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08/08/2004
Artista baiano da primeira metade do século XX assinou com as cores da pintura seu nome na história da arte do Brasil
Luciana
Barreto
(© Correio da Bahia) A cor do silêncio Indescritíveis cenas monásticas criadas por Presciliano colorem tetos e paredes das igrejas de Salvador
O auto-retrato revela um pouco do traço marcante do exímio desenhista Pelas frestas das portas e janelas pesadas, os raios de luz invadem o interior da igreja de uma forma sutil e educada. Por causa da luminosidade rala, uma parte da sala continua escura, mas brilham os detalhes dourados dos altares barrocos. Os homens da cena são pequeninos ante à atmosfera mística; sentados nos bancos ou caminhando pela área, ora há um religioso contemplando horizontes, ora há um velho mendigo, que espera que, pelo menos junto às portas da casa de Deus, bata um sentimento de caridade dentro dos corações dos homens. Às vezes, não há absolutamente ninguém naqueles interiores e sacristias. Apenas um silêncio maciço; Presciliano, escondido atrás dos cavaletes; e nas telas, as imagens imóveis dos santos. E os santos só podem ser vistos de forma nítida quando o observador se afasta do quadro, por uma mistura de respeito ao sagrado e milagre de tintas. Embora seja clichê, não dá para evitar: é mesmo inútil tentar descrever, com palavras, as cenas monásticas pintadas por Presciliano Silva. Aqui, não se fala com a seca linguagem crítica, mas com o devaneio de sensações que uma obra de arte desperta. É preciso ver de perto aquelas pinturas de interiores, sentir o resquício do cheiro de tinta óleo, afastar-se da tela, para só então entender que suas imagens de igrejas, mosteiros, conventos e sacristias são a metáfora mais perfeita para a clausura melancólica da alma humana. Com seus ouvidos surdos, Presciliano foi capaz de transformar em cor todas as notas de silêncio que ecoavam de harpas metafísicas. Que bela ironia: o menino travesso que tanto irritou os frades com suas endiabradas caricaturas feitas à carvão mais tarde pintaria todo o mistério presente nos ambientes monásticos da Bahia. Foi na pintura desses interiores que Presciliano encontrou a essência de sua arte, e avançou em relação aos outros pintores baianos da época. Através da observação de espaços sacros, surgiram telas belíssimas, pintadas com o olhar pós-impressionista, como Altar do Santíssimo, Genuflexório (1928), Abstração (1939), Interior (1943), Entrada do Claustro de São Francisco (1927), Capela do Santíssimo Sacramento da Antiga Sé, dentre muitas outras. "Na pintura de interiores, seu trabalho se destaca muito. É importante observar como Presciliano trabalha bem com o claro-escuro nessas obras", explica Sylvia Athaide. Católico e freqüentador de missas, Presciliano mostrou, pela primeira vez, um interior sacro em sua tela Oração da tarde, inspirada numa cena do Convento de Nossa Senhora do Carmo da Bahia. "Com esta tela de profunda reflexão da tragédia do ser e de sua fuga mística, Presciliano abre um novo capítulo desconhecido na pintura brasileira, e, nem saberíamos responder a qual outra se compara no mundo", diz o crítico Clarival do Prado Valladares, no livro Presciliano Silva. A partir de Oração da tarde, a temática religiosa se tornaria constante, com curiosa repetição de duas figuras humanas em várias de suas telas: um velho e um frade. Valladares tentou interpretar o porquê da repetição: "O frade seria o ego refletindo, equipado de razões lógicas para aceitar a surdez, pois com a vista ainda alcança através das vidraças, a paisagem, o dia de sol, como ele vê em Abstração. O velho seria o ego desesperançado, aceitando o conselho do frade, ou a esmola da atenção, ou sozinho, como em Última porta, com o guarda-chuva e o chapéu sentados no mesmo banco. Quando Presciliano disse, numa entrevista, que não se incomodava com a surdez, porque lhe ajudava a se concentrar melhor para a pintura, gracejando, ele apontava sua vereda de fuga". A surdez de Presciliano foi mesmo um mistério. Não há como saber, bem ao certo, como e quanto ela pode ter interferido na sua pintura. O fato é que, passado o susto na França, o artista sempre lidou muito bem com a deficiência. "Dizia que preferia ser surdo a ouvir certas besteiras", lembra Maria de Nazareth Seixas, que conheceu Presciliano. Mesmo quando começou a usar aparelho