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07/08/2004
Cinqüentenário da morte de Raimundo Jacó põe em procissão centenas de sertanejos pelo interior de Pernambuco Texto: Marcos Bahé São duas e meia da manhã. O vento frio que toma conta da caatinga na madrugada não acanha seu Amaro. Vaqueiro na lida há mais de 30 anos, ele diz ter orgulho de apenas duas coisas nessa vida: o sobrenome Lopes e a disposição para o trabalho. "Tô acostumado a durmi dibaxo desse furmiguero de estrela uma semana intera. Frio num mi faz cara feia, dotô". Banho de caneca, que chuveiro é luxo para essas bandas, seu Amaro veste uma calça jeans surrada e a melhor camisa - que saiu do armário pela última vez na virada do ano. Por cima vem as perneiras, o guarda-peito, o gibão, as luvas e o chapéu. Tudo de couro, como manda a tradição e exige o serviço. O vaqueiro está pronto. Dessa vez, Amaro Lopes não vai recolher o gado do patrão para a contagem, vacina ou banho de carrapaticida. O dia é 25 de julho de 2004 e o vaqueiro segue para a cidade de Serrita, no sertão pernambucano. São 40 quilômetros. Umas boas quatro horas a cavalo até o Sítio Lajes, onde está para começar uma das maiores manifestações da fé sertaneja: a Missa do Vaqueiro. Amaro vai só. Até o ano passado os dois filhos mais velhos seguiam com ele. Mas a mulher Isaura dobrou o marido e mandou os meninos morar no Recife com uma tia. "Chico, o mais velho, até que tinha pinta de vaqueiro bom, mas homem sem estudo num tem serventia.
Aqui, no melhor, eles iam seguir minha sina. Foi bom assim", esforça-se Amaro, parecendo querer convencer a si mesmo. A sina da qual fala o velho vaqueiro é a mesma que mobiliza outras centenas de homens como ele, de rostos rachados pelo sol e marcas de espinho pelo corpo. A cada ano, no terceiro domingo de julho, eles partem em direção ao Sítio Lajes para reforçar a fé e a união entre si. A origem da tradição o próprio Amaro é quem conta: "Esse ano, tá fazendo 50 anos que mataram o vaqueiro Raimundo Jacó, lá onde é feita a missa. O povo conta que Jacó era um vaqueirão macho, arrochado todo. Numa noite de julho de 1954, ele saiu à cata de uma rês que o patrão tinha dado falta. Mas outro peão da fazenda, um tal de Miguel, apostou que catava a bicha antes dele. Os dois partiram pro mato. Jacó chegou primeiro e já tava laçando a rês quando Miguel deu conta da derrota. Então, na covardia, bateu com uma pedra na cabeça de Jacó, que morreu ali mesmo".
Dizem que o cachorro de Raimundo Jacó assistiu ao assassinato e ficou junto ao dono até que achassem o corpo. Depois, acompanhou o velório e ficou deitado ao lado da cova até morrer. O Sítio Lajes, local do homicídio e do enterro, virou ponto de peregrinação, pois vários milagres começaram a ser atribuídos ao vaqueiro morto. Em 1971, o cantor e compositor Luiz Gonzaga (primo de Raimundo Jacó) e o famoso poeta popular Pedro Bandeira organizaram uma missa em homenagem ao vaqueiro, celebrada pelo padre João Câncio - que mais tarde trocaria a batina pelo gibão (espécie de casaco). Gonzaga compõe A Morte do Vaqueiro: "Numa tarde bem tristonha / Gado muge sem parar / Lamentando seu vaqueiro / Que não vem mais aboiar / Não vem mais aboiar / Tão valente a cantar..." Nascia a Missa do Vaqueiro.
Como faz há 22 anos, Amaro Lopes chegou a Serrita por volta das sete da manhã. Postou-se de frente ao altar, junto com os companheiros e tirou chapéu em sinal de respeito. Antes da celebração, um a um os vaqueiros se aproximam e oferecem alguma peça de sua indumentária como oferenda. Arreios, selas, guarda-peitos, perneiras e gibãos vão sendo depositados. Amaro entrega seu rebenque (chicote). Vem a pregação e os vaqueiros entoam aboios. Ao final, a comunhão. Nada de hóstia de trigo. Farinha de mandioca, rapadura e queijo representam o corpo de Jesus. A bênção do padre e os vaqueiros partem com a sensação de dever cumprido. Amaro vai junto. (© Globo Rural)
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