pernambucano Luperce Miranda (1904-1977) comentou, brincando:- Tenho um sopro musical. A história está imortalizada na biografia Luperce Miranda - O Paganini do bandolim, que a pesquisadora Marília Trindade Barboza lança hoje, justamente a data do centenário do instrumentista, em festa programada para começar às 21h, no Centro Cultural Carioca. Para comemorar a efeméride, a escritora organizou uma festa completa: no térreo, exposição de fotos e de instrumentos, alguns inusitados, como uma raquete sonora; no andar de cima, show (que deve virar disco) com alguns dos maiores bandolinistas contemporâneos, como Joel Nascimento, Ronaldo do Bandolim, Pedro Amorim, Henri Lentino, Déo e Bruno Rian, além de Luperce Filho, o caçula do homenageado. Para muitos desses músicos, a palavra ''sopro'' também poderia ser usada como metáfora para descrever o estilo de Luperce, tamanha a velocidade que ele conseguia alcançar. Daí a comparação com o violinista italiano no título da publicação. - Luperce foi um velocista, tinha uma técnica que todos consideram inimitável - define Joel Nascimento. O virtuosismo do instrumentista ajudou a conceder ao bandolim um papel nunca antes desempenhado nos regionais da época, o de solista (leia texto abaixo). Ressaltar este reconhecimento é um dos objetivos de Marília, que em seu livro conta a história do músico desde a infância, em Recife, passando pelas idas e vindas para o Rio, graças a conturbadas relações familiares - que fizeram a escritora contabilizar ''cerca de 20 filhos''. Para os chorões de hoje, o resgate é mais do que merecido. - No começo do século 20, o bandolim era um instrumento tocado mais por mulheres. Os regionais de choro passaram a usá-lo no acompanhamento, e o Luperce foi fundamental para que ele fosse usado como solista - explica Sérgio Prata. A extrema velocidade do mestre pôde ser observada tanto nos grupos de choro quanto nas próprias composições. - Há músicas dele tão difíceis que vários instrumentistas da época nem se atreviam nem a tentar tirar de ouvido. Por isso, muitas delas deixaram de ser executadas - observa Joel. Teoricamente, essa situação teria ajudado a alimentar a rivalidade entre Luperce e Jacob do Bandolim, instrumentista mais jovem. Hoje Jacob é citado como referência principal por nove entre 10 bandolinistas. Mas Déo Rian, que foi aluno de Luperce Miranda e vizinho de Jacob, acredita que essa preferência nada tem a ver com conflito. - É uma questão de gosto: muita gente se identifica com o tipo de música mais sentimental, do Jacob. Para Marília, o boca-a-boca dos seguidores de um e do outro aumentou a briga: - Essa rixa ficou famosa por causa dos depoimentos que os dois deram ao Museu da Imagem e do Som, em que soltaram algumas farpas. Mas a verdade é que os maiores elogios a Jacob foram mesmo feitos por Luperce. E vice-versa. A escritora tem motivo para celebrar o lançamento da publicação. Escrito na década de 90, o texto teve que ser retomado praticamente do zero depois que seu carro foi roubado com os originais. Com o bom momento que o choro vive no Rio, ela espera que o show de hoje ajude a trazer pérolas esquecidas do repertório de Luperce de volta às rodas. Luperce Filho, diretor da Academia Luperce Miranda, que foi criada pelo pai na cidade de Nilópolis e hoje funciona em Vaz Lobo, sonha mais alto: - Meu pai ainda tem muitas inéditas. Quero criar o Instituto Luperce Miranda, para levá-las a público e organizar seu acervo. (© JB Online) O bandolim das mil notas Moacyr Andrade Pareceria imaginário, fruto de puro delírio, um solista de bandolim de quem Jacob, sumidade do instrumento jamais apanhada no pecado da falsa modéstia, dissesse ver nele ''aquilo que eu desejaria ser como bandolinista''. A miragem foi Luperce Bezerra Pessoa de Miranda, artisticamente Luperce Miranda, pernambucano de Recife, do bairro de Afogados, celeridade do frevo no manejo das cordas. Terá sido um dos músicos brasileiros que mais gravaram; certamente raros participaram de tantas gravações históricas, tantos marcos da arrancada do nosso cancioneiro registrado.Ao bandolim ou ao cavaquinho (como Pixinguinha, que o admirava e com quem tocou na orquestra Diabos do Céu e em várias outras formações, era o que se chama hoje de multiinstrumentista, incluindo no currículo de habilitações vários tipos de viola e também o piano), o