auditivo, ele o desligava em homenagens e discursos longos, e nos momentos mais propícios. "Discretamente, colocava a mão no bolso e apertava o botãozinho do aparelho, quando estava enfadado da conversa", diz Optaciano Oliveira Filho, seu amigo. Traquinagens Talvez por conta da surdez, ou por conta do seu jeito tranqüilo, Presciliano não fazia questão de se isolar do mundo quando pintava. Ele não sentia aquela necessidade de silêncio sepulcral, de concentração atormentada, como costuma acontecer no processo de criação de tantos artistas. "Muitas vezes, entrávamos no ateliê para dançar. Ele se divertia muito com isso", lembra Mercedes Cunha. "Brincávamos de picula na parte mais alta da casa", lembra a filha Maria. Por conta do corre-corre, Presciliano só ouvia os passinhos de criança no andar de cima, e assistia à chuva de pó caindo do teto do ateliê. "Ele não brigava. Só ficava preocupado com as nossas traquinagens". Preocupar-se, ele até se preocupava. Mas era a esposa Alice Moniz quem de fato mandava na casa. Alice era filha de Gonçalo Moniz, professor da Faculdade de Medicina. Eles se casaram em 1934, depois de um namoro de vizinhança. "Cada um ficava na janela de sua casa, tentando falar por gestos, lá na Rua do Bângala", lembra a simpática senhora Maria José Góes Couto, que, àquela época, era uma menina. Depois de se casar, Presciliano e Alice tiveram Maria, a única filha. A família era sustentada com o orçamento das aulas de desenho na Escola Técnica e na Escola de Belas Artes, onde começou a ensinar em 1928. Também ganhava algum dinheiro com encomendas e vendas de quadros. E sua arte surgia sem maiores mistérios, misturada com as confusões do dia-a-dia. Apesar da aparente simplicidade com que Presciliano lidava com a pintura, as etapas de criação eram realizadas com uma técnica bem cuidadosa. Primeiro, ele entrava no ateliê, com suas roupas leves e alpercatas franciscanas. Pegava a tela de linho, e esticava no cavalete. Depois, passava uma camada de gesso e cola no pano, para que a superfície se tornasse adequada para a pintura. Muitas vezes, antes de pintar na tela, Presciliano fazia vários estudos e rascunhos em papéis à parte. E quadriculava o desenho, para que, na hora de redesenhar no quadro central, as proporções fossem obedecidas. E, enfim, desenhava com carvão na tela. Quando errava, apagava com miolo de pão não dormido. Depois, vinha o spray fixador, que ficava por uns dois dias no quadro. Somente quando o spray secava, surgiam as camadas de pintura. Depois, mais fixador, e só por fim vinha o verniz. Pronto, estava terminado. Não havia uma mancha sequer de tinta nas mãos nem nos dedos de Presciliano. E, na tela, não ficava mais nenhum sinal do primeiro desenho. Mas ele sempre estava lá. Escondidos embaixo de toda pintura, havia os desenhos em carvão, a alma de todo o quadro, feita do mesmo traço escuro com que Presciliano tanto riscara calçadas. (© Correio da Bahia) Apagando as tintas Escola na Ribeira é um dos poucos registros da trajetória do pintor
Vazio e melancólico, o ateliê mostra o quanto a memória foi apagada *Foto: Paulo Macedo A escola está completamente vazia. Não há um único estudante dentro das salas de aula. Nos quadros negros, não há nenhum inocente desenho em giz, quanto mais a solução de alguma difícil equação matemática. Em todo o espaço do colégio, povoa um silêncio muito mais triste do que aquele que o nosso artista ouviu dentro das sacristias. É greve na Escola Estadual Presciliano Silva. Quando não há greve, aquela escola situada no bairro da Ribeira abriga cerca de dois mil alunos entre a 5ª e 8ª série. Em sua maioria, são crianças e jovens carentes, que muito possivelmente desconhecem quem foi o pintor que batiza a instituição. Afinal, na escola, há apenas um livro - já velho - sobre a vida do artista. Os maiores sinais de esperança - e de homenagem involuntária ao pintor - são as pinturas estampadas nos muros internos do colégio. Lá, estão o Farol da Barra, o Elevador Lacerda, um pôr-do-sol, algumas árvores, dentre tantos outros desenhos infantis. Quem sabe, um dia, aquelas tintas tão ingênuas também revelem grandes artistas; quem sabe, dos muros de concreto, surjam novos Prescilianos Silvas. Além de uma escola nascida em 1969 e batizada com o nome do pintor, em Salvador, existem alguns outros sinais de memória. Como lembrança da pintura decorativa de