Gilberto Freyre, na monumental obra
Sobrados e Mucambos, foi dos primeiros a anotar um gosto “brasileiro”
para cores. Gosto de um povo que vive num país tropical. Cores do Brasil.
Como as cores de Aldemir Martins. Ele nos recebeu em seu ateliê, no bairro
do Sumaré, na capital paulista, para um Papo-Cabeça, mas suas cores falaram,
e falam, mais alto.
Aldemir não tem vergonha do verde e amarelo da bandeira
nacional. A arte contemporânea do Brasil está cheia de pintores que falam
muito sobre a luz, sobre a cor local, mas pintam como se estivessem em
Londres, Paris e Tóquio, escreveu o crítico de arte Carlos von Schmidt
na introdução de Aldemir Martins – Um Pintor do Brasil. Schmidt foi
curador da exposição de mesmo nome, que reuniu 72 trabalhos do artista em
2002, quando completou 80 anos. Mas, por que um pintor “do Brasil”, e não um
pintor “brasileiro”? Resposta de Schmidt:
Evitei o adjetivo brasileiro. Neste caso não significa, não
tem a amplidão, a força que do Brasil tem. O número de pintores brasileiros
que não pintam o Brasil é incalculável. Aldemir não. Aldemir pinta o Brasil.
Durante nosso encontro, Elifas Andreato comentou que “a mulher
pobre se veste de maneira muito colorida, assim como as africanas: tem a ver
com luminosidade de um país ensolarado, de flora e fauna exuberantes”.
Aldemir completou:
“A cor é a alegria do pobre. Gente rica não tem vestido bonito.”
O ateliê de Aldemir é envidraçado e invadido pela luz natural. Por
toda parte, objetos de arte, cerâmica, tapeçaria, móveis, pinturas,
estatuetas de tudo quanto é bicho, e mil cores. Nossas cores.
Cearense de Ingazeira, Aldemir nasceu em 1922. Autodidata, aos 11
anos chegou a procurar uma professora de pintura, Dona Mundica, que o
aconselhou a deixar de lado a idéia de ser pintor – “você não leva o menor
jeito para isso”. Felizmente ele desobedeceu. Aos 24 anos, chegou ao Rio,
mas logo saiu de lá:
“Tinha muito funcionário público, não queria este emprego. Vim pra
São Paulo. E a primeira pessoa que conheci chamava-se Antonio Candido. Até
hoje temos uma amizade muito sólida.”
Aos 81 anos, realizou cerca de 4 mil trabalhos. A relação de
exposições que montou e de prêmios que ganhou preenche quatro páginas do
livro assinado por Carlos von Schmidt. Este ano, mais uma glória: Aldemir
ganhou a Ordem do Ipiranga. Diz que só sairia de São Paulo ou para Fortaleza
ou Nova York; a primeira por razões afetivas e a segunda porque se acostumou
a morar em metrópole:
“Estou aqui desde 1946. Vivendo de arte. Faço tudo. Só não faço
menino em homem, que eu não sei fazer”, brinca ele.
Nestas páginas, para seu deleite, as cores de Aldemir Martins.
Pintor. Brasileiro. Do Brasil.
ATINGIU SUA ARTE ATRAVÉS DA
FORMAÇÃO DE HOMEM FIEL ÀS SUAS ORIGENS
O menino olha em redor e para ver tem que
cerrar os olhos: eis o homem meio deitado com suas roupas de couro,
vigilante, o rifle de lado. Bem perto, cantiga suave dos bilros: a rendeira
como que só dispõe de movimentos nos dedos céleres de suas mãos mágicas. Uma
estátua. É a mesma postura da vendedora de cestos de infinitos trançados,
nas feiras dos sábados: como se não vendesse, como se rezasse.
Uma exceção no mundo monocrômico e estático: salta, de repente, no
meio da rua, um galo de belas penas coloridas, pára, exibe-se, ausculta e
desaparece. O menino guarda tudo isso na sua alma e no seu coração e nunca
mais esquecerá.
Quando homem feito quis situar-se, tomar seu lugar na roda da vida,
e eis que ressurge o menino e toma a mão adulta, que faz correr fácil sobre
o branco de uma folha de papel o traço firme e decidido, desde o primeiro
instante revive para sempre o seu mundo, o mundo áspero, imóvel, silencioso
e dramático de sua infância. Na parte superior do papel, surge o sol de
Ingazeiras.
Daquele momento em diante, o Brasil tinha ganho um dos seus grandes artistas
nacionais, um dos seus poucos artistas nacionais, não porque invoque motivos
da terra, mas porque atingiu sua arte através da poderosa formação de homem
e de artista fiel às suas origens e profundamente identificado com o seu
métier, duro e fascinante métier do desenho, que ele trabalha,
castiga, realiza, numa bela conquista de todos os dias.
Odorico Tavares, jornalista
(condensado de texto de 1963)
SEU CORAÇÃO DE GRANDE ARTISTA
PULSA E VIBRA AO RITMO DO BRASIL
Ante a fascinante beleza de seus desenhos,
dei-me conta perfeita de sua marca fundamental, a lhe dar tanta capacidade
de comunicação: é que esse desenho de Aldemir é brasileiro, possui
inconfundível caráter nacional. É claro que o grande desenhista, mestre de
seu ofício, existe mais além de qualquer limite de mapa ou de forma. Mas
Aldemir, sendo mestre reconhecido e indiscutível em sua arte, é ao mesmo
tempo homem de seu povo, carne e sangue de seu povo. E esse fato soma nova
grandeza à sua criação.
Aldemir, cearense de sangue misturado, sente como poucos cada
detalhe do Brasil, da natureza, da paisagem física, das coisas e do homem.
Nada do que se passa em qualquer setor da pátria lhe é indiferente: seja na
vida política e cultural, seja no que se refere aos animais no esconso de
Mato Grosso, caça grossa ou fina, ou aos sofridos preparativos para o
tricampeonato de futebol.
Esse homem de riso franco e coração aberto, esse que vive com
coragem e com entusiasmo, esse ser generoso e lúcido, é um brasileiro de
todos os detalhes e de cada instante do Brasil. Sua arte poderosa – essa
criação que é nossa riqueza – nasce e se alimenta do Brasil.
Na floresta ou no estádio, junto ao arranha-céu ou à beira do rio
nordestino, na seca ou na enchente, na Ladeira do Pelourinho ou no trânsito
de São Paulo, atento à vida, seu coração de grande artista pulsa e vibra ao
ritmo do Brasil. Aldemir Martins, mestre de Brasil.
Jorge Amado, escritor (condensado de texto de 1970)
(©
Almanaque Brasil)