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Artista do mundo, Gilvan Samico sai à "caça" em SP

07/08/2004

Obras de Gilvan Samico, em exposição de 1995 em SP

Pernambucano expõe trabalhos na Pinacoteca do Estado

FABIO CYPRIANO
ENVIADO ESPECIAL A OLINDA

   Diz uma lenda esquimó, sobre a história de um famoso caçador de renas, que um dia foi abordado por uma ave de rapina: "Se você não parar de matar, eu vou acabar com você, a não ser que você dê uma grande festa". A partir dessa temática, Gilvan Samico, 76, realizou sua mais recente gravura, "A Caça", peça central da mostra que a Pinacoteca inaugura hoje. Além da própria gravura, cerca de 30 estudos, dos 50 realizados, estarão expostos em São Paulo.

   Pois é, Samico não se inspira apenas na temática brasileira. "Li a lenda em "Memórias do Fogo", organizado pelo [ensaísta uruguaio] Eduardo Galeano. Isso foi uma inspiração", diz ele, em sua casa-ateliê em Olinda, a poucos passos do Mosteiro de São Bento, de onde saiu o altar para a mostra "Brasil, Body & Soul", no Guggenheim de Nova York (2001).

   Os estudos para "A Caça" fazem um diálogo com desenhos do artista dos anos 50, quando Samico viveu em São Paulo e no Rio. "Em 1998, tive uma grande mostra no Rio, com as gravuras. Quis levar algo novo para a Pinacoteca."

   Foi em 1957 que Samico deixou seu posto de funcionário público em Recife, com uma carta do amigo e multiartista Aloisio Magalhães (1927-82), indicando-o para o gravador Lívio Abramo (1903-92), que vivia em São Paulo. Ganhou de Abramo uma bolsa de estudos. "Ele foi um mestre e um amigo", relembra-se Samico.

   Depois de alguns meses, o artista ruma ao Rio, em busca de emprego. Lá, chega com nova carta, dessa vez de Abramo para Oswaldo Goeldi (1895-1961), que dava aulas na Escola Nacional de Belas Artes. Samico ganha nova bolsa de estudos, mas abandona o curso para trabalhar em dupla jornada: como desenhista num escritório de arquitetura e em outro de comunicação visual.

   Aos 30 anos, Samico já havia estudado com os dois mais importantes gravadores vivos no país, Goeldi e Abramo, mas não estava satisfeito com sua obra. "Eu achava muito noturna, muito européia", conta. Numa das viagens de férias em Recife, ele se encontra com o escritor Ariano Suassuna.

   "Foi dele a sugestão para observar a literatura de cordel, mas eu não sabia por onde começar, já conhecia gravadores populares e não queria imitá-los. Li os folhetos e vi que, no texto sim, havia inspiração, em como eles extrapolam o mundo real, foram as narrativas que me interessaram", diz Samico, em sua cozinha de azulejos azuis, desenhados por ele mesmo. Com "O Boi Feiticeiro e o Cavalo Misterioso" (63), o artista passou a usar narrativas populares como inspiração.

   Samico encontrava uma fonte de idéias, mas formalmente continuava insatisfeito. Veio então seu eureca: "Observei as capas dos folhetos de cordel, com estruturas rígidas, e abstraí as imagens me utilizando das organizações gráficas". "Suzana" (66) é a obra que marca essa mudança.

   Finalmente, em 69, na Europa, graças ao prêmio recebido no Salão Nacional, a obra de Samico chega ao formato atual. "Buscava papéis de grande dimensão, e os encontrei em Genebra. Comprei os 20 que havia lá e, desde então, as gravuras têm esse formato."

   Após a Europa, Samico, que produzia dezenas de gravuras por ano, passa a realizar apenas uma, com tiragem de 120 cópias, a partir de dezenas de estudos. "Eu não posso errar, é uma gravura que me tortura", justifica. Com tal método, Samico se tornou um dos artistas mais importantes dos últimos cem anos, segundo Ivo Mesquita, no catálogo da mostra.

O jornalista Fabio Cypriano viajou a convite da produção da exposição

SAMICO, DO DESENHO À GRAVURA.
Curadoria: Ronaldo de Brito. Onde: Pinacoteca (pça. da Luz, 2, SP, tel. 0/xx/ 11/3229-9844). Quando: abertura hoje, às 11h; de ter. a dom., das 10h às 17h30; até 3/10. Quanto: R$ 4 (grátis aos sáb.).

