Tatiana Meira
Da Redação do DIARIO
Uma vertente pouco explorada da produção do multifacetado
Hermilo Borba Filho será mostrada a partir desta quarta, quando começa a
terceira edição de projeto em sua homenagem. O foco temático da Semana
Hermilo Borba Filho este ano recai sobre o lado de pesquisador e ensaísta
deste que também foi ator, ficcionista, jornalista e tradutor de peças. Para
aproximar as novas gerações da obra de Hermilo e reforçar a preservação da
memória do encenador, foram tomadas três obras como referência, que serão
apresentadas em palestras, de quarta a sexta-feira, às 20h.
No sábado, é a vez de uma leitura dramática de Um Paroquiano
Inevitável, com direção de Carlos Bartolomeu. "Vamos focar na obra teórica
para ajudar o público a conhecer um outro Hermilo. Ele era um homem à frente
de seu tempo e está no mesmo patamar de um Décio de Almeida Prado ou um
Sábato Magaldi, como um dos grandes teóricos do teatro contemporâneo
brasileiro", ressalta Lúcia Machado, diretora adjunta do Centro de Formação
e Pesquisa das Artes-Cênicas Apolo-Hermilo, no Bairro do Recife, onde será
sediado o projeto.
Na noite da quarta-feira, Fernando Augusto, que comanda há 28 anos
o Mamulengo Só-Riso, trata de dois livros fundamentais para se entender o
ofício dos bonequeiros no Brasil. O primeiro, Fisionomia e Espírito do
Mamulengo, de autoria de Hermilo Borba Filho, foi publicado em 1966,
adentrando um território até então inédito. Treze anos depois, Fernando
lançou Mamulengo: Um Povo em Forma de Bonecos, pela Funarte/MEC, que se
baseia no estudo de Hermilo e procura dar continuidade à pesquisa,
levantando a situação sócio-cultural do brinquedo no Nordeste e em
Pernambuco.
Na quinta, Marco Camarotti parte dos espetáculos populares
nordestinos para situá-los num contexto universal. "O teatro folclórico
sempre esteve ativo em todas as culturas. É dele que se nutre o teatro
convencional, apresentado em salas fechadas e com pagamento de ingressos",
destaca Camarotti, que trabalhou com Hermilo no Teatro Popular do Nordeste
(TPN), que existiu de 1960 a meados da década de 1970. Antes disso, de 1945
a 1953, Hermilo liderou o Teatro de Estudantes de Pernambuco (TEP).
Marco Camarotti estudou o teatro popular em sua tese de doutorado,
na Universidade de Warwick, na Inglaterra, e concluiu que existem 34 pontos
ligando este tipo de teatro praticado em lugares tão distantes quanto o
Canadá e a Oceania. Ele irá situar os espetáculos populares sob a ótica de
Mário de Andrade e de Hermilo Borba Filho, por quem nutre admiração
especial. Se antes estes rituais eram motivados por questões mágicas e
religiosas, hoje eles carregam um cunho político e social, defende
Camarotti.
Antonio Cadengue, palestrante da sexta-feira, analisa a obra
Diálogo do Encenador, de 1964. Neste livro, pioneiro ao apontar uma possível
reteatralização do teatro do Nordeste brasileiro, Hermilo desvenda seus
autores prediletos, que têm suas idéias detalhadas em três
capítulos/diálogos. "Vou me deter especialmente na admiração de Hermilo pelo
diretor da época da vanguarda russa Komisarjevsky. E o caminho empreendido
entre a radicalidade de Meyerhold e o que se dizia ser o conservadorismo de
Stanislavsky", explica Cadengue.
Na opinião de Lúcia Machado, que inclusive fará uma participação
especial, o texto escolhido para a leitura dramática no encerramento do
projeto, no sábado, é delicioso. "Juntamos três gerações de atores", conta.
Os mais experientes, como Maria de Jesus Baccarelli e Ivan Soares,
conviveram e trabalharam com Hermilo Borba Filho. Há um grupo intermediário,
representado por atores como Marilena Breda e os da geração mais jovem. Um
convite tentador para conhecer um pouco da produção do encenador que
aproveitou as potencialidades do povo em seus personagens, dando fôlego novo
ao teatro nacional.
Programação
Quando: de 28 a 31 de julho, sempre às 20h
Local: Teatro Hermilo Borba Filho (Av. Cais do Apolo, s/n, Bairro do Recife.
Fone: 3224.1114)
Quanto: Entrada franca
Ciclo de Palestras: estudos a partir da obra ensaística de Hermilo Borba
Filho.
QUARTA-FEIRA (28) - Palestra Fisionomia e Espírito do Mamulengo: um Povo em
Forma de Bonecos, por Fernando Augusto;
QUINTA-FEIRA (29), - Palestra Espetáculos Populares do Nordeste: uma
Abordagem Contemporânea, por Marco Camarotti;
SEXTA-FEIRA (30) - Palestra Diálogo do Encenador: Anotações à Margem, por
Antonio Cadengue;
SÁBADO (31) - Leitura Dramática: Um Paroquiano Inevitável, antecedida de
apreciação crítica da peça, por Luis Reis. Direção: Carlos Bartolomeu. No
elenco, Maria de Jesus Baccarelli, Marilena Breda, João Ferreira, Ivan
Soares, Aldonez Valença, Cláudio Lira, Marcelino Dias e Igor Almeida;
Participação especial: Lúcia Machado.
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