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Bruscky empacota suas memórias de arquivista

18/08/2004

Arte por Correspondência, 1975, off-set a cores, carimbo e selo s/papel plastificado

Em 50 anos de Bienal, é a 1ª vez que um pernambucano ganha sala especial na megaexposição

Júlio Cavani
Da equipe do DIARIO

   A obra do artista Paulo Bruscky que está sendo levada para a Bienal de Artes Plásticas de São Paulo tem vários autores e não foi pensada como uma peça artística, apesar de ter sido construída pelo pernambucano ao longo de 16 anos. Quando o curador da megaexposição Alfons Hug visitou o ateliê dele no bairro do Torreão, resolveu levar para uma sala especial da exposição todo o apartamento, com seus 75 mil objetos, entre quadros, livros, folders, catálogos, plantas, textos, fitas cassete, vídeos e outros itens relacionados direta e indiretamente com a sua produção e com a arte contemporânea como um todo. O espaço físico do imóvel está sendo reproduzido no Pavilhão do Ibirapuera sem modificações, com paredes e cômodos (incluindo o banheiro) idênticos e igualmente amontoados de preciosidades. Entrando no espaço, o público vai estar dentro da cabeça de um dos artistas brasileiros mais cheios de informação na memória e nas mãos.

   Em mais de 50 anos de Bienal, Paulo Bruscky é o primeiro pernambucano a ganhar na megaexposição uma sala especial exclusiva, espaço de maior destaque que um artista pode receber na mostra. Ele também é o único nome daqui a marcar presença na Bienal este ano, quando a participação de brasileiros foi reduzida com a extinção da Representação Nacional. Agora, não existe mais um andar dedicado ao Brasil, que divide igual espaço com os outros países. Paralelamente à Bienal, Bruscky participa junto com Daniel Santiago do Salão de Paris, onde a fogueira de gelo feita pela dupla na década de 1970 será remontada e derretida numa homenagem à arte efêmera mundial.

   Ironicamente, apesar da importância e de já ter escrito sobre outros artistas e movimentos, Bruscky nunca teve um catálogo publicado com sua obra, nem em Pernambuco. "Quando Alfons Hug me pediu algum material, alguma foto ou reprodução, eu não tinha nada para lhe entregar", conta. Durante a Bienal, finalmente será publicado um grande livro com uma antologia de sua obra, de autoria de Cristiana Freire. "Uma vez uma jornalista me chamou de egoísta por não compartilhar minha obra com as novas gerações. Mas eu não tenho culpa", lembra, aliviado por não ter mais que passar por constrangimentos como esses. No fim do ano ou em 2005, ele também publica seu livro sobre Vicente do Rego Monteiro, com acabamento igualmente luxuoso.

   Vanguarda - Nas poucas paredes do apartamento que não estão ocupadas por estantes, há quadros produzidos por Bruscky ou registros fotográficos de suas performances. O artista é pioneiro em experimentações artísticas com xerox, fax, carimbos, correio, livro de artista, eletrocardiograma, eletroencefalograma, videoarte, cinema de movimento (os quadros ficam parados e o espectador se movimenta), gelo, instalações ("nunca monto uma mesma duas vezes"), cheiro, relógios, materiais orgânicos e até nuvens, em projetos concretizados ou não.

   No chão e nas prateleiras distribuídas por todo o imóvel, ele guarda tudo o que já foi publicado a seu respeito, documentos de todo tipo (sempre relacionados à arte) e peças originais de movimentosartísticos contemporâneos internacionais como o Gutai e o Fluxus, que teve Yoko Ono entre seus participantes e cujo terceiro maior acervo está nas mãos do pernambucano. Há também raridades como fitas cassetes inéditas gravadas por Hélio Oiticica, gravações originais de nomes como Marcel Duchamp e Marinetti e edições originais da poesia concreta e do poema-processo ("tenho tudo").

   O espaço que ele vai ocupar na Bienal, que não pode ser chamado de instalação, pois não foi pensado assim, tem autoria dele, que montou tudo, do de hug, que teve a idéia do transporte, do arquiteto de seu prédio e de todos os artistas cujos trabalhos estão arquivados nas prateleiras e no chão. O público que visitar a sala vai penetrar, na verdade, em uma parte do cérebro do artista, pois reproduzir sua criatividade e tudo o que ele já viu consciente e inconscientemente é impossível. Além disso, em outro apartamento, onde mora, ele tem mais 22 mil itens. Como bem classificou o artista carioca Ricardo Basbaum a seu respeito, Brusckyé um "artista-ativista-arquivista".

Pernambuco.com)

Com relação a este tema, saiba mais (arquivo NordesteWeb)


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