Folha de S. Paulo)


Beleza se impõe ao rigor de Samico

Pinacoteca do Estado de São Paulo reúne 204 obras na maior exposição feita sobre o artista plástico pernambucano, revelando os desenhos que originam suas gravuras

CAROL ALMEIDA

   Para convencer Gilvan Samico a sair das redondezas da casa 55 na Rua do São Bento, Cidade Alta de Olinda, é preciso algo mais que um forte argumento. Para persuadi-lo então a sair do Estado, é necessário um grande fenômeno artístico que, neste caso, só pode estar corporificado nele mesmo. Ontem, depois de oito anos sem pisar na capital paulistana, o artista plástico embarcou para São Paulo a convite da curadoria de uma mostra que é aberta hoje ao público: Samico, do Desenho à Gravura, na Pinacoteca do Estado de São Paulo. É a maior exposição de seu trabalho já realizada na capital paulista, com gravuras, desenhos do início da carreira, estudos e matrizes de xilogravura. “Eu cheguei a falar que era difícil sair de casa, ainda mais para tão longe. Mas eu não podia fazer uma desfeita dessas, né?”, explica.

   Foi assim, sem ter como se desculpar, que Samico se rendeu à magnitude da própria obra. A idéia da mostra, que tem a curadoria do escritor pernambucano Ronaldo Correia de Brito, surgiu depois que o mesmo curador havia organizado, também em São Paulo, uma grande exposição sobre a artista plástica Guita Charifker que, assim como Samico, vive nas vizinhanças da Cidade Alta de Olinda.

   A seleção de trabalhos para a exposição foi feita a partir de uma abordagem afetiva entre o autor e sua obra. Ao lado de muitas das gravuras em exposição, estarão os desenhos e ensaios feitos para as mesmas gravuras. Certamente, a exposição traz a maior quantidade de trabalhos do artista em seu processo de criação. Sendo esse artista Samico, há, de fato, muito para se mostrar. “Demoro muito tempo desenhando e redesenhando as imagens, tem desenho que eu já fiz há meses e toda vez que olho pra ele dá vontade de mudar alguma coisa”, diz ele. É, portanto, desse tempo que a mostra Do Desenho à Gravura se apropria, se servindo de muitos.

   Sem contar seus trabalhos em pintura e no que se refere às obras mais conhecidas do artista pernambucano, ou seja, a gravura em madeira, a mostra de fato é maior já realizada sobre Samico. Ao todo, são 204 obras espalhadas pelas modernas instalações da Pinacoteca do Estado.

   Samico, do Desenho à Gravura é centrada nas xilogravuras e tem como atração maior duas gravuras feitas pelo artista no ano passado, todas elas como sempre focadas no lirismo armorial e nas lendas populares, ora lidas ora inventadas pelo gravador, que diz já não mais buscar seus personagens na literatura de cordel.

   Muitos dos trabalhos estiveram presentes também na exposição promovida em 1997 pelo Centro Cultural Banco do Brasil, a mesma que, um ano depois, chegou ao Museu de Arte Moderna Aloísio Magalhães (Mamam), no Recife. Aliás, sobre a perspectiva de trazer esta nova exposição para a capital pernambucana, o artista é bastante cauteloso: “Chegaram a falar nisso, mas ainda não aprovei nada. Será uma nova conversa”, diz.

   Em São Paulo, as gravuras de Samico ficam em cartaz até o dia 3 de outubro. Quando perguntado sobre qual seria o local ideal para abrigar a mesma mostra no Recife, o artista admite: “Gostaria que fosse em algum museu, mas confesso que conheço pouco desses novos lugares de exposição da cidade”.

JC Online)


Artista cria em ritmo devagar quase parando em seu ateliê

   Entre o Mosteiro de São Bento e a Prefeitura da Cidade de Olinda, Samico tenta reverter a ordem, para ele desnatural, das coisas. Do alto do terceiro andar de um dos casarões da área tombada da cidade, vive e trabalha no ritmo que ele mesmo define como “devagar quase parando”. Nem sempre é fácil: “Não aguento mais o barulho dos ensaios de maracatu no Mercado Eufrásio Barbosa, o som chega todo aqui em casa e eu não durmo”, queixa-se.

