Notícias
Quarenta anos que fizeram história

09/08/2004

Quarteto em Cy

Quarteto em Cy lança coletânea, um CD duplo que junta gravações consagradas a raridades

Tárik de Souza

   Trata-se de um inusitado exemplo de vocal feminino numa MPB povoada no passado por grupos masculinos. Do Bando da Lua aos Anjos do Inferno, Quatro Ases e Um Coringa, Trigêmeos Vocalistas, Trio Irakitã, Trio Nagô, Titulares do Ritmo, Os Cariocas (com uma breve passagem de Hortênsia, irmã de Ismael Neto e Severino Filho), Quitandinha Serenaders, Garotos e Namorados da Lua, só dava homem. Formado inicialmente pelas irmãs Cyva, Cynara, Cybele e Cylene (substituída sucessivamente por Regina, Semíramis, Dorinha Tapajós e, desde 1980, por Sonya), o Quarteto em Cy celebra 40 anos de trajeto numa coletânea selecionada pelo próprio grupo.

   ''As minhas baianinhas'', como as chamava carinhosamente Vinicius de Moraes (no disco que dividia com elas, Dorival Caymmi e Oscar Castro Neves, gravado na boate Zumzum em 1965), além da harmonia do encaixe vocal mantiveram o controle de qualidade do repertório, como bem demonstra a compilação. Quarteto em Cy - Quarenta anos (Universal), com ''design'' de Cesar Vilela, o do grafismo audacioso do selo Elenco, é um CD duplo. No primeiro estão as gravações que elas consideram ''clássicas'' e, no segundo, as ''raras e inéditas''.

   A seção das ''clássicas'' não pode ser confundida com uma mera pilha de sucessos, talvez à exceção de Retalhos de cetim, sambão-jóia de Benito Di Paula, extraído do compacto duplo Quatro sucessos em Cy, de 1974. As outras duas músicas do mesmo disquinho arroladas são Menino Deus (de Mauro Duarte e Paulo Cesar Pinheiro), êxito de Clara Nunes, e a estupenda Abre alas (de Ivan Lins e Vitor Martins), petardo de protesto de fino trato harmônico, da estirpe também de Angélica (de Miltinho e Chico Buarque), tirada de Querelas do Brasil (1978), que decupa o calvário da estilista Zuzu Angel à procura de notícias do filho morto pela repressão.

   A mesma clave pontua censuradas do segundo CD, como a obscura (e linda) Credo (de Milton Nascimento e Fernando Brant), evocando na letra o célebre Caminhando, de Geraldo Vandré, e a aflita Não tenha medo (de Caetano Veloso), ambas excluídas do disco Em mil kilohertz, de 1979. O libelo pelas diretas-já da sagaz Rainha do rádio, de Maurício Tapajós e Hermínio Bello de Carvalho (''com voto direto, direito, sincero, secreto'') é prefaciado pela marchinha escrita por Haroldo Barbosa para a abertura do Programa Cesar de Alencar, o apresentador da faixa, a despeito de sua má fama no que diz respeito à política. A marchinha, aliás, é citada erroneamente como sendo a célebre Cantores do rádio (Lamartine Babo/ João de Barro/ Alberto Ribeiro).

   Ainda entre as clássicas, há uma versão Beco das Garrafas (onde elas começaram) das afro-bossas Reza (Edu Lobo/ Ruy Guerra) e Nanã (Moacir Santos), sob arranjo instrumental de Eumir Deodato, do disco de estréia do quarteto no selo Forma, em 1964, com direito a dois trompetes (Pedro Paulo e Wagner), dois trombones (Raul de Souza e Ed Maciel) e um trombone baixo (Jorge Luiz Maciel). Outros realces são o retinir de Amaralina (de Carlos Castilho e Chico de Assis) e a conjunção de Eu vim da Bahia com Filhos de Gandhi (ambas de Gilberto Gil), registradas ao vivo no show Resistindo, no Teatro Fonte da Saudade, entre 1976 e 1977.

   E, se o Quarteto em Cy terça vozes com seu correspondente masculino MPB-4 em Oriente (também de Gil), do disco Cobra de vidro (1978), elas também se encontram com a vanguarda instrumental do Tamba Trio em Das rosas (Dorival Caymmi) e O mar é meu chão (de Dori Caymmi e Nelson Motta). Da valsa (Boa noite, amor) ao samba-enredo (Festa do Círio de Nazaré) e à modinha camerística (Canta, canta mais), em uníssonos ou escalas tonais, as Cys vocalizam uma MPB ecumênica que fez história.

JB Online)

Com relação a este tema, saiba mais (arquivo NordesteWeb)


powered by FreeFind


 

Google
Web Nordesteweb