Presciliano, há o teto da Academia de Letras da Bahia, em Nazaré, e o teto do Palácio da Aclamação, no Canela. No Instituto Geográfico e Histórico da Bahia, pode-se ver a tela do Retrato de Ana Nery(1933). O Museu de Arte da Bahia possui, em seu acervo, três desenhos e 13 quadros de Presciliano, dentre os quais estão Paisagem do Dique, Capela do Santíssimo Sacramento da Sé e Ancoradouro de Concarneau. Para homenagear os 120 anos de nascimento do pintor - Presciliano nascera em 17 de maio de 1883 - o Serviço Educativo do Museu Carlos Costa Pinto realizou, de maio a julho do ano passado, uma abordagem de sua vida e obra. Neste museu, há 11 telas e 7 desenhos, dentre os quais estão alguns esboços e estudos da tela Entrada do Exército Libertador, que retrata a independência da Bahia. Entrada do Exército Libertador é o exemplar mais relevante da pintura histórica de Presciliano, e pertence à Câmara Municipal. Como fica na sala da presidência, o público não tem acesso à tela, que é uma das mais importantes do artista. Muitas outras obras do pintor estão em coleções particulares. No mercado da arte, Presciliano continua sendo um pintor valorizado, e, em leilões, seus quadros podem custar de R$9,6 mil a mais de R$130 mil. Algumas telas e desenhos ainda pertencem à família do artista. Mas essa coleção foi desfalcada em 1983, por conta de um fatídico assalto, no qual três homens armados levaram dois quadros. E no andar de cima da casa do Boulevard Suíço, onde vive Maria, a filha de Presciliano, o ateliê está vazio, tão triste. Nele, sente-se a ausência de um pequeno memorial. Após sua morte em 1965, as tintas de memória do pintor baiano estão se apagando. Cores de felicidade Junto com sua esposa, filha e netos, Presciliano foi um homem feliz até os últimos anos de vida. Na velhice, ele continuava um amante dos animais. Quando batia a colher no prato, os vários gatos da casa já sabiam: era hora de brincar. E vinham todos correndo em direção a Presciliano. "A casa tinha de tudo. Gato, cachorro, até macaco", lembra Maria. Quando os três netos nasceram - a quem o artista chamava de "Barão" e "Baronesas" - sua pintura ganhou cores mais alegres. Deve ter sido o estado de espírito. Os meninos brincavam com o avô, assanhavam toda a sua cabeleira alva, prendendo vários grampos. Ele, tão desligado, desfilava alheio ao penteado. Numa outra travessura, um belo dia, seus netos riscaram absolutamente todas as paredes da casa. "Ele adorou. Não queria pintar a casa", diz Maria. Presciliano tanto insistiu, que manteve, na parede, o desenho que havia achado mais bonito. Também velhinho, Presciliano continuou ensinando na Escola de Belas Artes. Dono de uma técnica inquestionável, foi um dos responsáveis pela base dos artistas modernos baianos, embora não adotasse essa forma de arte. Na sala de aula, sentava junto ao cavalete de cada aluno e, com os pincéis e carvão, ia corrigindo os quadros. "Remendava mesmo. Quando os alunos viam, já era uma tela completamente diferente", lembra Juarez Paraíso. Até que chegou o dia. Aos 82 anos e com um câncer de pulmão, Presciliano estava mais uma vez - e pela última vez - diante do retrato da mãe. Deu seus retoques de sempre, saiu do ateliê. Tivesse tido mais tempo, possivelmente ainda mexeria na tela. Nunca conseguiu transportar para o quadro toda a perfeição que o semblante de sua mãe lhe transmitia. O câncer de pulmão acabou obrigando-o a ir para o Rio de Janeiro, para tentar se curar. Mas a viagem não teve volta. Em 7 de agosto de 1965, Presciliano foi-se embora desse mundo. Para além de suas obras, deixou olhos emocionados em sua filha Maria. E, para sempre, brilharão de orgulho as pupilas em tinta óleo no retrato de dona Clotilde. (© Correio da Bahia) Esboço de artista Primeiros traços surgiram na tenra idade quando o menino descobriu a vocação para copiar
