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10/08/2004
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O organizador das
Ligas Camponesas Francisco Julião, de terno escuro, com Zezé da Galiléia,
um dos líderes do movimento. Pernambuco, 8 out. 1959 |
Luciana Veras
Da equipe do DIARIO
"A um ano e
meio de completar 80 anos", como anuncia sua idade, a sra. Crespo recebe
seis convidados na varanda do apartamento onde mora, em Casa Forte, com
uma de seus quatro filhos. Meio da tarde, ela é entrevistada por uma
mulher. Refletores ligados, uma câmera DV focada, silêncio pedido e assim
se registra mais um depoimento do documentário Alexina, cuja primeira
rodada de gravações ocorreu em Recife no fim de semana.
"Não acho que tenha feito nada de
extraordinário, apenas vivi de acordo com aquilo que acreditava", responde
Alexina Crespo à pergunta da reportagem do DIARIO, que a indagara sobre
seu sentimento em ser objeto de um documentário. Modesta, ela nunca daria
a importância devida e merecida à sua participação na formação das Ligas
Camponesas, na luta clandestina e na resistência à ditadura. Historiadores
e realizadores, porém, discordam, e muito, de dona Alexina, a primeira
esposa de Francisco Julião, o advogado que organizanou os camponeses e deu
ao campesinato papel preponderante na política pré-1964.
"A Alexina foi uma estrategista. Nos 40 anos
do golpe, é importante resgatá-la, porque só se fala em Julião e ele
sempre é vista como a viúva dele, mas ela tem uma história de luta, de
exílio como guerrilheira", diz Maria Thereza Azevedo, doutora em Artes e
Dramaturgia pela Universidade de São Paulo, jornalista formada pela UNB e
roteirista e documentarista desde os anos 70. Ela é quem dirige Alexina,
um documentário que deve ficar com 52 minutos, com produção da Sépia
Cinema e Vídeo, de Vitória Fonseca.
"Ela era coordenadora de relações
internacionais das Ligas Camponesas, foi a Cuba, conheceu Fidel Castro,
Che Guevara, esteva com Mao Tse Tung na China. Casou-se com Julião em 1946
e depois que eles se separaram a Alexina continuou militando nas ligas",
sustenta Vitória. O cronograma prevê que essa seja a primeira etapa de
captação de imagens e depoimentos - além de Alexina, falaram para o
documentário seus filhos Anacleto, Anatólio e Anatailde (além deles, há
outra filha, Anatilde, que moraem Curitiba). "Viemos para cá com o apoio
das prefeitura do Recife e de Camaragibe. Só nessa primeira fase gastamos
R$ 60 mil. A idéia é estar com tudo pronto ainda esse ano", completa a
produtora.
"Nosso objetivo é contar a macrohistória a
partir da micro-história e trazer à luz personalidades que não são
recordadas, mas que fizeram parte dessas lutas. A partir de Alexina, que
foi exilada em Cuba, estava no Chile quando Allende sofreu o golpe e
depois foi ao México com seus quatro filhos, vamos falar do Brasil",
pontua o sociólogo pernambucano Cristiano Ramalho, um dos pesquisadores do
documentário, que recebe também o auxílio do Ceres - Centro de Estudos
Rurais da Unicamp, onde Ramalho faz seu doutorado.
"Mas eu só fui para Cuba porque minha filha
ia se casar e eu queria costurar o vestido dela, fazer a festa. Com quinze
dias lá, estourou o golpe aqui", lembra Alexina. "Na primeira vez que a
gente se encontrou, chorei. Agora de novo", conta Maria Thereza, enxugando
as lágrimas na tarde da sexta-feira, outra vez tocada pelas lembranças da
sra. Crespo. "Seu trabalho representa o papel da mulher nas lutas sociais,
sempre relegadas ao segundo plano. Sua história é a História do País",
resume a diretora.
