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07/08/2004
Pernambucano expõe trabalhos na Pinacoteca do Estado FABIO CYPRIANO Diz uma lenda esquimó, sobre a história de um famoso caçador de renas, que um dia foi abordado por uma ave de rapina: "Se você não parar de matar, eu vou acabar com você, a não ser que você dê uma grande festa". A partir dessa temática, Gilvan Samico, 76, realizou sua mais recente gravura, "A Caça", peça central da mostra que a Pinacoteca inaugura hoje. Além da própria gravura, cerca de 30 estudos, dos 50 realizados, estarão expostos em São Paulo. Pois é, Samico não se inspira apenas na temática brasileira. "Li a lenda em "Memórias do Fogo", organizado pelo [ensaísta uruguaio] Eduardo Galeano. Isso foi uma inspiração", diz ele, em sua casa-ateliê em Olinda, a poucos passos do Mosteiro de São Bento, de onde saiu o altar para a mostra "Brasil, Body & Soul", no Guggenheim de Nova York (2001). Os estudos para "A Caça" fazem um diálogo com desenhos do artista dos anos 50, quando Samico viveu em São Paulo e no Rio. "Em 1998, tive uma grande mostra no Rio, com as gravuras. Quis levar algo novo para a Pinacoteca." Foi em 1957 que Samico deixou seu posto de funcionário público em Recife, com uma carta do amigo e multiartista Aloisio Magalhães (1927-82), indicando-o para o gravador Lívio Abramo (1903-92), que vivia em São Paulo. Ganhou de Abramo uma bolsa de estudos. "Ele foi um mestre e um amigo", relembra-se Samico. Depois de alguns meses, o artista ruma ao Rio, em busca de emprego. Lá, chega com nova carta, dessa vez de Abramo para Oswaldo Goeldi (1895-1961), que dava aulas na Escola Nacional de Belas Artes. Samico ganha nova bolsa de estudos, mas abandona o curso para trabalhar em dupla jornada: como desenhista num escritório de arquitetura e em outro de comunicação visual. Aos 30 anos, Samico já havia estudado com os dois mais importantes gravadores vivos no país, Goeldi e Abramo, mas não estava satisfeito com sua obra. "Eu achava muito noturna, muito européia", conta. Numa das viagens de férias em Recife, ele se encontra com o escritor Ariano Suassuna. "Foi dele a sugestão para observar a literatura de cordel, mas eu não sabia por onde começar, já conhecia gravadores populares e não queria imitá-los. Li os folhetos e vi que, no texto sim, havia inspiração, em como eles extrapolam o mundo real, foram as narrativas que me interessaram", diz Samico, em sua cozinha de azulejos azuis, desenhados por ele mesmo. Com "O Boi Feiticeiro e o Cavalo Misterioso" (63), o artista passou a usar narrativas populares como inspiração. Samico encontrava uma fonte de idéias, mas formalmente continuava insatisfeito. Veio então seu eureca: "Observei as capas dos folhetos de cordel, com estruturas rígidas, e abstraí as imagens me utilizando das organizações gráficas". "Suzana" (66) é a obra que marca essa mudança. Finalmente, em 69, na Europa, graças ao prêmio recebido no Salão Nacional, a obra de Samico chega ao formato atual. "Buscava papéis de grande dimensão, e os encontrei em Genebra. Comprei os 20 que havia lá e, desde então, as gravuras têm esse formato." Após a Europa, Samico, que produzia dezenas de gravuras por ano, passa a realizar apenas uma, com tiragem de 120 cópias, a partir de dezenas de estudos. "Eu não posso errar, é uma gravura que me tortura", justifica. Com tal método, Samico se tornou um dos artistas mais importantes dos últimos cem anos, segundo Ivo Mesquita, no catálogo da mostra. O jornalista Fabio Cypriano viajou a convite da produção da exposição SAMICO, DO DESENHO À GRAVURA. (© Folha de S. Paulo) Beleza se impõe ao rigor de Samico
Pinacoteca do Estado de São Paulo reúne 204 obras na maior exposição
feita sobre o artista plástico pernambucano, revelando os desenhos que
originam suas gravuras Para convencer Gilvan Samico a sair das redondezas da casa 55 na Rua do São Bento, Cidade Alta de Olinda, é preciso algo mais que um forte argumento. Para persuadi-lo então a sair do Estado, é necessário um grande fenômeno artístico que, neste caso, só pode estar corporificado nele mesmo. Ontem, depois de oito anos sem pisar na capital paulistana, o artista plástico embarcou para São Paulo a convite da curadoria de uma mostra que é aberta hoje ao público: Samico, do Desenho à Gravura, na Pinacoteca do Estado de São Paulo. É a maior exposição de seu trabalho já realizada na capital paulista, com gravuras, desenhos do início da carreira, estudos e matrizes de xilogravura. “Eu cheguei a falar que era difícil sair de casa, ainda mais para tão longe. Mas eu não podia fazer uma desfeita dessas, né?”, explica. Foi assim, sem ter