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18/08/2004
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O grupo Coco Raízes de
Arcoverde |
Enquanto se preparam para turnê pela Europa,
integrantes festejam aniversário em megaevento no Alto do Cruzeiro
Michelle de Assumpção
Enviada especial
ARCOVERDE -
A festa começou cedo no Sertão de Arcoverde, no último final de semana. Às
6h do sábado, fogos de artifício acordavam a cidade, anunciando a chegada da
Orquestra Filarmônica do município, fundada há 76 anos. Há três anos, a
história se repete: a Filarmônica de Arcoverde faz um pequeno concerto de
retretas e dobrados, em frente à casa onde morou Lula Calixto, falecido em
novembro de 1999. Lula tocou trompa naquela orquestra por mais de 30 anos e
seus músicos fazem questão de lhe prestar homenagem todos os anos, no mesmo
dia em que a comunidade do Alto do Cruzeiro participa de uma grande festa da
música tradicional, por ocasião do sétimo aniversário do grupo Samba de Coco
Raízes de Arcoverde, fundado por Lula e irmãos. Damião Calixto ainda mora na
mesma casa, com a mulher, filhos e netos. Assis, o outro irmão, é vizinho.
Juntos, eles conduzem a grande família do Coco Raízes, que promove a festa e
é ponta-de-lança do surgimento, na cidade, da efervescente cena musical.
A Filarmônica anuncia
o começo de uma festa que
vai durar o dia inteiro e estender-se pela madrugada. Hoje, três anos depois
da primeira festa, a estrutura está maior. São dois palcos. Um em frente ao
Cruzeiro e o outro em frente à sede do Coco Raízes, casa de Damião. A
prefeitura da cidade apóia e o coco também investe. O frio, segundo os
moradores, é o maior de todos os anos: média de 14 graus. Desde cedo, a
parte alta da cidade começa a ficar diferente, cheia de gente da Capital,
visitantes das cidades vizinhas, bandeirolas, clima de festa. Uma
programação foi montada com base na filosofia do grupo: preservar tradições,
criar a partir das raízes, produzir música de qualidade.
Aurinha do Coco, Santa Fogo, Bongar, Forró
Rabecado, afoxé Oyá Alexê, Boi da Macuca, Tonino de Arcoverde, entre outros
grupos locais, revezaram-se da abertura ao encerramento, feito pelo Coco
Raízes, no palco principal, e depois num arrastão até a sede, que terminou
em mais coco e forró até quase o raiar do dia. O Coco Raízes, se já é
soberano quando toca em festivais e shows por cidades grandes, imagine
quando está em casa. Esbanja talento, simpatia e, no ficar mais à vontade,
mostra-se mais como é de fato. Uma família cujos mais velhos naturalmente
repassam bagagem e pé no chão. E os mais jovens aprendem e sonham alto.
Querem viajar, conhecer outros mundos, mais que
seus pais e mães. Isto vai acontecer para todos. Após rescindir contrato com
a produtora que lançou Godê Pavão, segundo CD, o Raízes tornou-se um grupo
independente e vai administrar sua própria carreira. Existe uma negociação
adiantada com a distribuidora de CDs Tratore Records, para o Brasil. O
produtor Marc Regnier (o mesmo responsável pela primeira e pela atual turnê
européia de Silvério Pessoa) vai lançar o disco na Europa e já é certa
(menos o roteiro) a primeira turnê do grupo em terras estrangeiras. O grupo
articula agora a criação de uma ONG cultural para que possa continuar
vivendo dignamente na sua cidade, sem ter que deixar suas raízes para ganhar
dinheiro.
(©
Pernambuco.com)
Pisada do barro atravessou gerações
Até hoje, em
lugares pobres e longínquos do interior do Nordeste, boa parte das casas são
feitas de madeira e barro, chamadas popularmente de taipa. Antigamente, a
feitura de uma moradia deste tipo acontecia à base de muita festa. Matava-se
um bode, comprava-se a cachaça e convidavam-se os amigos. O único
instrumento era um ganzá, feito com lata de leite e caroços de feijão ou
milho. Completava a rítmica, as palmas de mão e o sapateado do povo no chão,
com o objetivo de amaciar o barro e depois jogá-lo, macio, na estrutura de
madeira que formaria as paredes da construção. Era a tapagem da casa. O piso
também estava garantido. E essa música era chamada coco, que já vinha com
sua própria dança (as batidas ritmadas dos pés nos chão).
Chamar alguém para pisar o coco era significado
de trabalho e diversão. No início dos anos 50, sambar em cima do barro era
farra comum num sítio do município de Sertânia, onde nasceram os irmãos
Damião, Luiz, Raimundo e Assis Calixto. Cinquenta anos depois de
acompanharem os pais nas pisadas, pelo menos um deles seria o maior
responsável pela propagação do ritmo pelo interior do Estado. Depois, Damião
e Assis, junto com as famílias, levariam a missão de continuar a difundi-lo.
