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Vital Farias defende cantoria engajada

06/08/2004

Vital Farias

Michelle de Assumpção
Da equipe do DIARIO

   O menestrel de Taperoá está com a língua mais afiada do que nunca. Tanto na cantoria quanto na prosa, esta última, como um exercício de cidadania da vida e dos palcos também. O paraibano Vital Farias dedica-se atualmente às questões dos trabalhadores rurais, que são o centro de sua obra mais recente, a Missa dos Agricultores, que no último dia 26 de julho aconteceu em sua segunda edição, na terra natal, Taperoá. Vital e dezenas de trabalhadores e fiéis católicos protagonizaram uma dramatização que o compositor escreveu há 15 anos. Roteiro que une a a cronologia de uma missa tradicional - que faz mais uso de passagens bíblicas que tratam do homem que cuida da terra - com canções baseadas em salmos bíblicos correspondentes. Do roteiro dessa missa espetáculo, ele irá retirar canções que estarão na cantoria que realiza hoje, dentro do Projeto Seis e Meia, no Teatro do Parque.

   "A cada dia que passa estou me especializando nas questões do agricultor, que foi meu pai e são todas essas pessoas que estão se organizando para readquirir suas terras", diz Vital. O violão clássico, que usa como se fosse uma orquestra, utilizando quase uma dezena de afinações, é o eterno e único companheiro no conto dessas histórias que misturam homem, natureza, sociedade e política. A expressão cantoria, em substituição ao formato show, remete aos eventos dos violeiros sertanejos que percorrem Brasil afora na peleja de viola. Foi adotada por Vital desde meados dos anos oitenta, quando consagrou, junto com os parceiros Elomar, Xangai e Geraldo Azevedo, o projeto Cantoria.

   Não faltarão na ocasião as belas canções consagradas por Vital ao longo de sua carreira: Ai que Saudade D'ôce, Era Casa Era Jardim, entre outras. Após abrir a cantoria, o compositor e cantor recebe no palco o cantor Tonino de Arcoverde, que ele mesmo indicou para a ocasião. Lançando um novo CD, intitulado Dança das Abelhas, Tonino segue o gênero das canções violadas, de teor social e que também narram paisagens sertanejas.

   Vital Farias, se fosse definido por ArianoSuassuna, seria o cantor que representa o Brasil Real. O artista que compõe a partir dos cantos das igrejas, dos cantadores de viola de Taperoá - um dos tantos celeiros nordestinos dessa modalidade - e do estudo da música clássica erudita (concluídos no Rio de Janeiro) está certo de que seu cancioneiro vem da inspiração e do coração, antes da técnica. Seja no que escreve ou no que toca no instrumento. "Trabalho no violão clássico o linguajar do cantador", diz ele, que sofisticou as harmonias utilizadas pelos cantadores do Sertão, mantendo os pés na tradição, no passado, sem se prender às divisões da cantoria ensinadas por maestros como Guerra Peixe.

   "O que acho da arte em geral é que ela tem que ter força por si mesma, tem que emocionar as pessoas", reflete. É por isso que usa a sensibilidade e a indignação, marcas de sua personalidade, para criar sua obra, mais precisamente, o texto de sua música. "No Brasil hoje não está sendo feito um tipo de música condizente com o sofrimento do povo", diz ele, comparando a atual situação social e política do Brasil com a época da ditadura.

   "Naquela época, não podíamos falar, hoje a gente fala mas eles fazem que não escutam", diz Vital, que expõe o tempo inteiro a insatisfação com o partido e o atual presidente da República. "Se ele tem que enterrar o sonho dele, que enterre sozinho. Meu ideal de socialismo continua", sentencia. Debruçado na produção do que poderá tornar-se sua composição mais rebuscada, intitulada Epopéia Negra ("uma obra poética, popular e sinfônica com mais de uma hora ininterruptas") Vital trabalha mais uma problemática social brasileira. É a questão do negro e do preconceito racial no Brasil. "Eu pretendo ser um cidadão por inteiro, procuro ser libertário para merecer a passagem pelo planeta", declara o cantador.

Pernambuco.com)


Vital Farias de volta ao Recife

Marcelo Benevides

         Uma apresentação do paraibano Vital Farias é sempre surpreendente. Na última vez que passou pela capital pernambucana, em uma noite de cantoria no Teatro Santa Isabel, o artista convidou uma de suas filhas, uma criança com poucos anos de idade, para cantar em várias canções, de Preta Pretinha (dos Novos Baianos) à sua Sete Cantigas Para Voar. Além das músicas, o espetáculo costuma ser intercalado por momentos em que Farias conta histórias que variam de experiências de vida a pontos de vista sobre a política mundial. Hoje, Vital retorna ao Recife como parte da programação do projeto Seis e Meia, que ainda levará ao Teatro do Parque o pernambucano Tonino Arcoverde.

          Atualmente, Farias entá envolvido nos projetos da Epopéia Negra e da Missa dos Agricultores do Sertão do Cariri Parahybano, sendo este último baseado na cerimônia realizada pela segunda vez no interior da Paraíba no último dia 26 de junho - a primeira ocorreu em 1999. “Não conseguimos dar continuidade por falta de apoio, mas creio que, agora, possíveis patrocinadores vão abrir os olhos”, conta Vital, adiantando que a Missa vai gerar um DVD ainda sem previsão de data de comercialização. Além dos projetos, o músico irá lançar até o final do ano, pelo seu selo próprio, o álbum do companheiro Fernando Guimarães, editado em LP em 1987.

          “A missa é um dos pontos altos do resgate de nossa cultura, é muito emocionante, ainda estou meio doído e quero aproveitar essa emoção”, detalha o cantador, comentando que irá apresentar alguns temas da encenação na apresentação do Projeto Seis e Meia, a exemplo do Ato Penitencial. “Trabalho como quem espera a morte, vivendo o presente. Por isso não gosto de assumir prazos, só afirmo que estou trabalhando”, declara Vital, que montou um estúdio na própria casa, a base do selo Discos Vital Farias, que tem como slogan a frase: “Disco é redondo, cultura é outra coisa”.

          Abrindo a noite, Tonino Arcoverde, radicado na cidade do sertão que lhe emprestou o sobrenome artístico, mostra as músicas de seu novo disco, Dança das Abelhas - o lançamento do trabalho está previsto para outubro.

Folha de Pernambuco)

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