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Champanhe à beira-mar

02/08/2004

Naná Vasconcelos comemora os 60 anos

O percussionista Naná Vasconcelos entra hoje para o seleto clube dos sessentões da MPB, com direito a comemoração na praia com os amigos de “redação” do Jornal Aquático

JOSÉ TELES

   Completa hoje 60 anos, sem receber uma única homenagem oficial da cidade onde nasceu, um músico que já gravou com alguns dos mais renomados nomes do jazz e do rock norte-americanos, entre os quais, Don Cherry, B.B King, Laurie Anderson, Paul Simon, Talking Heads, que ajudou a definir o papel da percussão em um dos períodos mais férteis da MPB, com Os Mutantes, Gal Costa, Milton Nascimento. O nome dele? Juvenal de Hollanda Vasconcelos, ou melhor, mestre Naná Vasconcelos.

   Não que ele queira homenagens: “Eu celebro aniversário todo dia quando acordo”, brinca Naná. Na realidade, ele será homenageado no Recife. Mas na praia de Boa Viagem, com direito a bolo e champanhota, pelos companheiros de “redação” do Jornal Aquático, um hebdomadário de circulação restrita, e tiragem limitada. O único exemplar da edição é lido, dentro d’água, por um grupo de banhistas, que se encontra todas as manhãs na praia para jogar conversa fora.

   Naná acaba de voltar de uma mini-turnê pela Europa, com uma escala em São Paulo, onde gravou, com 120 crianças e a orquestra da Universidade de São Paulo (USP), material para um CD e um DVD, que não sabe ainda por que selo serão lançados. “Tinha a produção disponível, e aproveitei para tocar o projeto ABC Musical. Gostaria de fazer no Recife e não em São Paulo. Mas aqui falta vontade política para dar continuidade ao projeto”, comenta Naná, sem esconder a decepção. Quando voltou para sua terra natal, depois de mais de duas décadas vivendo nos EUA e Europa, ele idealizou o ABC das Artes e o ABC Musical, dois projetos sociais direcionados a crianças carentes entre 6 e 12 anos. Ambos, no entanto, estão parados, por falta de quem os patrocine em Pernambuco: “Sei que agora, época de eleição, muito político vai querer ajudar”, ironiza o músico.

   As seis décadas de vida, Naná diz que as viveu com intensidade, com muitas histórias para contar: “Mas o bom mesmo é continuar fazendo música com as novas gerações. Trabalho com músicos, como Lirinha, do Cordel do Fogo Encantado, que têm idade para ser meu filhos”, diz Naná, que tem duas filhas, Luz Morena (brasileira, cinco anos) e Jardim Azul (norte-americana, dez anos). “Luz Morena esteve comigo agora em São Paulo e arrasou, já leva jeito para a música. Engraçado é que quando estou com ela na praia, tem gente que passa e pergunta se estou curtindo a netinha”, conta, rindo. É mais pela filha que continua morando no Brasil, confessa.

   Constantemente viajando, em setembro Naná estará na África, como convidado de honra do governo sul-africano, para as comemorações dos dez anos do fim da política oficial de segregação naquele país (aliás, será o único brasileiro na festa). “Vou participar de uma cerimônia que tem o nome de The Essence of the Bow, ou A Essência do Berimbau. Vão estar comigo tocadores de berimbau de vários países africanos,” conta Naná, que transformou o berimbau de elemento decorativo em instrumento solo. Baterista no início do anos 60, o berimbau entrou em sua vida por acaso, quando ele participava, no Recife, do musical Memórias dos Cantadores (com Teca Calazans, Marcelo Melo, Geraldo Azevedo). “No repertório, havia folclore de todas regiões do país. Da Bahia, tinha a capoeira, e tive que aprender berimbau. Fiquei com ele em casa, aí, por curiosidade, comecei a experimentar sons. Acabei tirando o berimbau da capoeira. Ele se tornou meu instrumento solo”, rememora.

   Seu próximo disco brasileiro está mixado, masterizado e com título: Chegada. Foi gravado no Recife, com músicos com os quais Naná vem tocando há algum tempo (Lu Coimbra, César Michiles, Chiquinho Chagas, entre outros). Deverá ser mais um trabalho independente: “Ofereci a Warner. Me falaram que tudo bem, mas se em três meses a gravadora não tivesse retorno do capital empregado, o disco sairia de catálogo”. Naná ressalta que a música brasileira interessante está hoje entre os alternativos. “As gravadoras só se interessam por coisas descartáveis. Por isso, os artistas mais conhecidos, Marisa Monte, Bethânia, fundam seus próprios selos”, critica, com razão. Os álbuns que gravou no exterior (Africa Adeus, Amazonas, Saudades, etc.), que lhe renderam prêmios Grammy, e sete vezes o título de melhor percussionista do mundo pela bíblia do jazz, a revista Downbeat, só se encontram no Brasil na seção de importados. Este ano, ele volta a gravar nos EUA, com o guitarrista Pat Metheny, com quem já dividiu cinco discos.

   “Quero viver cada vez mais jovem e morrer o mais tarde possível”, é a frase de efeito que preparou para os 60 anos. Idade que faz Naná ser sócio de um clube para o qual já entraram Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil e outros grandes e premiadíssimos talentos, feito ele. Nenhum, porém, com o importante cargo de “correspondente internacional” que Naná ocupa no Jornal Aquático, cuja edição de hoje a ele é dedicada.

JC Online)

Com relação a este tema, saiba mais (arquivo NordesteWeb)


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