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10/08/2004
Arthur Max – 25/10/01-JB

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O maestro,
compositor e saxofonista Moacir: 'Coisas' foi reeditado com a mesma capa
com que foi lançado em vinil |
Hugo Sukman
O
contexto em que surgiu a obra-prima “Coisas”, o primeiro disco autoral de
Moacir Santos, de 1965, diz muito sobre ele.
Naquele ano, Elizeth Cardoso
lançava “Elizeth sobe o morro”, disco em que cantava, comme il faut
, os chamados sambas de morro. No mesmo disco, Nelson Cavaquinho
registrava pela primeira vez seu violão. Um ano antes, Herminio Bello de
Carvalho começava a trabalhar o manancial Clementina de Jesus. Um depois,
Baden Powell e Vinicius de Moraes lançariam os afro-sambas. Nara Leão
trocava os colegas da bossa nova por Zé Keti e Cartola. Este, descoberto
lavando carros numa oficina, volta à música depois de mais de 20 anos
ausente e no seu bar, o Zicartola, rearticula o contexto cultural do
samba. Chico Buarque retoma o fio do samba, Edu Lobo evolui na música
nordestina. Jorge Ben, dois anos antes, começara a balançar o misto de
samba e maracatu em ligação direta com a África. Paulinho da Viola e
Martinho da Vila começavam, cada um a seu modo, a progredir dentro do
chamado samba tradicional, o primeiro propondo novos caminhos harmônicos e
poéticos, o segundo renovando o fundamento do samba, o partido-alto,
levando-o à grande mídia...
Dezenas de exemplos de como a
música brasileira assumia sua negritude naquele miolo de anos 60 poderiam
ser invocadas aqui. Em atitude típica dos gênios, Moacir Santos resumiu,
no entanto, tudo num disco. Ou melhor, em dez temas, chamados simplesmente
“Coisas”, nos quais faz a tradução orquestral da moderna (e negra) música
brasileira.
Mesmo a conhecida “Nanã” ainda surpreende pelas inovações
Durante décadas, o LP “Coisas” foi
objeto do desejo de tudo quanto é colecionador mundo afora. Lançado pela
vanguardista gravadora Forma, em 1965, nunca mais fora relançado desde que
o selo do recém-falecido produtor Roberto Quartin, especializado em
samba-jazz, foi absorvido pela Phillips, hoje Universal. Edições piratas
pululam por aí, mas só agora, luxuosamente remasterizado e sob orientação
dos músicos Mario Adnet e Zé Nogueira (que há três anos produziram “Ouro
negro”, CD duplo com novas gravações de músicas de Moacir, inclusive as
“Coisas”), o LP chega ao CD, via selo MP,B, com distribuição da Universal.
O impacto de “Coisas” ainda é
brutal, e cresce quanto mais se ouve. Mesmo o mais conhecido dos temas,
por exemplo, “Coisa n 5” (originalmente do filme “Ganga zumba”, de Cacá
Diegues, que virou standard da bossa nova sob o título de “Nanã”
e letra de Mario Telles), ainda surpreende pela originalidade da melodia
e, mais ainda, pela orquestração grandiosa, conduzida por um naipe gordo
de metais. Encanta pelo intermezzo com inventivo solo de flauta
(de Copinha), com o diálogo entre violão (de Geraldo Vespar) e a orquestra
sobre bateria precisa de Wilson das Neves.
Do registro lírico de um “Coisas n
3”, conduzido por piano (Chaim Lewack) sob cama de vibrafone (Cláudio das
Neves) em conversa com os sopros, vai para o registro suingado e
propriamente jazzístico do “Coisa n 2”; do afro-latino “Coisas n 9”ao
samba “Coisas n 6”, numa variedade de ritmos, procedimentos melódicos e
harmônicos que resumem, em si, todos os caminhos possíveis para uma música
brasileira moderna. Vai do “Coisa n 1”, que é como se um Duke Ellington
fosse a um terreiro de macumba, ao samba em andamento 6/8 do “Coisa n 7”,
típico do jazz carioca do Beco das Garrafas.
Na verdade, mais do que os temas em
si — e o prazer de ouvi-los é infinito — a importância de “Coisas” é de
ter inventado uma língua mesmo para a orquestra brasileira. O que
Pixinguinha fizera 30, 40 anos antes, Moacir fez nos anos 60. Mas se a
língua de Pixinguinha curiosamente “embranquecia” as idéias musicais
negras de sambas e batucadas, adaptando-as aos formatos europeus da
orquestra, a de Moacir ia na direção oposta, tornava a música brasileira
ainda mais negra.
Pixinguinha criou a linguagem
clássica da música brasileira. Moacir Santos, a moderna, num contexto em
que essa música havia chegado ao auge, à excelência tanto na preservação
de sua força primal (num espetáculo como o “Rosa de Ouro”, revelando
Clementina e uma nova geração de sambistas) como nos progressos formais de
uma turma como a do samba-jazz, que fazia uma das melhores músicas
instrumentais do mundo. Moacir funde tudo isso.
