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Um eterno inventor de linguagens

04/08/2004

Ypiranga Filho

Ypiranga Filho ganha homenagem pelos seus 50 anos de arte e promete para dezembro série de fotolitogravuras

Júlio Cavani
Da equipe do DIARIO

   Há 50 anos um pássaro de concreto anunciava a formação de uma artista. Em 1954, Ypiranga Filho fazia sua primeira escultura sob influência do seu avô, especialista em estátuas para cemitérios. Hoje, quando completa 68 anos de idade, comemorando suas cinco décadas de trabalho com o lançamento de um vídeo (no Museu do Estado, às 19h), ele continua produzindo e ensinando diariamente, enquanto prepara um novo álbum de imagens feitas com uma técnica que acaba de inventar, misturando litogravura e fotografia.

   Apesar de ter começado com essa escultura de concreto, Ypiranga tem uma obra tão diversificada que torna difícil eleger uma especialidade. Nos últimos dez anos, ele vem divulgando mais suas gravuras e estátuas de orixás feitas com o reaproveitamento de peças de ferro, mas durante sua trajetória o artista experimentou da pintura ao desenho animado, passando pela cerâmica, o cinema, a fotografia e a videoarte. "Em 1954 fiz essa primeira escultura de um pássaro e passei a produzir algumas obras, mas só me considero um artista profissional a partir de 1964", detalha, mencionando o ano do golpe militar, quando ele foi convidado por Lina Bo Bardi para expor em Salvador e se integrou ao grupo que logo em seguida formaria o Movimento da Ribeira, núcleo de artistas que encontrou em Olinda liberdade para criar e divulgar a arte.

   Videoarte - No vídeo Objeto Abjeto, que será lançado hoje no Museu do Estado, o cineasta Marco Hanois prefere não criar hierarquias ao traçar um panorama sobre a obra do artista em apenas 8 minutos, se aproximando mais da videoarte inquieta do que do documentário sóbrio. O filme começa com radiografias do corpo humano, numa referência à carreira de radiologista seguida paralelamente por Ypiranga. Depois, as linhas abstratas da animação Dinâmica dos Traços, filmado pelo artista em 8 milímetros na década de 1970, dão continuidade à narrativa, acompanhada pelo depoimento do próprio homenageado. Uma edição de imagens que alterna momentos caóticos (gravuras exibidas sem identificação) e redundantes (ladeiras de Olinda quando fala-se do assunto) oferece uma noção da produção do recifense.

   "Me interessa muito mais a lenda do que os fatos", explica o cineasta, que quis fugir da mera apresentação de informações. "Fiz um vídeo curto para não encher o saco. Quem sou eu para tentar explicar a obra dele. Prefiro apenas dar uma idéia dos movimentos pelos quais ele passou, dos sentimentos", complementa, explicando por que só filma o artista no final e não credita suas obras, mostrando-as ao lado de trabalhos de colegas, sem diferenciação. O roteiro foi premiado no último Salão Pernambucano de Artes Plásticas, mas os R$ 5 mil recebidos por Hanois foram roubados dele por assaltantes na rua.

   Em dezembro, Ypiranga Filho vai apresentar sua nova invenção, a Fotolitogravura. No processo, ele revela fotografias sobre uma superfície de pedra para depois, usando os princípios da litogravura, aplicá-las sobre o papel usando a tinta. Essa é apenas mais uma das várias técnicas desenvolvidas pelo artista. Outra delas foi a cerâmica extraída do mangue. Usando a lama preta do manguezais, ele produz peças que, depois de levadas ao forno, viram esculturas de cerâmica branca.

   Sessão - Sua produção de cinema em Super 8 recentemente foi restaurada e adquirida pelo Instituto Itaú Cultural, de São Paulo, que disponibiliza em seu site um dos filmes. Hoje no Museu do Estado, antes da sessão do vídeo, serão exibidos outros documentários de Hanois inspirados em artistas plásticos pernambucanos, como Rodolfo Mesquita e Adão Pinheiro.

Serviço

Exibição do vídeo Objeto Abjeto, de Marco Hanois, sobre os 40 anos da arte de Ypiranga Filho

Quando: Hoje, às 19h
Onde: Museu do Estado (Avenida Rui Barbosa, 660, Graças)
Quanto: Entrada franca

Pernambuco.com)


Movimento com vocação para o popular

   Depois de 40 anos do início do Movimento da Ribeira, parece ser este o momento mais divulgado da atuação de Ypiranga em Pernambuco, apesar da diversidade de sua obra. No 45º Salão Pernambucano de Artes Plásticas, realizado em 2002, Ypiranga foi convidado para apresentar seu rico acervo remanescente do Movimento da Ribeira, incluindo gravuras, cartazes, produção editorial e pinturas.

