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18/08/2004
Coisas, do maestro, compositor e arranjador, chega ao mercado depois de décadas fora de catálogo Lauro Lisboa Garcia São Paulo - Poucos discos na história da música brasileira foram tão incensados e disputados por colecionadores nas últimas décadas como o genial e mitológico Coisas, de Moacir Santos. Lançado originalmente em 1965, pela gravadora Forma, de Roberto Quartin, produtor do disco, permaneceu estes anos todos fora de catálogo e só agora, quase 40 anos depois, chega ao CD, pelo selo MP,B, com distribuição da Universal. A iniciativa partiu dos músicos Mario Adnet e Zé Nogueira, responsáveis por outra obra sensacional, o álbum duplo Ouro Negro (2001), que reuniu a elite do instrumental brasileiro recriando obras-primas de Moacir, entre elas algumas destas coisas. Além do CD, os temas de Coisas serão publicados num songbook que vai reunir toda a obra de Moacir. Adnet e Nogueira também estão produzindo um CD de inéditas do compositor. Nascido na pequena Vila Bela, em Pernambuco, Moacir, que completou 80 anos no dia 8 de abril passado, migrou para o Rio de Janeiro no final da década de 40, onde começou a tocar em bailes. Logo passou a integrar a orquestra da Rádio Nacional, na qual permaneceu por 18 anos, no início como saxofonista, depois como maestro e arranjador. Foi professor de ninguém menos que Paulo Moura, Baden Powell, Nara Leão e Eumir Deodato, entre outros. Vivendo desde o final dos anos 60 nos Estados Unidos, ficou um tanto esquecido por aqui. Com o modismo da lounge music algumas de suas Coisas pipocaram, desmerecidamente de maneira redutora, em coletâneas para fundo de conversa. Pelo menos um dos dez temas do disco, o de n.º 5, popularizado como Nanã, está no inconsciente coletivo. Depois de ganhar letra de Mário Telles, virou clássico da bossa nova. A de n.º 2 é outra das mais difundidas. Só agora, no entanto, com o lançamento da obra integral é que as atenções se voltam para sua importância histórica. Isto porque simboliza um manifesto abrangente sobre a grande influência da música negra na mais funda brasilidade, numa época em que qualquer atitude política simbolizava um ato e tanto de coragem. E a afirmação da negritude ainda pairava no plano da utopia. No entanto, como lembra Roberto Quartin no texto de apresentação do disco, Moacir "deu um grito de desespero afinado", sem panfletagem, "dando sentido social à música, sem que para isso se precise mediocrizá-la". Todos intitulados Coisa, com o diferencial dos números de 1 a 10, são temas acima de tudo de uma beleza incontestável. Jazz, samba, bossa e outros ritmos afro-latinos se entrelaçam e se propagam em arranjos sutis e cadenciados. Sem exagero, é um disco para figurar na lista dos mais importantes não só da música brasileira (instrumental ou não), mas mundial. Há procedimentos de composição, harmonia, divisão, orquestração e variedade rítmica, além da qualidade dos músicos, que o situam em pé de igualdade com outros gigantes como Duke Ellington, Miles Davis e Dizzy Gillespie. Tudo soa moderno hoje, como o era há 39 anos, e possibilita descobertas prazerosas a cada audição. Se Moacir e suas Coisas, milionárias em detalhes, foram referência para muito músico bom, devem virar bíblia para os que só agora terão acesso a elas. Para certas gerações de virtuoses com egos inflados, de músicos que tocam para músicos, são alertas de que genialidade e sutileza podem ser complementares. Só que sintetizar tantas boas idéias em apenas 32 minutos não é para qualquer um.
(©
estadao.com.br)
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