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Bom é ser popular

31-07-2004

Obra do ceramista Luís Antônio da Silva, de Caruaru

 

Os artistas populares Nuca de Tracunhaém e Luís Antônio, do Alto do Moura, concorrem a prêmio internacional

OLÍVIA MINDÊLO
Da editoria de Projetos Especiais

   Enquanto usava as mãos pequenas para modelar brinquedos feitos com as sobras de barro dadas pela mãe, no início do século passado, Vitalino Pereira dos  Santos jamais poderia imaginar o quão revolucionária e famosa essa prática se tornaria em sua comunidade e no mundo. Hoje, o nome do mestre, que sempre carregou consigo a simplicidade pueril, está vinculado não só à Feira de Caruaru, onde fincou raízes, mas a coleções particulares de personalidades como a da intelectual francesa Simone de Beauvoir, acervos de museus como o Louvre, em Paris, e, principalmente, a uma extensa geração de artistas locais que seguiram o estilo. Um desses seguidores é Luís Antônio da Silva, escolhido junto com o ceramista Nuca de Tracunhaém para representar o Brasil na edição latino-americana do Prêmio Unesco de Artesanato 2004, que será entregue no próximo dia 6, durante o Encontro Internacional de Negócios de Artesanato em Salvador, em parceria com o Sebrae.

   Nuca e Luís Antônio foram selecionados por um júri de brasileiros que aboliram a idéia de que a arte popular está distante da erudita. Segundo os critérios de originalidade e criatividade artística, a comissão reuniu um grupo de dez artesãos do País vistos como nomes de relevância para concorrer à premiação, que elegerá este ano a melhor obra feita em barro, cerâmica ou pedra no tema “Criações do Cotidiano”.

   São cerca de 160 artistas de 16 países inscritos para concorrer ao prêmio de US$ 10 mil, a ser distribuído entre os primeiros colocados. Além de reconhecimento internacional, o artesão que ficar em primeiro lugar ganhará US$ 5 mil, quantia considerável para quem tem no trabalho uma luta incansável pela valorização. O vencedor também mostrará suas peças na feira internacional Maison & Object, na França em 2005, o ano Brasil no país. “Mesmo não ganhando o concurso, me sinto valorizado de saber que eu cheguei até aqui”, orgulha-se o pernambucano do Alto do Moura, o maior centro de artes figurativas das Américas, título concedido pela Unesco, comunidade onde mais de 100 famílias vivem da arte no barro.

   Conhecer a Europa, por sinal, é o sonho de Luís Antônio, que fez de sua obra uma releitura do discípulo Vitalino por meio da inserção de elementos mais modernos e urbanizados, como as máquinas. Diferente do mestre, o caruaruense conseguiu ultrapassar as fronteiras para ir ao outro lado do mundo. Na década de 80, Luís levou seu trabalho até o Japão, onde, segundo conta, recebeu muitos elogios e trocou experiências que lhe deram subsídios para chegar à seguinte constatação: “Não existe melhor barro no mundo do que o do Alto do Moura”.

   “O artesanato, como produção sensível, é parte de uma cultura local, mas como cultura deve se abastecer do intercâmbio. O artista precisa se reciclar para crescer”, ressalta o artesão olindense Tiago Amorim, que dedicou vários anos de sua vida ao aprimoramento técnico dos produtores iniciantes de Tracunhaém, na Zona da Mata Norte pernambucana, também centro de excelência no ofício do barro, bem como em santos de madeira. Não foi à toa que de lá saiu um dos nomes mais expressivos e antigos do gênero no local: Manoel Gomes da Silva, o Nuca, famoso pelos seus leões inspirados na arte portuguesa e etrusca. Recentemente, o artista sofreu um derrame, o que dá aos aprendizes uma maior responsabilidade sobre a perpetuação da obra do mestre.

   Presente na comissão do júri, a arquiteta Janete Costa, defensora e incentivadora ferrenha da arte popular, vê Nuca como um exemplo imprescindível na lista brasileira. “Nuca é tradição, fez escola em Tracunhaém. Por isso, merece ganhar o prêmio, até porque está doente”, enfatiza Janete.

   No Brasil, competem com os pernambucanos dois artistas do Vale do Jequitinhonha, em Minas Gerais, e mais seis de diferentes Estados. “Escolhemos aqueles com as cargas culturais mais fortes e sólidas”, afirma a designer Heloísa Crocco, também atuante em comunidades artesanais. A gaúcha compõe a mesa do júri internacional. Júri esse que dará um reconhecimento a gente que nunca esteve acostumada com tamanha atenção.