nome de Luperce está agregado a momentos cruciais da consolidação, no Estácio, do samba pós-maxixe. Acompanhou nos discos originais os memoráveis duetos de Francisco Alves e Mário Reis em, por exemplo, Se você jurar (Ismael Silva e Nilton Bastos) e em Deixa essa mulher chorar, de Brancura. Em Vila Isabel, ligado aos rapazes do Bando de Tangarás (é parceiro de João de Barro, o Braguinha, em pelo menos duas marchinhas carnavalescas), conduziu o acompanhamento a Noel Rosa na gravação lançadora de Com que roupa, o primeiro sucesso do poeta, e figurou entre os que forneceram respaldo a Almirante no revolucionário Na Pavuna, parceria do radialista com o maestro Homero Dornelas (que adotava o pseudônimo de Candoca da Anunciação quando se aproximava de sambistas, como foi o caso). Na transposição da música do teatro de revista para o disco, filão muito bem explorado nos anos 30, Luperce comandou a sustentação rítmica da malícia e da picardia de Carmen Miranda e Luís Barbosa no samba-mostruário No tabuleiro da baiana , de Ari Barroso. E são do seu bandolim os arpejos ultra-sentimentais que vêm à tona, revezando-se com a voz maviosa de Orlando Silva, no lirismo exuberante do ''noturno'' Última estrofe, de Cândido das Neves. Luperce Miranda foi o primeiro intérprete a gravar Carinhoso, de Pixinguinha, depois do autor. A peça não tinha ainda a letra que todos os brasileiros, hoje, sabem de cor. Pixinguinha a gravara em 1928, com a Orquestra Típica Pixinguinha-Donga, e, em 1929, regendo a Orquestra Victor Brasileira. A gravação de Luperce é de 1934. O estro derramado e ufanista de Catulo da Paixão Cearense disse certa vez que ''a palheta do bandolim de Luperce Miranda é como o bico de um sabiá gorjeando pelas matas em acordes do Hino Nacional''. Na verdade, era a um só tempo requintada e vigorosa. Transpunha com incrível facilidade as maiores dificuldades técnicas. As notas fluíam em cascatas, um turbilhão melódico sem barreiras. ''Tocava mil notas de uma vez'', na imagem de um grande bandolinista de nossos dias, Joel Nascimento. Mais do que intuitiva, era perícia exercitada e acumulada: Luperce tocava desde que tinha 8 anos, o pai não queria filho doutor, iniciava todos na música. Bem-iniciado, ele integrou com destaque, às vezes como líder, as sucessivas levas de retirantes musicais que nos anos 20 vieram impor às metrópoles a música do Sertão. Eram artistas como Augusto Calheiros, uma das vozes básicas, matrizes, do canto brasileiro, como Jaime Florence, o Meira, que ensinou violão a Baden Powell, e dezenas de outros astros do instrumento, e como Minona Carneiro, o guia da embolada. A influência desse grupo, que incluía ainda, pela procedência, João Pernambuco, Jararaca e Ratinho, entre outros, foi poderosa a ponto de levar compositores como Noel Rosa a produzir emboladas. E foi esse gênero, com Pinião, popular ainda hoje, assinada por Luperce Miranda e Augusto Calheiros, o vitorioso no carnaval carioca de 1928. Passado o auge das invasões sertanejas, o Luperce compositor diversificou sua produção em centenas de peças, sobretudo choros, frevos e valsas - pelo menos uma delas, Alma e coração, de sucesso internacional. O instrumentista praticamente passou a viver mergulhado nos estúdios de gravação, acompanhando, algumas vezes só com dois violões, mas geralmente à frente de regionais e outras formações, todos os grandes cantores de seu tempo. Nos intervalos, dava aulas e podia ser ouvido ao vivo em programas de rádio. Numa emissora, a Rádio Clube, em 1934, teve um substituto eventual, um jovem bandolinista 14 anos mais moço, Jacob, como se pode comprovar nos curiosos diários deixados por este, em parte transcritos por sua biógrafa, Ermelinda A. Paz, no excelente Jacob do Bandolim, editado pela Funarte no ano de 1997. Jacob se considerava ''fã'' e ''admirador'' de Luperce, de quem reconhecia haver recebido influência, mas negava, com aquela veemência que constituía um dos traços mais ostensivos de sua personalidade, ter sido seu aluno. Os alunos foram muitos, principalmente na segunda e definitiva permanência de Luperce no Rio, de 1955 até morrer, em 1977 (no topo do prestígio, em 1946, ele trocara a cidade pelo Recife natal). Não por acaso todo bandolinista brasileiro tem em Luperce Miranda um mestre. (© JB Online)
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