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J. de Moura celebra a fé e a amizade

10/08/2004

Obra de J. de Moura em exposição

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Galeria Segundo Jardim abre exposição Altares, Eu e Alguns Amigos, com trabalhos do artista plástico pernambucano, alguns feitos a quatro mãos

CAROL ALMEIDA

   O artista plástico José de Moura cultiva amigos como quem planta cor. E em seus mais de 30 anos de circulação entre tonalidades e contatos pessoais, ele pintou com todas as misturas (quase sempre fortes) as amizades que fez com (quase) todos os demais artistas que atuam em Pernambuco. Essa relação paralela entre a aquarela e o intercâmbio artístico toma forma hoje com o lançamento da exposição Altares, Eu e Alguns Amigos. Na mostra, além de exibir as últimas telas produzidas entre o começo do ano passado e o último mês de julho, Moura expõe as telas que fez a quatro mãos, ao lado de 12 artistas convidados.

   A começar, portanto, pelos amigos do título: no ano passado, em uma conversa informal com o artista plástico João Câmara, J. de Moura terminou convidando o amigo a criar um retrato numa tela oval. A idéia era que a pintura fosse colocada dentro de uma moldura antiga e barroca que havia sido apresentada ao próprio proponente dias antes. Câmara, ciente de que o colega poderia fazer suas próprias interferências no quadro, deu de presente o retrato de uma mulher. Começou assim a se criar uma série de telas feitas por dois artistas: o que convidou e o convidado.

   Além de João Câmara, quem participou dessa série híbrida e oval foram Delano, Ferreira, Francisco Brennand, Gil Vicente, Guimarães, Luciano Pinheiro, José Barbosa, José Carlos Viano, José Cláudio, Pedro Dias e Plínio Palhano. Todos os contatos foram feitos do ano passado para cá. Na maior parte das vezes, as interferências eram realizadas depois que o artista convidado criava a base e, Moura, a partir do desenho inicial, fazia uma ‘mixagem’ própria.

   As molduras, a exemplo daquela que inspirou a série a partir do retrato criado por Câmara, foram todas restauradas e retrabalhadas com pó de ouro, verniz e resina. Por fora, cobrindo tanto as molduras quanto as pinturas, está uma camada de vidro. “A idéia é proteger os trabalhos como se eles estivessem mesmo num altar. Daí porque as molduras têm esse ar de antiguidade”, explica o pintor.

   Quanto à mostra individual de trabalhos exclusivos do artista, estarão expostas na Galeria de Arte Segundo Jardim uma dúzia de quadros a óleo sobre tela, muitos deles evocando um certo misticismo e religiosidade dos personagens. Há, por exemplo, uma série de três telas chamada A Alma do Santo (Reza forte), criada a partir de uma conversa sobre crenças e fé. “Tudo, na verdade, é inspirado em diálogos que tenho quando eu vou para o interior do Estado. Termino anotando o que escuto”, diz Moura.

   Há cinco anos sem realizar individual no Recife, e há mais de uma década sem lançar uma mostra inédita, J. de Moura, como assina, é uma das poucas figuras que tem livre circulação entre várias gerações de artistas plásticos pernambucanos. De formação quase exclusivamente acadêmica, Moura passou por várias escolas, desde a tradicional Escola de Artes da UFPE até a Escola Técnica Federal de Pernambuco. Nos anos 70, deixou um pouco o pincel de lado e passou a trabalhar com gravura e, nos anos 80, viajou para a Espanha, onde também estudou. Atualmente, morando no ainda reduto artístico do Estado, Olinda, o pintor não apenas se contenta em fazer o seu, como também ajuda a mexer no dos outros. Tudo, claro, com o consentimento expresso da amizade.

Serviço

Altares, Eu e Alguns Amigos – Galeria de Arte Segundo Jardim, Rua Solidônio Leite, 62, Boa Viagem. Hoje, às 20h. Em cartaz até 30 de agosto

JC Online)


Religiosidade sob o viés da subversão

J. de Moura exercita irreverência em série de pinturas

Júlio Cavani
Da equipe do DIARIO

   Nos quadros de J. de Moura, percebe-se que, antes de tudo, o artista é um contador de histórias. Na exposição Altares: Eu e Alguns Amigos, cada detalhe das pinturas esconde um acontecimento ou personagem. Toda figura tem um significado em obras que transcendem à superfície sem limites, para reunir informação e possibilidades de interpretação. Na individual, que começa hoje, às 20h, na galeria Segundo Jardim, ele apresenta uma série de peças que, na maioria, tratam da religião sob um ponto de vista profano e também trabalhos feitos em parceria com os artistas Gil Vicente, João Câmara, Luciano Pinheiro, José Barbosa, José Carlos Viana, Ferreira, Pedro Dias, Delano, José Cláudio, Guimarães e Francisco Brennand.

   Algumas obras da mostra fogem das limitações da pintura. Na série de peças feitas em conjunto com os amigos, por exemplo, a moldura faz parte do trabalho. Ele constrói caixas de vidro usando molduras antigas de madeira, cheias de ornamentos. "É kitsch. Elas têm um cunho clássico que contrastam com a grosseria da nossa pintura", provoca, insistindo na importância se ver as peças pessoalmente e não em reproduções. No tríptico vertical Tô Avisando, protagonizado por um Papa caricatural, o artista usa pano, cerâmica e um ornamento de madeira.

   Normalmente, ele pega uma peça parcialmente pintada por um artista amigo e a complementa com sua intervenção. Em alguns casos, ele chega a modificar até o estilo da original, como fez com Luciano Pinheiro. O pintor criou uma imagem abstrata com suas pinceladas coloridas e transversais, mas Moura foi lá e transformou a imagem em um rosto, que ele diz ser o seu. Ou seja, além de interferir, ele transformou uma obra alheia, inicialmente sem figuras, em um auto-retrato. "Achei que aqueles dois triângulos lembravam meus óculos. Aí coloquei um puxador de gaveta no meio para formar um nariz", descreve, mostrando que seu trabalho, apesar de rico em conteúdo e certa subversão, tem muito de brincadeira também, porém para ser levada a sério.

   Normalmente inspirado em histórias queouviu ou presenciou, ele não mede o pudor quando o assunto é religião, construindo uma provocação saudável. No quadro A Santa do Cabaré e o Anjo que Vem de Longe, uma prostituta com lingerie e cinta-liga tem uma auréola de padroeira na cabeça e recebe um cliente angelical enquanto é agraciada pela luz. Mesmo os mais religiosos podem achar a pintura bonita.

Serviço

Altares: Eu e Alguns Amigos, exposição de J. de Moura
Quando: Abertura hoje, às 20h. Em cartaz até 30 de agosto
Onde: Galeria de Arte Segundo Jardim (Rua Solidônio Leite, 62, Boa Viagem)
Informações: 3326.5610

Pernambuco.com)

Com relação a este tema, saiba mais (arquivo NordesteWeb)


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