como se desculpar, que Samico se rendeu à magnitude da própria obra. A idéia da mostra, que tem a curadoria do escritor pernambucano Ronaldo Correia de Brito, surgiu depois que o mesmo curador havia organizado, também em São Paulo, uma grande exposição sobre a artista plástica Guita Charifker que, assim como Samico, vive nas vizinhanças da Cidade Alta de Olinda. A seleção de trabalhos para a exposição foi feita a partir de uma abordagem afetiva entre o autor e sua obra. Ao lado de muitas das gravuras em exposição, estarão os desenhos e ensaios feitos para as mesmas gravuras. Certamente, a exposição traz a maior quantidade de trabalhos do artista em seu processo de criação. Sendo esse artista Samico, há, de fato, muito para se mostrar. “Demoro muito tempo desenhando e redesenhando as imagens, tem desenho que eu já fiz há meses e toda vez que olho pra ele dá vontade de mudar alguma coisa”, diz ele. É, portanto, desse tempo que a mostra Do Desenho à Gravura se apropria, se servindo de muitos. Sem contar seus trabalhos em pintura e no que se refere às obras mais conhecidas do artista pernambucano, ou seja, a gravura em madeira, a mostra de fato é maior já realizada sobre Samico. Ao todo, são 204 obras espalhadas pelas modernas instalações da Pinacoteca do Estado. Samico, do Desenho à Gravura é centrada nas xilogravuras e tem como atração maior duas gravuras feitas pelo artista no ano passado, todas elas como sempre focadas no lirismo armorial e nas lendas populares, ora lidas ora inventadas pelo gravador, que diz já não mais buscar seus personagens na literatura de cordel. Muitos dos trabalhos estiveram presentes também na exposição promovida em 1997 pelo Centro Cultural Banco do Brasil, a mesma que, um ano depois, chegou ao Museu de Arte Moderna Aloísio Magalhães (Mamam), no Recife. Aliás, sobre a perspectiva de trazer esta nova exposição para a capital pernambucana, o artista é bastante cauteloso: “Chegaram a falar nisso, mas ainda não aprovei nada. Será uma nova conversa”, diz. Em São Paulo, as gravuras de Samico ficam em cartaz até o dia 3 de outubro. Quando perguntado sobre qual seria o local ideal para abrigar a mesma mostra no Recife, o artista admite: “Gostaria que fosse em algum museu, mas confesso que conheço pouco desses novos lugares de exposição da cidade”. (© JC Online) Artista cria em ritmo devagar quase parando em seu ateliê Entre o Mosteiro de São Bento e a Prefeitura da Cidade de Olinda, Samico tenta reverter a ordem, para ele desnatural, das coisas. Do alto do terceiro andar de um dos casarões da área tombada da cidade, vive e trabalha no ritmo que ele mesmo define como “devagar quase parando”. Nem sempre é fácil: “Não aguento mais o barulho dos ensaios de maracatu no Mercado Eufrásio Barbosa, o som chega todo aqui em casa e eu não durmo”, queixa-se. A reclamação vem de alguém que ainda preserva certo sentido de desurbanização do homem, vivendo das histórias que não precisam ser 100% assimiladas, mas necessitam ser 101% recriadas. Pois, apesar de admitir não mais buscar na literatura de cordel sua única fonte inspiradora, Samico tem ciência que é da cultura e das lendas populares que surgem seus curtos e grandes contos gráficos. “Muita coisa eu invento, ou crio na hora mesmo de desenhar”, diz. No entanto, quando se fala em escrever histórias distantes da tela ou gravura, ele brinca: “Mal consigo escrever um telegrama.” Atualmente, de cada matriz em madeira, ele produz uma média de 120 gravuras. Localizado entre dois pontos turísticos de Olinda, a casa do artista é muitas vezes visitada por turistas, compradores e outros artistas plásticos. Aliás, quase todo o trabalho de Samico só pode ser adquirido em seu próprio ateliê. “Já faz um tempo que deixei de ter vínculo com qualquer galeria. Evidentemente, se um marchand me procura para comprar algo, eu vendo, mas com algumas condições”, explica. (© JC Online)
Exposição dimensiona obra de Samico
Pinacoteca de São Paulo abre hoje mostra do artista ressaltando caráter contemporâneo de sua produção artística Júlio Cavani Começa hoje a maior exposição já
realizada em São Paulo dedicada à obra do artista plástico pernambucano
Gilvan Samico. Do Desenho à Gravura, com curadoria do escritor Ronaldo
Correia de Brito, traça um recorte panorâmico da obra do gravurista,
apresentando na Pinacoteca do Estado 204 peças, incluindo gravuras,
pinturas, esboços, matrizes de madeira e desenhos. A intenção não é apenas
contar sua trajetória artística, mas revelar novas nuances e contribuir para
uma reavaliação de sua produção. (© Pernambuco.com)
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