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Figuras do povo ganham o destaque que merecem

Lugares sofisticados passaram a reconhecer os objetos de arte popular como algo belo e precioso, os museus começaram a comprar peças para formar acervo, tudo isso deu num novo status ao trabalho dos artesões

   O Prêmio Unesco de Artesanato, realizado pela primeira vez no Brasil, chega para confirmar um fenômeno verificado nos últimos anos: a arte popular não é mais vista simplesmente como artigo decorativo de feira. A grande quantidade de projetos de incentivo ao trabalho manual, através de iniciativas públicas e privadas, a exemplo da própria Fenneart, no Centro de Convenções, conferiu ao trabalho dos artesãos uma importância não só econômica, mas um novo status, capaz de inseri-lo no reduto da arte universal e erudita.

   “A arte popular está sendo reconhecida finalmente como uma produção de boa qualidade e grande valor, podendo ser comparada à arte erudita”, analisa Carlos Trevi, coordenador do Instituto Cultural Bandepe, no Bairro do Recife, que organizou, em 2001, com curadoria da arquiteta Janete Costa, a exposição A Arte Popular em Pernambuco. Segundo Trevi, em países como o Japão nunca houve distinção entre a tradição popular e erudita, o que somente agora começa a ser despertado no Brasil, que passa a incutir a idéia de que o produto de um artesão tem o valor de uma obra de arte.

   Da mesma filosofia compartilha a autodidata Sílvia Coimbra, uma espécie de mãe dos artesãos nordestinos, de onde tirou a inspiração para escrever, na década de 80, o livro Reinado da Lua, uma compilação de ceramistas da região. “Essa história de distinguir a arte popular das demais é uma desculpa do mercado para legitimar exclusões. É preciso conhecer, entender e respeitar o universo desses artistas”, afirma.

   Para Janete Costa, foi a globalização a responsável por fazer a arte popular ganhar a classe dominante, para a qual a própria arquiteta se encarrega de mostrar as peças, incrementando ambientes requintados, como hotéis e restaurantes. “Há uma necessidade de o ser humano evidenciar seus valores étnicos. Quanto mais rica e sólida é uma cultura, mais relevante será sua produção artesanal. Por isso, o Nordeste é tão importante”, analisa. “É preciso estabelecer critérios e diferenças. A arte popular deve ter uma proposta de qualidade”, explica Hebe Cavalcanti, coordenadora do Programa de Desenvolvimento do Artesanato da Prefeitura do Recife – Prodarte. (O.M.)

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Novos espaços abrigam artesanato e ajudam a divulgar sua beleza

   O surgimento no Estado de museus e centros culturais reservados à produção artesanal dos mestres pernambucanos também se insere como instrumento relativamente recente de revalorização da arte popular. Inaugurados em sua maioria na década de 70, esses espaços aboliram a noção de que museu é lugar de “relíquias preciosas e quase sagradas”, como assinalou Gilberto Freyre, ao debater, em 80, a necessidade de haver mais espaços dedicados a essas obras.

   Inaugurado no final da década de 70, em Casa Forte, o Museu do Homem do Nordeste é, dentro do ideal do sociólogo, um dos mais representativos. Atualmente fechado e sem data para reabertura, o espaço conta com cerca de 3,5 mil peças que resgatam a memória antropológica do povo pernambucano.

   O Museu do Barro, em Caruaru, e o Centro de Artesanato de Pernambuco, em Bezerros, também são vitrines significativas dessa produção, além de uma série de outros locais (veja quadro). Nessa lista, uma das novidades é o Museu de Arte Popular, que tem previsão de ser reaberto em novembro no Pátio de São Pedro.

   EXPOSIÇÃO – Está em exposição, até este domingo, na praça de eventos do Paço Alfândega, o Salão de Arte Popular, considerado a área nobre dentro da Feira Nacional de Negócios do Artesanato (Fenneart), que foi realizada no Centro de Convenções, entre os dias 2 e 11 de julho. A mostra abriga as cinqüenta melhores obras, selecionadas por uma comissão formada por colecionadores e estudiosos em artesanato. Algumas das obras em exposição foram merecedoras dos seguintes prêmios: “Mestre Benedito Santeiro” (João das Alagoas, de Alagoas, com a obra O Boi e o Cavalo Marinho), prêmio “Mestre Paulo Orlando” (Horácio Rodrigues, de Caruaru, com Lampião, Herói ou Bandido) e o prêmio “Mestre Manuel Galdino” (Sil, de Alagoas, com a peça A Jaqueira). E, ainda, o prêmio aclamação pelo voto pelo júri popular, para Marliete Rodrigues, de Caruaru (PE) com a obra Vovó contando Histórias. No Paço Alfândega, a exposição fica aberta à visitação no horário de funcionamento do shopping, das 12h às 22 horas. (O.M).

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