(©
Pernambuco.com)
Entrevista / Alexina Crêspo
DIARIO DE PERNAMBUCO: Como foi o treinamento que a
senhora fez em Cuba?
Alexina Crêspo: Foi num campo de tiro ao alvo. Com armas, metralhadora...
Tivemos aula também sobre curva de nível, que é para você aprender a
atirar de morteiro. Você tem que colocar no chão e calcular a curva que a
bala tem que fazer para atingir o alvo. Estávamos com um grupo de pessoas
que fomos conhecendo em Cuba. Mas não foi uma coisa assim, oficial, do
tipo "Fidel mandou buscar e colocou num lugar especial"... Fomos nos
conhecendo e aí formou-se o grupo. Não era só gente das Ligas; havia
pessoas de outros países.
DP: A senhora participou de algum encontro com Fidel em que ele falou da
luta armada no Brasil?
Alexina: Eu conversava com ele, dizia o que nós estávamos pretendendo.
Houve inclusive uma ocasião em que havia duas correntes nas Ligas, do
pessoal favorável à luta armada. Uma queria dividir o Brasil assim,
horizontalmente (faz o gesto com a mão, mostrando). Entre Norte e Sul.
Outra que queria dividir assim, verticalmente. Esta era a que o padre
Alípio (de Freitas, integrante das Ligas na época; vive hoje em Portugal)
queria. A proposta dele era que assim seria possível tomar as fábricas, as
montadoras de automóvel, para fazer armas. Era um negócio meio absurdo,
meio utópico. Justamente onde tinha mais mata para a gente fazer a
guerrilha, mais rios, essa coisa toda, ficava isolado. E a gente ficava
com a fronteira do lado de cá, toda a costa, era superperigoso. A corrente
que eu defendia preferia o corte horizontal. Assim a gente ficava com
diversas fronteiras, que poderiam nos ajudar. Com as Guianas, de onde
poderia vir ajuda de Cuba. E com mais um pedaço aqui no Nordeste. Mas
minha proposta foi derrotada. Tudo isso eu levei para Fidel. E ele disse:
"Essa aqui tem mais lógica". Era a proposta que eu defendia. Porque você
pegava as fronteiras... Inclusive da África, que fica pertinho daqui.
Naquela época a Argélia estava muito ligada a Cuba, poderia vir ajuda
também por aí.
DP: Como eram essas explicações? Em um mapa do Brasil?
Alexina: É, eu me lembro que estavam Fidel, o comandante Barba Roja (como
era conhecido o comandante Pinheiro, um dos participantes da Revolução
Cubana), que era o encarregado de todos esses movimentos na América
Latina. Aí eu botei o mapa assim no chão e comecei a explicar. E Fidel
olhou assim, eu explicando, e ele disse: 'Pero qué se pasa con tu spañol?'
Eu disse: 'O mesmo que se passa com o seu português. Eu entendo espanhol
mas não falo. E você entende português mas não fala'. O comandante ficou
olhando assim... (faz um ar sorridente).
DP: Julião sempre disse que foi contra a luta
armada. Mas ele sabia da participação da senhora?
Alexina: Sabia, sabia. Ele ficava, vamos dizer assim, na parte legal,
institucional, os discursos. E nós ficávamos na parte clandestina,
preparando as coisas, treinando os camponeses.
DP: A senhora participou de algum treinamento
guerrilheiro também no Brasil?
Alexina: Sim, no Rio. Houve uma vez em que passamos um dia inteiro comendo
mamão verde. E eu reclamando:'Mas precisa isso?' E Clodomir (Morais, que
havia saído do PCB e liderava a ala guerrilheira das Ligas): 'É para vocês
verem a dureza e não sei o quê'. Agora o que eu acho interessante é que
hoje ele não fala nessas coisas. Ele não assume que foi comandante, que
fez treinamento.
DP: Os integrantes da Liga chegaram a ter armas?