   A reclamação vem de alguém que ainda preserva certo sentido de desurbanização do homem, vivendo das histórias que não precisam ser 100% assimiladas, mas necessitam ser 101% recriadas. Pois, apesar de admitir não mais buscar na literatura de cordel sua única fonte inspiradora, Samico tem ciência que é da cultura e das lendas populares que surgem seus curtos e grandes contos gráficos. “Muita coisa eu invento, ou crio na hora mesmo de desenhar”, diz. No entanto, quando se fala em escrever histórias distantes da tela ou gravura, ele brinca: “Mal consigo escrever um telegrama.”

   Atualmente, de cada matriz em madeira, ele produz uma média de 120 gravuras. Localizado entre dois pontos turísticos de Olinda, a casa do artista é muitas vezes visitada por turistas, compradores e outros artistas plásticos. Aliás, quase todo o trabalho de Samico só pode ser adquirido em seu próprio ateliê. “Já faz um tempo que deixei de ter vínculo com qualquer galeria. Evidentemente, se um marchand me procura para comprar algo, eu vendo, mas com algumas condições”, explica.

JC Online)


Exposição dimensiona obra de Samico

Pinacoteca de São Paulo abre hoje mostra do artista ressaltando caráter contemporâneo de sua produção artística

Júlio Cavani
Da equipe do DIARIO

   Começa hoje a maior exposição já realizada em São Paulo dedicada à obra do artista plástico pernambucano Gilvan Samico. Do Desenho à Gravura, com curadoria do escritor Ronaldo Correia de Brito, traça um recorte panorâmico da obra do gravurista, apresentando na Pinacoteca do Estado 204 peças, incluindo gravuras, pinturas, esboços, matrizes de madeira e desenhos. A intenção não é apenas contar sua trajetória artística, mas revelar novas nuances e contribuir para uma reavaliação de sua produção.

   Quando convidou Samico para levar sua obra a uma nova exposição em São Paulo, a intenção do diretor da Pinacoteca, Marcelo Araújo, era valorizar o caráter contemporâneo do trabalho do artista, que muitas vezes é erroneamente associado a uma arte popular, tradicional ou conservadora. Quando a exposição reúne as diversas fases da formação do artista, a intenção não é apenas narrar sua trajetória, mas fundamentar sua proposta estética, evidenciando as influências que ele recebeu em contatos e intercâmbios feitos no Brasile no exterior.

   Atualmente, com exceções, Samico costuma confeccionar apenas uma obra por ano. A mais nova, que está na exposição, é A Caça e a Espada e o Dragão, que segue o estilo, o formato e as dimensões adotados nos trabalhos que vem fazendo há mais de dez anos. O tempo levado para a produção da obra é fruto da obsessão perfeccionista do gravador, que usa cálculos geométricos e desenvolve inúmeros esboços até encontrar a composição final das cenas que retrata, além de insistir em executar pessoalmente todas as etapas do processo. Na Pinacoteca, estarão expostos os estudos, os materiais e a matriz de madeira especial usada na feitura dessa obra.

   Também vão ser expostos pela primeira vez desenhos inéditos, como uma série produzida em São Paulo no início da carreira, que ainda não anunciava os traços da gravura, e outros que já carregavam consigo a alma de gravador. Segundo Ronaldo Correia de Brito, o quadro Suzana no Banho, de 1966, é o marco inaugural dos fundamentos da gravura que ele pratica até hoje, apesar de obras anteriores anteciparem algo, como Mulher com Luva, de 1959. Para o curador, a economia no uso de cores nessa fase antecipava um marca que ainda permanece, representando uma intenção em não ser entendido como um pintor. Apesar de não ser cronológica ou retrospectiva, a exposição, de acordo com Brito, deixou de fora um " pequeno número de xilogravuras".

   O encontro com as idéias do Movimento Armorial e o contato com Ariano Suassuna, segundo Ronaldo Brito, seria outro ponto fundamental para a definição do estilo definitivo de Samico, que antes integrou o Atelier Coletivo junto com Abelardo da Hora e José Cláudio, entre outros, e já foi aluno de Oswaldo Goeldi e Livio Abramo, conseguindo fugir do estilo desses dois mestres da gravura.

   Ocupando mais espaço, a exposição divide a área da Pinacoteca, principal instituição museológica do Governo de São Paulo, com mais três mostras fotográficas que também começam hoje: A Cidade Ilustrada, de Marcio Scavone, Público, de Tatewaki Nio, e CaleidosCorpos, de Gama Júnior. As quatro ficam em cartaz até 10 de outubro.

Pernambuco.com)

Com relação a este tema, saiba mais (arquivo NordesteWeb)


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