Do sertão de Pernambuco onde
nasceu, do Rio onde consagrou-se como maestro, compositor e saxofonista
(seu solo de sax barítono em “Coisa n 8”, de timbre vigoroso e aveludado,
é exemplar), Moacir acabou radicando-se nos Estados Unidos, onde vive até
hoje. Lá gravou um punhado de grandes discos pela Blue Note (“Maestro”,
“Saudade”, “Carnival of spirits”) e em outros selos, que são
disputadíssimos.
Segredo brasileiro, dele disse
Vinicius de Moraes: “Maestro Moacir Santos/Não és um só, és tantos”.
Recentemente, Ed Motta afirmou à repórter Elisabeth Orsini que Moacir é
seu santo de devoção. De perfil na capa de “Coisas”, perfil negro, com
aquele som todo lá dentro, som que faz as vezes de toda uma busca de
identidade, Moacir Santos justifica a aura de mito.
(©
O Globo)
Fetiche Instrumental
Marco na música brasileira, cultuado disco de 1965 de Moacir Santos
finalmente chega ao CD
Tárik de Souza
Acabou o fetiche. Não, claro, para os fanáticos adoradores do formato
vinil. Para os outros mortais, já está ao alcance em CD o mítico Coisas
(MP,B/ Universal), disco do maestro, compositor e saxofonista Moacir
Santos editado em 1965 pelo pequeno e seleto selo Forma e nunca mais
reeditado. Trata-se de um marco na música instrumental brasileira,
cultuado a ponto de merecer, em 2001, uma releitura revista e ampliada, o
CD duplo Ouro negro, produzido pelos músicos Zé Nogueira e Mário
Adnet, sob supervisão do focalizado, acrescido de temas de outros discos e
inéditas.
Nogueira & Adnet mais João Mário Linhares são também os
responsáveis pela desova da pérola rara na feição original, incluindo a
sombreada tela de Patricia Tattersfield que retrata o solista e o selo
interno em forma de catavento. O impacto brutal do disco vem do esmerado
apuro harmônico e das arrojadas soluções em compassos quebrados para a
confluência afro-jazz-nordestina, temperada pela atmosfera da bossa nova
em efervescência, inclusive ideológica, na época.
''Não sei até hoje se Moacir Santos é de extrema
direita ou extrema esquerda, mas sei que ele é de extrema musicalidade'',
discursa o recém-falecido produtor (co-proprietário do selo) Roberto
Quartin no texto original do LP, gravado exato um ano após o golpe militar
de 1964. Na apresentação, Quartin descreve o embate quase autofágico entre
as correntes ''de extrema direita, que passam a vida fazendo 'amor' rimar
com 'flor''' e de extrema esquerda, ''que gastam o tempo falando em
'autenticidade', 'música do povo' e mal dos que vão para o estrangeiro
divulgar a nossa música (até que eles próprios viajem, levando como
bagagem um catálogo de desculpas)''.
Moacir, radicado sem necessidade de excusas em Los
Angeles desde 1967, foi parceiro de Vinicius de Moraes (que o evocou, ''tu
que não és um só/ és tantos'', no Samba da bênção) e do ícone do
protesto Geraldo Vandré. Este letrou sua Coisa nº 6, do disco, sob
o nome de Dia de festa no LP Hora de lutar, lançado no mesmo
ano. O megaclássico Nanã (a Coisa nº 5, no disco em compasso
de valsa jazz) fez parte da trilha do filme Ganga zumba, de Cacá
Diegues, e entrou, apenas em scat, na estréia solo de Nara Leão, em
1964.
As Coisas de números 1 e 2 (ambas de melodia
belíssima, a última, uma valsa afro-jazz de brilho estonteante) foram
inicialmente gravadas no primeiro LP de um de seus alunos, o violonista
Baden Powell (Swings with Jimmy Pratt), em 1962, para outro selo de
estirpe, a Elenco, de Aloisio de Oliveira. Moacir fez arranjos e ainda o
vocalise (com seu timbre originalíssimo) da primeira. Durante a gravação,
teve o insight de nomear as músicas e o futuro disco a partir da
numeração dos ''opus'' eruditos que sempre o fascinaram.
Menino pobre nascido em Flores do Pajeú, Pernambuco, em
1926, órfão aos 3 anos, ele peregrinou pelas capitais nordestinas antes de
vir para o Rio, onde se tornou um dos maestros do elenco de ases da Rádio
Nacional (ao lado de Radamés Gnattali e Lírio Panicalli, entre outros).
Ex-aluno de Cláudio Santoro, Guerra-Peixe e mais H.J. Koellreuter e Ernst
Kreneck, que o apresentaram ao dodecafonismo, Moacir foi mestre de meia
bossa nova (de João Donato e Sérgio Mendes a Roberto Menescal, Paulo Moura
e Raul de Souza).
Suas lições práticas estão decodificadas no requinte de
Coisas. Na alternância de ensembles e solos de sopros
(trumpete, trombone, trombone baixo, trompa, flauta, saxes alto, tenor e
barítono, este tocado por ele em algumas faixas) em confronto com a
cozinha de piano, vibrafone, guitarra, bateria e percussão. Música para
músicos. E ouvidos não embotados pelo banal.
(©
JB Online)
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