"Entrada do Exército Libertador" é o exemplar mais relevante da pintura histórica de Presciliano, e pertence à Câmara Municipal *Foto: Reproduções do livro "Presciliano Silva" Nada de tintas, telas ou cavaletes. Tudo isso seria muito caro para um molecote que ainda aprendia as primeiras letras. Naquela época, o jeito mesmo era roubar um pedaço de carvão do forno da casa, e desenhar sujando os dedos. O menino passava horas ajoelhado ou sentado na calçada, rabiscando, com carvão, o adro cimentado do Convento da Piedade. O passeio público virava museu. Até mesmo os mais apressados paravam para dar uma olhadinha, e aproveitavam para perguntar o nome do garoto tão jeitoso. Mas se um frade resolvesse se aproximar, vendo, nos joelhos sujos de menino, alguma vocação para a prece, a surpresa era ingrata. Os modelos dos desenhos eram justamente os religiosos, que ficavam possessos com as caricaturas irreverentes. A confusão estava armada. Irritadíssimos em ter de pisar nos próprios rostos, retratados com as fortes tintas de verdade que só a caricatura carrega, lá iam os frades fazer queixa com Clotilde Rodrigues da Silva, mãe de Presciliano. Mas as reclamações eram em vão, porque ela acobertava o divertido sacrilégio do filho, lançando a eterna e inquestionável resposta: "A rua é pública". Além dessa defesa explícita, dona Clotilde também tinha muitas outras manifestações de carinho com o menino. Em seu diário, tratava-o por "Perci", dizia que ele era um garoto meigo, e com um enorme talento para o desenho. Tudo bem, é verdade que elogio de mãe nem sempre vale. E que menino travesso sabe, como ninguém, fazer arte. Mas não dá para negar que, com apenas uns 7 anos de idade, Presciliano já esboçava o talento que o acompanharia por toda a vida. As calçadas foram apenas suas primeiras telas e, mais tarde, o giz e a lousa da sala de aula ganhariam uma utilidade bem mais divertida que a elaboração de difíceis equações matemáticas. Quando começou a freqüentar a escola, os modelos de Presciliano passaram a ser seus colegas de classe - e aqueles que não tinham a honra de se ver desenhados logo procuravam o artista mirim, para que fosse suprida ausência tão grave. Nessa época, nem mesmo os livros, cadernos e carteiras escolares escaparam do lápis jeitoso do esboço de artista. Em um discurso de homenagem a Presciliano, editado em 1941, Aloysio de Carvalho Filho rememora como um professor daqueles tempos encarava o menino "Perci" e seu vício pelo desenho. "O velho França parecia se zangar com a sua impertinência, que era quase indisciplina. Mas no íntimo, o grande e austero professor que penetrava fundo na alma infantil, sorria, adivinhando na tua inquietude um amanhecer de arte". Se, em seu íntimo, o "velho França" de fato sorria, isso ninguém nunca vai saber. O fato é que aqueles primeiros desenhos de Presciliano eram breves como os bons momentos de infância; os contornos brancos em giz iam-se embora com o esfregão de uma esponja, e o quadro negro ficava liso como antes, deixando apenas saudade. Mas logo sua arte se tornaria mais sólida. Em casa, o artista encontrou apoio para prosseguir seu aprendizado. Arte sagrada Criado na Rua das Mercês, 162, Presciliano era quarto filho de uma família de sete irmãos. Coincidentemente, um deles era restaurador de santos e dourador de igreja. Mais tarde, quis o destino que, assim como seu irmão, Presciliano também dedicasse o olhar às construções sagradas, tornando-se o maior pintor de sacristias e interiores de igrejas da Bahia. O pai de Presciliano, Possidônio Izidoro da Silva, era dono de um pequeno comércio de calçados, e só podia mesmo ser pé no chão. Por isso, no início, ficou reticente com a escolha do filho pela pintura, já que achava que aquilo não dava dinheiro a ninguém. Mas Clotilde - dona Coló, como era conhecida - tinha alma de artista, e até tocava flauta. Ela incentivou a decisão do menino. Em 1896, quando tinha 13 anos, Presciliano se matriculou na Escola de Belas Artes, e também no Liceu de Artes e Ofícios. Foi assim que ele conheceu o artista Manoel Lopes Rodrigues, à época um pintor renomado na Bahia. Um belo dia, quando já estudava desenho - devia ter seus 16 anos -, Presciliano achou por bem copiar, sem o consentimento, uma tela de seu mestre. Naqueles tempos, tal conduta podia ser vista como um desrespeito, uma falta grave. Mas parece que, além da vocação para a arte, o nosso artista também tinha um inexplicável talento de se dar bem com suas doces malandragens. Quando o mestre Lopes Rodrigues viu a cópia do quadro, se encantou de vez com a habilidade do menino, que acabou se tornando seu pupilo. O relacionamento com o mestre influenciaria profundamente os rumos da arte de Presciliano, já que Manoel Lopes Rodrigues seguia todos os cânones da arte tradicional. Aliás, em toda a Bahia, a situação não era diferente - nem mesmo no Brasil, já que a Semana de Arte Moderna só aconteceria em 