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A cantora e todas as coisas que a compõem

31-07-2004

Lucas Van de Beuque

Gal Costa na estréia de 'Todas as coisas e eu', anteontem, no Canecão: instrumental enxuto

O melhor é quando, de repente, aflora no palco a Gal visceral, transformando a fatal, a brejeira e a refinada numa só

Tárik de Souza

   O que falta? Gal Costa, a cantora-mor, no templo Canecão, ambientada pela diretora teatral Bia Lessa, a bordo de um punhado de standards, 11 quilos mais afilada, vestindo modelito Narciso Rodrigues. Tanta facilidade acaba conduzindo o show Todas as coisas e eu a uma acomodação reiterativa, o que certamente não desagradou a platéia de famosos da estréia lotada, na quinta-feira.

   Afinal, foram três bis (vá lá, incentivados por black outs em números bem ensaiados). Ponto para a escolha do instrumental enxuto, quase recital, com um discreto revezamento de timbres, principalmente nos sopros de Zé Canuto e nas alternâncias de guitarra e violão por Marcus Teixeira. Jurim Moreira explora seções diversificadas de sua bateria e Bororó, além do baixo de pau, acrescenta intervenções vocais em algumas passagens.

   O que não quer dizer que - mesmo com esse acompanhamento modular - Gal escape em alguns números mais conformistas da mera postura de crooner do óbvio, como nas batidas Linda flor (Luiz Peixoto/ Henrique Vogeler/ Marques Porto/ Candido Costa), Pra machucar meu coração (Ary Barroso), Alguém como tu (José Maria de Abreu/ Jair Amorim) e Nossos momentos (Haroldo Barbosa/ Luis Reis). Onde está a Gal Fa-tal? Ou a refinada Gal de Cantar? Ou mesmo a luxuriante Gal Tropical?

   Há um momento em que todas essas coisas e ela - a Gal visceral - afloram. E tudo funciona de forma original, provocante, incluindo o ornamento, providenciado por Bia Lessa. Dezenove lamparinas acesas descem do teto e desenham uma moldura para um Assum preto (Luiz Gonzaga/ Humberto Teixeira) arrepiante, no fio da navalha entre voz e sax. Assoma a Gal intérprete, interiorizada, vivendo o papel. É o clímax de uma seqüência preparada por uma Ave Maria no morro (Herivelto Martins), com o público cantando baixinho, e encerrada num Vapor barato (Jards Macalé/ Waly Salomão), desfibrado de sua quintessência desbundante.

   O fox Nada além (Custódio Mesquita/ Mário Lago), outro muito surrado, revive no suporte de baixo e estalido de dedos, convocada a adesão da platéia. Mas, em matéria de repertório, o show (escolhido em parceria com o promoter Mário Canivello) vai bem além do conservadorismo do disco. Tem um ótimo tríptico nordestino (não incluído no CD) que liga o afro Caribantu (Lenine/ Sérgio Natureza), o obscuro e genial manifesto Imbalança (Luiz Gonzaga/ Humberto Teixeira) e o refinado Baião de quatro toques (José Miguel Wisnik/ Luiz Tatit). Isso depois de recuperar o esquecido Torquato Neto pós-tropicalista de Três da madrugada (com Carlos Pinto).

   Mas a Gal que predomina no show é a brejeira, sorriso da Alice estampado, a despeito de algumas contorções faciais joãogilbertianas, à procura da emissão perfeita. Ela reina da foliona Camisa amarela (Ary Barroso) à dissonante Alegria (Assis Valente/ Durval Maia), mais a coleante Dama do cassino (Caetano Veloso) e a sinuosa Lá vem a baiana (Dorival Caymmi).

   Se evoca bem a Isaura Garcia de E daí? (Miguel Gustavo), Gal tropeça em releituras lineares de Beth Carvalho (Folhas secas, de Nelson Cavaquinho/ Guilherme de Brito) e Clara Nunes (Na linha do mar, Paulinho da Viola). Nas reaparições dos bis, o binômio Sábado em Copacabana (Dorival Caymmi/ Carlos Guinle) e Copacabana (João de Barro/ Alberto Ribeiro) ganha muitos aplausos. Mas é Faixa de cetim (Ary Barroso), gravada por Orlando Silva em 1942, que soa como revelação para a platéia, mandada para casa numa releitura morna de Lua, lua, lua (Caetano) sob uma redundante projeção enluarada no cenário.

   A propalada volta ao violão (sem a cruzada de pernas, já que o Narciso Rodrigues é longo e preto básico) resume-se a dois sincopados acoplados, Nega manhosa (Herivelto Martins) e Samba rubro-negro (Wilson Batista/ Jorge de Castro). Pena. Seria mais uma chance de Gal reencontrar-se com a intérprete que surpreendia o público ao invés de apenas afagá-lo.  

