Jaime
Biaggio
Claro, é
absolutamente normal e não deveria espantar ninguém que dentro de um estúdio
haja uma cidade cenográfica. E ainda assim a vila de Nordestina, lugarejo
piscou-perdeu supostamente localizado, lógico, no Nordeste, enche os olhos
dentro do maior estúdio do Pólo de Cinema e Vídeo, em Jacarepaguá. São cerca
de dez casas, de tamanhos e características arquitetônicas variadas,
dispostas ao longo de uma rua larga de terra batida e formando, entre si,
algumas ruelas. Dependendo da luz que bata, o lugar pode parecer escaldante
ou ganhar uma qualidade mágica.
E tudo isso a portas fechadas. Não é
escaldante, porque tem ar condicionado. Quem decide qual é a luz é Walter
Carvalho e seu inseparável gaffer Ulisses Malta. A vila não está lá
desde sempre: foi erguida em um mês pela equipe do diretor de arte Marcos
Pedroso para as filmagens de “A máquina”, a adaptação de João Falcão para a
peça e o livro de sua mulher, Adriana.
— Foi bom que eu vinha de um longo
período de trabalho no filme “Cinema, aspirina e urubus”, do Marcelo Gomes,
que foi rodado no sertão mesmo — diz Pedroso. — Estava totalmente envolvido
por aquele universo.
O belo cenário não vai durar muito
ali, contudo. “A máquina” é uma produção de Diler Trindade (“Dom”, “Maria —
A mãe do filho de Deus”, os filmes de Xuxa e Renato Aragão). Obedecerá,
portanto, ao método Diler Trindade de filmagens em ritmo acelerado. Dentro
de duas semanas, estará tudo encerrado. Para ser mais exato, como, hoje,
domingo, a produção já está rodando cenas na Beneficência Portuguesa, que
“dubla” o hospício onde está o protagonista da história, Antônio, é até
provável que o cenário descrito ali em cima nem exista mais.
— Estamos cortando um dobrado para
filmar tudo em cinco semanas — confessa Falcão, admitindo que talvez
precisasse de um pouco mais de tempo no set para esta que é a sua estréia na
direção de um filme.
Orçamento deve chegar a R$ 3 milhões
No hospício, transcorre a maior parte
das cenas do Antônio do futuro, um personagem que, aliás, não existia antes.
O que sempre existiu, em todas as instâncias dessa história, foram os dois
níveis de realidade que se estabelecem na narrativa. Ela trata da interação
entre Antônio (Gustavo Falcão, sobrinho do diretor/autor), cidadão de
Nordestina, um fim-de-mundo de onde todos vão embora assim que podem, e o
mundo-lá-fora, que ele persegue apenas no intuito de ganhar o amor de Karina
(Mariana Ximenes), moça da cidade que não conhece nada fora dali. É nesse
processo que surge a máquina do título, erguida por Antônio na praça central
de Nordestina. É por aí também que surge o Antônio do futuro.
E o Antônio do futuro é Paulo Autran.
— É de uma poética ímpar o texto do
João — diz o ator de 82 anos, que tem nesse o seu primeiro papel de destaque
num longa-metragem desde o já longínquo “O país dos tenentes”, de 1987. — E
ele é uma flor, um sujeito entusiasmado, um poeta.
Seria necessário de qualquer jeito um
trabalho rigoroso de transposição do texto não linear, de formato elíptico,
de “A máquina” para uma estrutura que funcionasse na tela. Mas João Falcão
aproveitou a oportunidade para tentar trabalhar com Paulo Autran pela
primeira vez.
— Eu o procurei antes de escrever o
roteiro e deixei bem claro: “Se você fizer o filme, esse roteiro será de um
jeito; se não fizer, será de outro” — diz Falcão, explicando que o Antônio
idoso provavelmente apareceria muito menos se Autran não tivesse aceitado
viver o personagem. — Ele seria mais uma narração do que uma presença
física.
Paulo Autran já havia pedido ao
diretor que escrevesse uma peça para ele, mas a colaboração nunca fora
possível. Agora, filmagens já começadas, o ator se rasga em elogios ao
diretor. Diz ele que, dos seus quase 20 papéis em cinema, considera que teve
três diretores que realmente fizeram diferença: Glauber Rocha (“Terra em
transe”), João Batista de Andrade (“O país dos tenentes”) e João Falcão.
— A gente sente que ele tem o filme
inteiro na cabeça, sabe exatamente o que quer — diz Autran.
Com orçamento de R$ 2,5 milhões (os
produtores estão tentando captar mais porque os gastos finais serão da ordem
de R$ 3 milhões), o filme traz ainda no elenco Vladimir Brichta, Wagner
Moura, Lázaro Ramos e Aramis Trindade.
(©
O Globo)