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"A máquina", o mito vivo e o mundo lá fora

01/08/2004

A Máquina, no Teatro

 

Jaime Biaggio

   Claro, é absolutamente normal e não deveria espantar ninguém que dentro de um estúdio haja uma cidade cenográfica. E ainda assim a vila de Nordestina, lugarejo piscou-perdeu supostamente localizado, lógico, no Nordeste, enche os olhos dentro do maior estúdio do Pólo de Cinema e Vídeo, em Jacarepaguá. São cerca de dez casas, de tamanhos e características arquitetônicas variadas, dispostas ao longo de uma rua larga de terra batida e formando, entre si, algumas ruelas. Dependendo da luz que bata, o lugar pode parecer escaldante ou ganhar uma qualidade mágica.

   E tudo isso a portas fechadas. Não é escaldante, porque tem ar condicionado. Quem decide qual é a luz é Walter Carvalho e seu inseparável gaffer Ulisses Malta. A vila não está lá desde sempre: foi erguida em um mês pela equipe do diretor de arte Marcos Pedroso para as filmagens de “A máquina”, a adaptação de João Falcão para a peça e o livro de sua mulher, Adriana.

   — Foi bom que eu vinha de um longo período de trabalho no filme “Cinema, aspirina e urubus”, do Marcelo Gomes, que foi rodado no sertão mesmo — diz Pedroso. — Estava totalmente envolvido por aquele universo.

   O belo cenário não vai durar muito ali, contudo. “A máquina” é uma produção de Diler Trindade (“Dom”, “Maria — A mãe do filho de Deus”, os filmes de Xuxa e Renato Aragão). Obedecerá, portanto, ao método Diler Trindade de filmagens em ritmo acelerado. Dentro de duas semanas, estará tudo encerrado. Para ser mais exato, como, hoje, domingo, a produção já está rodando cenas na Beneficência Portuguesa, que “dubla” o hospício onde está o protagonista da história, Antônio, é até provável que o cenário descrito ali em cima nem exista mais.

   — Estamos cortando um dobrado para filmar tudo em cinco semanas — confessa Falcão, admitindo que talvez precisasse de um pouco mais de tempo no set para esta que é a sua estréia na direção de um filme.

Orçamento deve chegar a R$ 3 milhões

   No hospício, transcorre a maior parte das cenas do Antônio do futuro, um personagem que, aliás, não existia antes. O que sempre existiu, em todas as instâncias dessa história, foram os dois níveis de realidade que se estabelecem na narrativa. Ela trata da interação entre Antônio (Gustavo Falcão, sobrinho do diretor/autor), cidadão de Nordestina, um fim-de-mundo de onde todos vão embora assim que podem, e o mundo-lá-fora, que ele persegue apenas no intuito de ganhar o amor de Karina (Mariana Ximenes), moça da cidade que não conhece nada fora dali. É nesse processo que surge a máquina do título, erguida por Antônio na praça central de Nordestina. É por aí também que surge o Antônio do futuro.

   E o Antônio do futuro é Paulo Autran.

   — É de uma poética ímpar o texto do João — diz o ator de 82 anos, que tem nesse o seu primeiro papel de destaque num longa-metragem desde o já longínquo “O país dos tenentes”, de 1987. — E ele é uma flor, um sujeito entusiasmado, um poeta.

   Seria necessário de qualquer jeito um trabalho rigoroso de transposição do texto não linear, de formato elíptico, de “A máquina” para uma estrutura que funcionasse na tela. Mas João Falcão aproveitou a oportunidade para tentar trabalhar com Paulo Autran pela primeira vez.

   — Eu o procurei antes de escrever o roteiro e deixei bem claro: “Se você fizer o filme, esse roteiro será de um jeito; se não fizer, será de outro” — diz Falcão, explicando que o Antônio idoso provavelmente apareceria muito menos se Autran não tivesse aceitado viver o personagem. — Ele seria mais uma narração do que uma presença física.

   Paulo Autran já havia pedido ao diretor que escrevesse uma peça para ele, mas a colaboração nunca fora possível. Agora, filmagens já começadas, o ator se rasga em elogios ao diretor. Diz ele que, dos seus quase 20 papéis em cinema, considera que teve três diretores que realmente fizeram diferença: Glauber Rocha (“Terra em transe”), João Batista de Andrade (“O país dos tenentes”) e João Falcão.

   — A gente sente que ele tem o filme inteiro na cabeça, sabe exatamente o que quer — diz Autran.

   Com orçamento de R$ 2,5 milhões (os produtores estão tentando captar mais porque os gastos finais serão da ordem de R$ 3 milhões), o filme traz ainda no elenco Vladimir Brichta, Wagner Moura, Lázaro Ramos e Aramis Trindade.

O Globo)

Com relação a este tema, saiba mais (arquivo NordesteWeb)


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