Alexina: Chegamos. Inclusive, quando nós começamos a sentir que iria haver
um golpe, nós fomos para o Rio, na granja de um amigo nosso, e enterramos
armas. Acho que elas ainda estão lá.
DP: Em que local foram enterradas?
Alexina: No quintal da granja. Eram muitas. Nós colocamos em papel
imperméavel, no caixão. Estão lá, enterradas. Tinha Fal (fuzil),
metralhadora, revólver...
DP: Quando veio o golpe, não deu para desenterrá-las
e tentar a resistência?
Alexina: Deu nada. Quando veio estava todo mundo desarmado.
DP: As Ligas possuíam pelo menos oito dispositivos
(como eram chamados os campos guerrilheiros das Ligas), em estados
diferentes. Quando o de Dianópolis (GO) foidesmontado pelas Forças
Armadas, parou de vez a ação guerrilheira das Ligas?
Alexina: Parou, parou. Ali em Goiás foi uma traição danada. Um agente da
polícia que nos denunciou. Nós tínhamos uma maneira de nos aproximar dos
dispositivos. A gente se aproximava cantando ou assobiando o hino de Cuba,
porque ninguém conhecia. Era a senha. Essa pessoa foi lá e denunciou tudo.
DP: O nome da senhora não foi envolvido quando o
dispositivo foi descoberto?
Alexina: Não, porque a gente tinha nome de guerra. O meu era Maria. Por
que Maria tem muita, né? E aí num imprevisto fica difícil identificar.
'Maria, Maria de quê, que Maria?'
DIARIO: Depois prenderam Clodomir... (em 12 de
novembro de 1962, no Rio, quando ele estava conduzindo um carro com armas)
Alexina: Quando prenderam ele, Francisco (era assim que ela tratava
Julião) ia fazer um pronunciamento na Assembléia dizendo que ele era o
responsável. Aí eu mandei um telegrama que ele não desse este depoimento.
Porque Clodomir já estava preso e a gente já tinha tomado todas as
providências. Aí ele recuou.
DP: Julião iria fazer um pronunciamento assumindo as
ações do dispositivo?
Alexina: Sim, sim. Aí ia ser um negócio ruim demais. Talvez ele tenha
pensado nisso para proteger Clodomir. Porque ele sabia que se Clodomir
fosse preso, iria ser torturado, o que realmente aconteceu. Mas Francisco
cuidava só da parte institucional das Ligas, não dos dispositivos.
DP: Nesse encontro com Mao Tsé-Tung, a senhora pediu
apoio para a luta armada no Brasil?
Alexina: Sim, eu falei na frente das meninas mesmo. Você tinha que
aproveitar o momento. Se eu consegui ser recebida por ele, tinha que
aproveitar e falar o que devia falar. Eu pedi apoio, ele perguntou quantas
armas nós tínhamos. Eu disse que tínhamos muito pouca coisa. Ele não deu
uma resposta logo, o chinês é muito cauteloso. Mais tarde ele mandou uma
delegação de três companheiros para verificar como estava a situação.
DP: Ao Brasil?
Alexina: Sim. Nós tínhamos que recebê-los, mas eles não me conheciam.
Então a gente tinha uma senha para o contato, para que eles soubessem que
eu era eu mesma.
DP: Qual era a senha?
Alexina: Eu não lembro exatamente todas as palavras. Mas lembro que era
sobre um cigarro. 'Você fuma tal cigarro?', aí eu respondia. Fomos
recebê-los no aeroporto. Fizemos tudo que tinha que ser feito. Eles foram
conversar com Francisco, Clodomir... Eles vieram para ver se era verdade o
que dizíamos, o que nós tínhamos, aonde eles poderiam ajudar. Mas não
visitaram as Ligas. Vieram, conversaram. Mas logo em seguida Clodomir foi
preso e acho que aí eles se retraíram.
(©
Pernambuco.com, 31.03.2004)
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