1922. Enquanto isso, na Europa, desde cerca de 1870, o impressionismo já deixara de ser vanguarda, e surgiam outros movimentos artísticos. Premiações Paralelo aos cursos da Escola de Belas Artes (EBA) e do Liceu, o nosso artista ainda faria mais caricaturas - que foram publicadas no periódico com o curioso nome de Papão, primeiro jornal de Ernesto Simões Filho. Quando concluiu o curso da EBA, Presciliano concorreu ao Prêmio Caminhoá. O concurso premiava os melhores trabalhos feitos por recém-formados na EBA. A cada ano, uma categoria diferente era contemplada, entre pintura e escultura. Com um trabalho de pintura, Presciliano ganhou o concurso e, por conta da vitória, recebeu uma bolsa para estudar na Academia Julian, em Paris. Ele viajou rumo à França. Em seu trajeto até o continente europeu, primeiro pegou um navio. Em seguida, tomou um trem, e só então desembarcou em Paris. O jovem era um estrangeiro na estação; lá todos falavam em sons que ele não entendia. Sozinho, foi pegar a bagagem. A esteira móvel girava e, sobre ela, giravam muitas malas, de vários modelos. Malas grandes, bonitas, pesadas, bem forradas em couro ou em tecidos caros. Até que, no meio de tantas bagagens suntuosas, caminhava, levada pela esteira, uma malinha bem simples, pequena, toda feita de madeira. Era a mala de Presciliano. Discretamente, ele caminhou até a esteira e pegou sua bagagem. Na malinha, havia espaço para algumas roupas. E, em um cantinho espremido, também havia lugar para os sonhos e esperanças do rapaz baiano de família pobre que via em Paris uma chance de ouro. (© Correio da Bahia) O pequeno selvagem Artista ganhou alcunha dos franceses pela sua cabeleira e origem tropical
A filha, Maria Moniz, lembra da personalidade tranqüila do pai que não ligava para as suas traquinagens *Foto: Paulo Macedo No início, eram sons comuns. Presciliano ouvia o ruído dos sapatos alheios se movimentando pelas calçadas, o entra-e-sai nas estações de trem, os incompreensíveis diálogos em francês. Depois, ele passou a escutar zumbidos estranhos, como se fossem besouros impertinentes que passavam perto dos seus ouvidos e não o deixavam em paz. Em seguida, sons de altos tambores, estampidos, gritos e uivos ecoaram de alguma entranha misteriosa de sua própria cabeça, numa sinfonia de terror em volume máximo. Pronto. Em 1907, Presciliano não ouviu mais nada. Ele tinha apenas 24 anos. A surdez era só o que faltava para borrar os sonhos do jovem pintor. Em Paris, o destino já havia lhe destinado alguns outros aborrecimentos menores, mas mesmo assim, dolorosos. No terreno do amor, Presciliano sofreu por conta de um relacionamento intenso e rápido com uma dançarina do famoso e mítico Moulin Rouge. Na área escolar, a falta de sorte também o perseguiu. Assim que entrou na Academia, ele recebeu, dos colegas e professores, o cruel apelido de Petit Sauvage, que, em português, significa "o pequeno selvagem". Ganhou a alcunha por conta da cabeleira vasta e da sua origem dos trópicos. Não satisfeitos com o apelido que tanto incomodava o jovem pintor baiano, os colegas parisienses também trapacearam um dos seus trabalhos. Uma vez, o professor se aproximou de uma obra de Presciliano e disse, surpreso: "O pequeno selvagem sabe desenhar!". Foi o bastante. Os colegas de sala resolveram boicotá-lo, e pintaram uma vela bem no meio do seu quadro. Sensível - até ingênuo - Presciliano ficou muito triste com o acontecimento, e chegou a chorar. Silêncio e solidão Agora, o destino lhe reservava a surdez. Já não bastava a barreira do idioma? Não bastavam os boicotes dos colegas de classe? Não bastava o cruel apelido de Petit Sauvage? Diante dos primeiros sintomas da perda de audição, o artista consultou o otorrinolaringologista Eduardo de Moraes, que o levou aos melhores especialistas franceses. Mas não houve saída. Presciliano quase desistiu dos estudos e, na solidão de seu silêncio, muitas vezes, pensou em deixar o bairro boêmio de Bois de Boulogne para voltar a Salvador. Mas mesmo com tantos contratempos, e com muita vontade de voltar para o colo dos seus parentes mais queridos, Presciliano se esforçou para terminar o curso, e só em 1908 retornou à sua cidade. Assim que chegou, inaugurou sua primeira exposição, na Sala Nobre da Escola Comercial da Bahia. Os críticos da época reconheceram talento e futuro nas tintas do jovem pintor. Quatro anos mais