JB Online)


Gal minimalista

Até o próximo domingo, 1º de agosto, pode ser vista no Canecão a exibição minimalista de uma artista outrora dada a excessos

Jaime Gonçalves Filho

   No início do século XXI, quando eram escassos os arroubos de relevância no cenário da música brasileira, já havia tornado-se hábito consultar o “museu de grandes novidades”. Lá, naquele começo, foi saudado com vigor o fato de Jorge Benjor empunhar outra vez um violão (de náilon, mas violão) e revisitar sua história musical.

   Guardadas as devidas proporções, experiência semelhante pode ser acompanhada neste final de semana no palco do Canecão, no Rio de Janeiro, quando a cantora Gal Costa apresenta, ao vivo, parte de seu mais recente trabalho, Todas as coisas e eu. Só que, em vez de revirar sua própria história, a cantora mergulha no baú de preciosidades do cancioneiro brasileiro – mais precisamente entre os anos 20 e 50.

   Não seria um despropósito se o substantivo todas do título fosse substituído por poucas, já que o caminho escolhido pela cantora, que há cinco anos não se apresentava na cidade, parece ter sido o da introspecção, do recato, do quase silêncio do “menos é mais”.

   O violão também está lá, de volta, mas ele sofre influência direta de seu ídolo maior, João Gilberto. Ao som dele, pode-se ouvir Um Favor (Lupicínio Rodrigues), Nega Manhosa (Herivelto Martins) e Samba Rubro Negro ( Wilson Baptista / Jorge de Castro). É pouco, pouquíssimo, mas apenas o que cabe ali, depois de Gal abrir o espetáculo com Alguém cantando (Caetano Veloso) à capela.

   Como João, a cantora arvora-se na tarefa de redesenhar canções à sua maneira, ora prolongando notas curtas, ora encurtando períodos extensos. E, nesta labuta, economiza vibratos, poupa modulações, elimina empostações. Se o leitor não conhece a concisão, deve correr ao Canecão, para presenciar, apenas até o próximo domingo, 1º de agosto, a exibição minimalista de uma artista outrora dada a excessos.

   A escolha, contudo, não foi tranqüila como o canto. O espetáculo, que agora pode ser visto, concretiza-se após uma série de desencontros com requintes mambembes, por parte da gravadora Indie Records, que, entre outras, vetou, em cima da hora, a proposta cenográfica grandiosa (e cara) da diretora Bia Lessa.

   Abortada a estréia, inicialmente marcada para outubro de 2003, o espetáculo precisou de uma segunda gestação e renasce agora transmutado e tendo como norte o mínimo múltiplo comum, com a cantora dividindo espaço somente com o quarteto formado por Jurim Moreira (percussão e bateria), Zé Canuto (sax e flautas), Bororó (contrabaixo) e Marcus Teixeira (violões e guitarras).

   Calcado, sobretudo, em clássicos da cancioneiro brasileiro dos anos 20 aos 50, Gal fez suas escolhas sobre a ótica da introspecção. E é a liturgia da delicadeza que faz saltar os detalhes cênicos da diretora – em sintonia com o espírito discreto do espetáculo. É assim no período outonal do show, com folhas secas caindo a partir de Pra machucar meu coração (Ary Barroso).

   A melancolia se estende até o seminal samba-canção Linda flor (Luiz Peixoto, Marques Porto, Henrique Vogeler e Cândido Costa), sendo amenizada pelo gracejo de Camisa amarela (de novo Ary Barroso) e pelo jogo de palavras de Dama do cassino (outra vez Caetano Veloso). Essas duas e Três da madrugada (Torquato Neto) e Imbalança (Luiz Gonzaga) foram das poucas incluídas apenas no repertório do show, que por sua vez deixou de fora canções como Kalu (Humberto Teixeira), Nervos de aço (Lupicínio Rodrigues) e Brigas (Evaldo Gouveia e Jair Amorim).

   Durante a interpretação de Ave Maria do Morro (Herivelto Martins) a beleza da voz da cantora é sobreposta à saída usada pela diretora para ressaltar conceito quase cerimonioso do espetáculo. As lanternas que flutuam no fundo do palco, tanto reforçam a liturgia religiosa quanto assemelham-se à iluminação dos barracos do morro. Um morro de outros tempos, o tempo das canções. É o ápice do espetáculo.

