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Revolução com a Besta Fubana

06/08/2004

Romance da Besta Fubana

O escritor Luiz Berto vale-se do hilário e do fantástico para contar uma rebelião em Palmares

JOSÉ TELES

   O Romance da Besta Fubana, a “descrição histórica, científica e literária da instauração da República Rebelada dos Palmares, no ano pomposo de 1953”, relatada pelo escritor Luiz Berto, chega à terceira edição. Embora seja um dos livros mais premiados da (relativamente) recente safra de romances de autores pernambucanos, O Romance da Besta Fubana ainda é mais conhecido em outros Estados, onde recebeu elogios de insuspeitos críticos literários, a exemplo destes de Ênio Silveira: “Ao avançar na leitura do texto, vi-me possuído por crescente admiração e não me continha em exclamações de grande apreço, pois O Romance da Besta Fubana de fato ia-se revelando das melhores coisas que havia lido nos últimos anos”.

   Hábil criador de situações e personagens, Luiz Berto construiu a narrativa como se se tratasse de um fato real, entremeando ficção com realidade, pessoas fictícias com outras de carne e osso. A Besta Fubana é, antes de mais nada, um livro divertido, em certas passagens, hilariantes. Tem um pouco do erotismo e populismo de Jorge Amado, da admiração pelo Brasil não-litorâneo de Ariano Suassuna e do realismo fantástico de García Marques. Mas que não se pense que são meras emulações de maneirismos dos mestres citados. Berto capricha na construção de personagens como Zé Ferida e sua mulher Maria Banga, que virou santa e alvo de romaria, perdendo o juízo antes: “Maria Banga endoidou às cinco horas da manhã de uma sexta-feira e passou três dias cacarejando e batendo asas, de cócoras....

JC Online)


Realismo fantástico inspira personagens que ficam na memória

   Os personagens vão sendo apresentados, o absurdo convivendo com a realidade. Tem o jumento Josimar que, um belo dia, caminha sobre as águas do rio Una, no meio pára e urina das seis da manhã até meia-noite, mudando-lhe a cor das águas, e tornando-o tão sagrado quanto o Jordão na Palestina. Outro é o cego Chico Folote, que mantém um harém, trocando de mulher todo ano, no mês de setembro. Mais adiante é a vez do poeta, de carne e osso, Juarheyz Correa, que vê seus poemas na boca do povo da República Rebelada de Palmares, Mata Sul, de Pernambuco, onde a história desenvolve-se.

   A futura república começa a delinear-se com a chegada na cidade de um misteriosíssimo e sapientíssimo (além de malandríssimo) paraibano, de Ingá do Bacamarte, chamado Natanael para quem “Não tem coisa debaixo do sol que não seja do meu conhecimento”. Aqui recrudesce ainda mais a fusão ficção/realidade. Um Natanael, paraibano da mesma Ingá do Bacamarte, porém de verdade, é quem assina os desenhos que ilustram o livro. Quem explica a confusão é o próprio Luiz Berto: “Natanael existe, é um artista de Brasília. Usei seus dados pessoais para compor o Natanel do romance”. Berto lembra que o relançamento agora deve-se à passagem de vinte anos da primeira edição (pela Editora Itatiaia, de Minas Gerais), quando o livro figurou entre os mais vendidos do País.

JC Online)


Fábula atual sobre o poder e a ganância

Augusto Pinheiro
Da equipe do DIARIO

   A história imaginária da República Rebelada dos Palmares, criada após a separação do município do Interior pernambucano do resto do Brasil, é o recheio de O Romance da Besta Fubana, do escritor palmarense Luiz Berto, obra que completa 20 anos e chega à terceira edição com lançamento especial hoje, às 19h, na sede da Editora Bagaço, no Poço da Panela. "Na época da primeira edição, em 1984, a publicação foi classificada como realismo fantástico, por conta do estilo em voga entre os escritores sul-americanos", explica o autor.

   A definição não é gratuita. A começar pelo personagem-título da obra, um ente místico-mítico, metade macho, metade fêmea, que vem do espaço para apoiar a recém-criada república - seja amamentando o exército com seu leite superpoderoso ou fornecendo energia com seu rabo. A nova nação surge após a tomada do poder por um grupo bastante peculiar, formado por um sapateiro comunista, uma prostituta, um cego mendigo e um astrólogo-adivinhador, comandados pelo camelô-cantador de viola Natanael,que assume o cargo de general-presidente. Tudo vai bem até o início das brigas internas por poder. "É uma fábula sobre o poder e a ganância. Eu me inspirei muito na Revolução Sandinista, na Nicarágua, na Guerra de Canudos, na Bahia, e na Guerra de Princesa, na Paraíba", conta o autor.

   Luiz Berto acrescenta elementos reais à ficção, como as presenças do presidente Getúlio Vargas, estatísticas da época, nomes de filmes e jornais. O livro recebeu os prêmios Literário Nacional (do Instituto Nacional do Livro) e Guararapes (da União Brasileira dos Escritores). O lançamento hoje à noite conta com recital de Jessier Quirino, um dos três "afilhados" para quem foi dedicado o romance.

Serviço

Lançamento de O Romance da Besta Fubana
De Luiz Berto
Edições Bagaço, 395 págs., R$ 30,00
Onde: Editora Bagaço (rua dos Arcos, 150, Poço da Panela)

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