tarde, ele voltaria à França para complementar seus estudos. Da Academia Julian, Presciliano trouxe uma refinada técnica de desenho e de pintura. Da Academia, também trouxe um minucioso cuidado com os materiais que utilizava em suas telas. Da Academia, trouxe ainda estudos em carvão, e quadros como Costa da Bretanha (1908), Paisagem (1913), Petite Bretonne (1914), dentre muitos outros que ele pintara em Paris ou em pequenas viagens à Bretanha. E, da Academia, Presciliano trouxe a semente de um futuro adjetivo incômodo, que surgiria com os pensadores adeptos da arte moderna: a classificação de "academicista". Junto com Alberto Valença, Manoel Lopes Rodrigues e Mendonça Filho - que eram os grandes pintores baianos da primeira metade do século XX - hoje, Presciliano Silva costuma ser enquadrado como "academicista" por muitos estudiosos. Em arte, o termo está relacionado a uma pintura que, embora tenha qualidade técnica, é tida como pouco criativa e muito presa às regras tradicionais de retratação. Os críticos consideram o academicismo muito vinculado a movimentos neoclássicos e românticos, já superados à época. "Havia excelente técnica, mas não havia criatividade. Os pintores acadêmicos transpunham para a tela o modelo vivo, a natureza morta, a paisagem ou o que já se encontrava diante do cavalete", defende Sante Scaldaferri. No livro Os primórdios da arte moderna na Bahia, Scaldaferri escreve sobre as viagens de estudos dos pintores baianos do início do século XX às academias da Europa, lamentando que "o mais trágico de tudo é que esses artistas saíam daqui, freqüentavam um ambiente semelhante ao da Escola de Belas Artes, e não percebiam nada do que se passava de mais atual no campo da arte. O que mais tentavam absorver era o impressionismo já exaurido e, portanto, fora de qualquer parâmetro de realidade". Luminosidade das cores Concebido um pouco depois de descobertas científicas sobre óptica, o impressionismo no qual Presciliano se inspiraria surgiu em meados do século XIX, para louvar a luminosidade e as cores. Só para se ter uma idéia, o preto não existia nas paletas dos impressionistas, pois eles acreditavam que, pelo fato de ser o preto a ausência de luz, poderia acabar manchando o quadro, e interferir negativamente nas outras cores. Além disso, os impressionistas pensavam na cor como um elemento sobre o qual também participa o olhar do observador. Quando queriam alcançar o verde, por exemplo, não misturavam o azul com o amarelo na paleta. Apenas colocavam, na tela, o azul junto com o amarelo, já que, automaticamente, os olhos do observador misturariam as cores. Mas no início do século XX - período em que o artista viveu em Paris - as tintas de impressionismo já se esvaíam. E floresciam, na Europa e no mundo, novas nuances de arte. Os traços expressionistas de Eduard Munch começavam a inquietar o jovem Picasso. Enquanto isso, na Rússia, as obras de Kandinsky mostravam os primeiros sinais da arte abstrata e, pouco depois, em 1913, era a vez do suprematismo do russo Kasimir Malevich dar novos passos rumo à não-representação. Mesmo estando na Europa, Presciliano não acompanhou essas transformações. Quando ele trouxe à Bahia os traços impressionistas, o movimento já não era de vanguarda. Em meio a todo o turbilhão da arte, o nosso artista gostava de pintar cenas singelas, retratos, marinhas e paisagens. Para José Dirson Argolo, restaurador e professor da Escola de Belas Artes, os ares barrocos da cidade de Salvador podem ter alguma relação com a percepção de arte de Presciliano. "Ele poderia ter trazido uma arte mais ousada. Mas o fato de ter vivido numa cidade como Salvador, onde há um ''espírito barroco'', deve ter contribuído para que ele mantivesse valores conservadores à sua pintura. Porém isso não quer dizer que Presciliano fez uma arte menor". Houve quem achasse que Presciliano fizesse uma arte ultrapassada. Mas é muito fácil - e injusto - julgar o passado com os olhos do presente. Primeiro, é preciso perceber que mesmo que ele copiasse, da França, as novas tendências da arte, também não estaria fazendo nada de original. E, se a boa arte é sempre eterna, não há como falar em atraso. "Ele podia até não ser um revolucionário. Mas tinha um pincel mágico, um desenho de gênio, e uma espontaneidade incrível. Ele não era um simples reprodutor da realidade; era um intérprete", opina Juarez Paraíso. Gramática