   A partir daí, Gal Costa e canções como Vapor Barato (Jards Macalé e Wally Salomão) e Força estranha (Caetano Veloso) vão reconduzindo, com cuidado, os espectadores de volta ao tempo presente. De todas as coisas e dela.

Agência Carta Maior)


A dona da grande voz volta a ser Gal

Antonio Carlos Miguel

   Tarefa difícil a do crítico: vasculhar o seu baú de adjetivos e, sem abusar do óbvio e do elogio fácil, definir e transmitir em palavras o que aconteceu na noite de quinta-feira, na estréia do show “Todas as coisas e eu”. Mas vamos tentar. Gal Costa — que, hoje, às 20h, volta ao palco do Canecão para fechar a minitemporada carioca — estava esplendorosa (maravilhosa, divina etc...) num espetáculo que significa uma renascença artística. Há cinco anos sem fazer uma temporada no Rio, período em que lançou discos aquém de seu talento, ela voltou disposta a demarcar seu terreno como a grande voz da canção brasileira.

   Do repertório — selecionado por Gal e Mario Canivello — à concisa embalagem instrumental e os econômicos arranjos, tudo soma para valorizar a cantora. Não por acaso, ela abre o show a capella , voz límpida, técnica perfeita, com uma pérola de Caetano Veloso que tem a arte do canto como tema, “Alguém cantando”. Em seguida, acompanhando-se ao violão, emenda “Nega manhosa” (Herivelto Martins) e “Samba rubro negro” (Wilson Baptista e Jorge de Castro). Só então entram em cena os músicos: Zé Canuto (saxofones, flauta e vocais), Marcos Teixeira (violão e guitarra), Bororó (contrabaixo e vocais) e Jurim Moreira (bateria).

Repertório abre o leque e inclui canções recentes

   A partir daí, o público acompanha um belo e diversificado passeio pela canção popular brasileira. Se no disco que dá nome ao espetáculo o repertório é centrado principalmente em canções pré-bossa nova, agora o leque se abre. Sem ferir o conceito musical de “Todas as coisas e eu”, ela inclui composições recentes, como as ótimas “Caribantu” (Lenine e Sérgio Natureza) e “Baião de quatro toques” (Zé Miguel Wisnik e Luiz Tatit) — esta, uma daquelas que já nascem clássicas, incluída no recente disco “Pérolas aos poucos”, de Wisnik, onde era interpretada pela cantora Jussara Silveira. Há lugar também para músicas de compositores contemporâneos de Gal, como “Três da madrugada” (Torquato Neto e Carlos Pinto), “Na linha do mar” (Paulinho da Viola) e, uma de suas marcas registradas, “Vapor barato” (Jards Macalé e Waly Salomão) — nesta, os improvisos da cantora, em vocais scat em contraponto ao sax de Zé Canuto, provocaram o grito de “bravo” de outro especialista em canto, Ney Matogrosso, que, depois do show, sintetizou o que muitos sentiam: “Gal está cantando muito e voltou rejuvenescida, mostrando muito prazer no que está fazendo no palco”.

   De Caetano, além da canção de abertura, estão “Dama do cassino” e, no bis (foram três voltas à cena na estréia), “Força estranha” e “Lua lua lua”. Em “Força estranha” Gal comete um pequeno deslize, trocando a palavra “fronte” por “fonte” no trecho “Eu vi muitos cabelos brancos na fronte do artista”.

Músicas antigas que continuam modernas

   Mas, no que é a espinha dorsal do novo disco, a maior parte do repertório é mesmo o da canção pré-bossa nova: incluindo, entre outras,“Pra machucar meu coração” (Ary Barroso), “E daí” (Miguel Gustavo), “Ave Maria no morro” (Herivelto Martins ), “Lá vem a baiana” (Dorival Caymmi), “Nossos momentos” (Luiz Reis e Haroldo Barbosa), “Fim de caso” (Dolores Duran) e “Alguém como tu” (José M. de Abreu e Jair Amorim). Músicas antigas, mas que continuam atuais, sem cair na nostalgia. O mesmo não pode ser dito da mais que datada “Linda flor” (Peixoto, Porto, Vogeler e Costa), ou do arranjo para “Assum preto” (Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira), em óbvio e apelativo duo de voz e o sax. Mas este é outro perdoável detalhe, num espetáculo de arranjos e instrumentação inventivos. Como os para “Nada além” (Custódio Mesquita e Mário Lago) — Gal suingando acompanhada apenas por contrabaixo e o estalar de dedos dos outros músicos — e “Chora tua tristeza” (Oscar Castro Neves), esta já dentro da eterna bossa nova.

   Com alguém cantando assim, esse show prova que o nome da grande voz brasileira voltou a ser Gal.

O Globo)

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