   Sobre o grupo, do qual fizeram parte João Câmara, Guita Charifker, Adão Pinheiro, José Barbosa e José Tavares, o artista valoriza mais a preocupação social, de se produzir uma arte para o povo, na linguagem e na capacitação. Marco Hanois, por outro lado, destaca na experiência sua proposta libertina, que inseria Olinda na contracultura.

   Ypiranga atualmente divide um ateliê, o Ribeira Arte e Ofício, também em Olinda, em frente ao mercado da Ribeira, no mesmo local histórico, com mais um grupo de jovens artistas. Lá ele também dirige uma escola de gravura, que trabalha com máquinas modernas e prensas antigas, como uma do século XVII. No ano que vem, a convite do Governo da Paraíba, ele inaugura uma escola de escultura em João Pessoa.

Pernambuco.com)


Vídeo sobre Ypiranga Filho resgata Movimento da Ribeira

Marco Honois lança hoje mais um trabalho da série Objeto Abjeto enfocando um de seus mestres

CAROL ALMEIDA

   Se tivesse um nome, a última série de vídeos de Marco Hanois podia ser chamada de Ao Mestre, com Carinho. Como não tem, os vídeos são simplesmente titulados pela graça dos mestres em questão, todos eles artistas que iniciaram o próprio Hanois na arte da transgressão plástica. Hoje, no Museu do Estado, o quarto ‘professor’ do videasta ganha voz e imagem com o lançamento do vídeo Objeto Abjeto, dedicado à vida e obra do escultor, gravador, restaurador, pintor, fotógrafo, cenógrafo, cineasta e pesquisador Ypiranga Filho.

   Com oito minutos de duração, o vídeo tenta, com um roteiro relativamente simples, rever a atmosfera de criação de Ypiranga Filho. O próprio Ypiranga narra sua trajetória em off enquanto imagens de seus trabalhos e das pessoas com quem ele conviveu são exibidas. Não há depoimentos ou entrevistas de outras pessoas, apenas as memórias do próprio biografado. “Foi bem simples conseguir as informações sobre a carreira de Ypiranga, porque ele mesmo sempre foi muito organizado e catalogou tudo que fez”, explica Hanois.

   Como foi dito, Objeto Abjeto faz parte de uma série de vídeos sobre artistas plásticos que mantiveram durante algum tempo uma relação de mestre-aluno com Hanois. Os vídeos anteriores foram, por ordem de lançamento, sobre Rodolfo Mesquita, Adão Pinheiro e Paulo Bruscky. Todos eles, além do próprio Ypiranga, fizeram parte do Movimento da Ribeira, que durante os anos 60 e 70 levou para as ladeiras de Olinda a expressão artística reprimida pelo regime militar. “Procuro sempre ter como foco essa época do movimento artístico pernambucano porque poucas pessoas estudaram ou pesquisaram essa época”, justifica o videasta.

   No vídeo que será lançado hoje à noite, o Movimento da Ribeira também é citado como sendo um divisor de águas na carreira do biografado em questão. Aliás, o único artista plástico, além do próprio Ypiranga, que fala em Objeto Abjeto (não em entrevista, mas em poesia) é Adão Pinheiro, cujo depoimento deu base para o roteiro do vídeo. As imagens mostram ainda como o artista sobreviveu aos anos do regime militar e mostra um pouco da porção cineasta de Ypiranga utilizando películas em super 8mm filmadas por ele.

   O roteiro do vídeo foi premiado pela 45ª edição do Salão de Arte de Pernambuco e teve produção financiada com ajuda institucional das prefeituras do Recife, Olinda, Produtora Center e colaboração de músicos pernambucanos. Hanois, que pretende seguir com sua série centrada no Movimento da Ribeira, já tem o nome do próximo vídeo-biografado: José Barbosa.

Serviço

Lançamento do vídeo Objeto Abjeto – Museu do Estado, Av. Rui Barbosa, 660, Graças. Hoje, às 19h

JC Online)

Com relação a este tema, saiba mais (arquivo NordesteWeb)


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