da pintura Quando perguntado sobre o futuro da pintura, Presciliano não era desses pintores rancorosos. Muito pelo contrário. Acreditava na arte moderna, porque achava que o artista devia pintar de acordo com os seus sentimentos mais íntimos, como ele próprio sempre fez em suas telas. Havia uma coisa, porém, que não dispensava: a qualidade do desenho. Para Presciliano, o desenho era a gramática da pintura. Certa vez, falou: "Esse modernismo, feito pelos que sabem desenhar, fica. O que não fica são as improvisações". E ainda: "Não sou contra a pintura moderna. É uma manifestação da arte, como é a pintura clássica ou outra qualquer. O artista sente e executa de acordo com o seu sentimento. Apenas sou contra as aberrações e exageros que, em nome da verdadeira arte moderna, aparecem por aí como se fossem pintura". Diferentemente do que muitos fizeram com a sua arte, Presciliano respeitou a diversidade. Apesar das ressalvas que alguns estudiosos hoje lhe fazem, ele foi um pintor muito respeitado e admirado pela maior parte dos críticos de sua época. "Todas as famílias queriam ter um Presciliano Silva em casa", lembra Sylvia Athaide, diretora do Museu de Arte da Bahia. Nos jornais, sempre havia comentários que lhe eram favoráveis. E ele chegou a receber elogios de Ruy Barbosa e Manuel Bandeira. Em 1941, recebeu a Medalha de Ouro no Salão Nacional de Belas Artes, com a tela Abstração. Em 1945, na exposição da tela O interior do Convento de São Francisco, na Biblioteca Pública de Salvador, o livro de presença abrigou 12 mil assinaturas, em apenas cinco dias. Ares de modernidade O artista também foi um nome importante nos grupos que discutiam arte na Bahia. Mas quando a arte moderna começou a surgir no estado, vieram alguns ataques. Apesar de muitas pessoas terem saído em defesa de Presciliano, ele próprio parecia não se importar muito com as considerações a respeito do seu trabalho. Não era indiferença, nem arrogância tola de artista. Nesses momentos, era até bom ser surdo. Porque, assim, Presciliano mantinha-se mudo às polêmicas, com um silêncio cheio de dignidade. Todas as discussões eram pequenas para um homem tão sereno, que pintava sem muitas vaidades, e que nem mesmo se importava em sair de casa com os pés da meia trocados. (© Correio da Bahia) Sinônimo de pintor Presciliano Silva se tornou referência no meio artístico ao traduzir a realidade através dos pincéis
O retrato da mãe era eternamente retocado pelo artista *Foto: Reprodução de Paulo Macedo/ Acervo de família Quando seus dedos longos e enrugados levantaram o pano de sarja bege que encobria o cavalete, ele teve de segurar a emoção. Poucos dias antes de morrer, novamente Presciliano se viu diante do quadro que nunca conseguiu terminar. Já tão velhinho e cansado, o artista voltou a fitar os olhos castanhos pintados na tela de linho. Aquele olhar sempre lhe foi doce, generoso, conivente até. Mais uma vez - e pela última vez - Presciliano Silva estava diante de sua mãe. Ele, com 82 anos, um câncer instalado nos pulmões. Ela, eterna em seus traços em tinta a óleo, um sorriso bem discreto na boca, e a aparência mais jovem que a do filho, por conta dos milagres da arte. Trancado no silêncio de sua surdez, e envolvido pela tranqüilidade do ateliê, Presciliano sentou-se frente à tela. Suas coxas formaram um ângulo de 90o com as costas, como era de hábito quando estava pintando. Os modos lhe davam um ar aristocrático, com uma elegância serena, sem sinais de arrogância. Aprumado diante do quadro, ele passava o pincel pela paleta, misturando as cores; levantava-se da cadeira e se afastava da tela, para observar melhor a pintura; abria e fechava as cortinas do ateliê, para compor o jogo de luzes e sombras. E, mesmo assim, nunca se dava por satisfeito com os tons do rosto materno. "Esse quadro sempre ficava no cavalete, ou então coberto com um pano", diz Mercedes Cunha, amiga da família. "Nunca terminava essa tela. Vez ou outra, a retocava", lembra Maria da Conceição Moniz, única filha de Presciliano. Talvez fosse apenas perfeccionismo de artista. Afinal, ele era capaz de demorar cerca de dois anos para terminar suas telas, o que criava expectativa no mercado de arte baiano. Seus quadros eram muito bem-vistos pelo público e pela crítica. "As telas eram disputadas, e as pessoas tinham que esperar para conseguir comprá-las", lembra Maria. Mas com o quadro da mãe era diferente. Não estava à venda. Além disso, nele Presciliano não gastou apenas dois anos, mas boa parte de sua vida. Fosse um Pablo Picasso - que, em 1907, já iniciava o cubismo - Presciliano teria pintado a mãe com outras tintas, e com traços bem distintos. Talvez uns triângulos, uns cubos, quadrados, e outras formas mais livres, típicas da arte moderna. Mas o nosso personagem era um baiano que, em 1905, aos 22 anos, deixou o estado para aprender pintura na Academia Julian, na França. Nessa escola, ainda predominavam os valores tradicionais de elaboração de obras de arte, inspirados principalmente no romantismo e no neoclassicismo. Enquanto isso, a Europa já tinha respirado os ares de uma Primavera impressionista, a fotografia já havia surgido para sacudir as crenças da pintura realista, e a arte passava por profundas transformações. "Na academia, eram muitos alunos numa mesma turma, aprendendo a mesma técnica conservadora, enquanto a arte tomava outros rumos", diz o artista plástico Juarez Paraíso. Mas o fato de Presciliano ser preso à retratação da realidade não diminuiu o valor de sua arte. Afinal, qual seria a graça da criação, se não houvesse o direito à pluralidade? "A boa arte existe tanto na arte abstrata como na arte tradicional de representação", destaca Ana Maria Villar, professora aposentada da Escola de Belas Artes e restauradora de muitos quadros de Presciliano. Hoje criticado por alguns - que o vêem como ultrapassado - e muito louvado pela grande maioria dos críticos de sua época, Presciliano assinou seu nome na história da arte da Bahia. Para se ter uma idéia, pelos idos de 1950, os pais corujas que viam algum talento nos rabiscos dos filhos logo profetizavam: "Olha aí, meu filho vai ser um Presciliano Silva". O nome de Presciliano Silva virou sinônimo de grande pintor. Mesmo os opositores mais ferrenhos reconheceram em Presciliano o refinado talento para o desenho e muita espontaneidade no pincel. De suas telas de paisagens, decaem verdes e azuis cheios de uma doce melancolia. Sob seus mares, abundam os brilhos e as luzes dos dias tranqüilos. Dos seus quadros, também sobressaem as peles marcadas de um povo anônimo: velhos, crianças, mendigos e camponeses foram eternizados por suas tintas. E, como ninguém, Presciliano retratou todas as nuances de silêncio dos mosteiros e sacristias da Bahia. Mas uma das características mais marcantes do pintor, descrita até mesmo em alguns livros, não tem nada a ver com cores nem pincéis. "Presciliano era um homem bom. Paciente, calmo, generoso", lembra Juarez Paraíso. Tranqüilo, modesto, desligado até, Presciliano tinha uma enorme adoração pela natureza. Chegava ao ponto de soltar do bonde para ajeitar o pescoço de uma galinha, dependurado sobre o cesto de um vendedor mais relapso. Era incapaz de matar uma barata. Se um besouro pousasse na cabeça da filha, ela gritava, desesperada para se desvencilhar do insetinho inconveniente. E ele simplesmente tomava o bichinho nas mãos e falava: "Sai daí menino, que o negócio não está bom para você". Era assim o tempo todo. Exímio observador, estava atento até mesmo ao caminhar das formigas pela mesa do almoço, ao sacudir de cabeça de uma lagartixa que subisse pelas paredes. Conversava com todos os bichos, e também com as flores do jardim. Tinha a certeza que não estava falando sozinho. "Nunca vi ninguém com tanta interação com a natureza", lembra Maria. Presciliano teve a sensibilidade para perceber que a natureza é uma obra de arte irretocável. E ele era apenas um observador dessa tela, que não podia ser arrematada nem mesmo no mais nobre dos leilões. No livro Presciliano Silva, o crítico de arte Clarival do Prado Valladares chega a questionar porque os animais, tão queridos pelo artista, são quase ausentes em sua obra. Há também quem especule o porquê do artista nunca ter pintado sua filha, dona de uma beleza singular, tida como uma das moças mais encantadoras da Bahia. "Ele dizia que, se pintasse, não faria justiça", lembraram alguns. "Casa de ferreiro, espeto de pau", sugeriram outros. Seja qual for o motivo, o fato é que a imagem da filha na tela de linho nunca sequer foi começada. Sob a ausência, recai o mesmo pano em sarja bege; véu de mistério que, por tanto tempo, encobriu o retrato inacabado da mãe... (© Correio da Bahia)
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