Os Calixto, que depois de Sertânia foram morar
em Arcoverde - primeira cidade do Sertão pernambucano -, estabeleceram-se no
Alto do Cruzeiro e ali viram o coco (até então restrito às festas de
trabalho, digamos assim) se transformar também em música de rua. Muita gente
fazia coco em casa, mas quem o levou para as festas populares foi Ivo Lopes.
Damião, Raimundo e Assis foram a muitas sambadas de Ivo Lopes, assim como
continuavam a fazer do samba de coco a sua música mais familiar, que
embalava aniversários, casamentos e batizados. Algo como o pagode, que é
trilha sonora nas festas de muitas famílias brasileiras. Quando Ivo Lopes
morreu, ninguém mais fazia coco nas ruas. Não só os irmãos Calixto sentiram
sua falta - eles, que muitas vezes subiram no palco de Ivo para participar
da função -, mas toda a comunidade queria o coco embalando as festas.
Lula Calixto - homem versátil, que tanto vendia
bolos na feira quanto cantava em público e na Orquestra Filarmônica de
Arcoverde -, começou uma verdadeira campanha para botar o coco outra vez nas
ruas. Convenceu os irmãos, que decidiram montar o grupo com a participação
dos mais importantes emboladores de coco da região. Assim, também compuseram
o que depois iria virar o Samba de Coco Raízes de Arcoverde. O grupo foi
crescendo: chegaram as irmãs de Ivo Lopes e Cícero Gomes, outro arcoverdense
que desde menino acompanhava as festas dos Lopes e, já adulto, chegou a
subir no palco para cantar com Ivo, assim como fizeram Calixto, Assis e
Damião.
Formou-se uma grande família. Posteriormente,
desfeita, em parte. Primeiro, pela morte de Lula Calixto, em novembro de 99.
Logo depois, pela saída das irmãs Lopes, que se desentenderam com os
Calixto, e até hoje mantêm de forma menos atuante o grupo Irmãs Lopes. Para
Assis Calixto - que tem em casa uma réplica do melê, instrumento que fazia
às vezes de surdo da época, feito com tronco de coqueiro e borracha esticada
-, o coco é uma herança dos escravos, mas eles, os Calixto e Gomes, criaram
uma batida inédita, o coco de trupé.
(©
Pernambuco.com)
Cidade é escola de música
Assim como
aconteceu no Recife no início dos anos 90, a cidade de Arcoverde começa a
aparecer a partir de uma produção musical pulsante, de uma moçada que sempre
fez música e agora quer levá-la às ruas. Cordel do Fogo Encantado, como
unanimidade, é apontado como o desbravador dos novos mercados. Distante da
estratégia adotada pela banda, que mistura a linguagem dos violeiros com
pegadas mais urbanas e tom profético, o Coco de Arcoverde agora é a bola da
vez. Tradição popular pulsante, sem essa de resgate, a cultura que o Raízes
faz é viva, é do presente. Atrás deles aparecem grupos diversos, que
acreditam na sua estética, mas preferem seguir caminhos próprios. Em
Arcoverde, há desde rock hardcore até trabalhos baseados nas bandas de
pífano.
Quem foi à festa do Coco, pôde conferir a
diversidade musical da cidade. O grupo Contributo, apesar de tecnicamente
ainda precisando de ajustes (e do nome não muito apropriado), apresenta
proposta atraente de música medieval, evidenciando as cordas, com tom
profético,bem ao estilo do que o Cordel fazia em sua primeira fase. Taboca
de Ouro aparece mais maduro, com propostas diferenciadas. Ora é uma banda de
pífanos, ora de uma música de pegada mais forte, cujo vocalista Alberone
Padilha (que tocou na 1ªfase do Cordel do Fogo Encantado) define como uma
leitura particular dos sons de sua região, especialmente aboio e baião. Ele,
que desistiu de fazer música no Recife e voltou para Arcoverde, diz que a
realidade é difícil mas, no momento, Arcoverde é uma escola de música
popular.
O violeiro Tonino Arcoverde, da escola de Vital
Farias, também presente na festa do coco, lembrou o passado musical da
cidade: a música dos aboiadores. Sem falar que o pequeno Luiz Calixto, 4
anos, sobrinho neto do falecido Lula e menor integrante do grupo Coco Mirim
Raízes de Arcoverde, garante com inteligência a eficiência da transmissão
oral dos conhecimentos da cultura popular em Arcoverde. Pelo menos por mais
duas gerações.
(©
Pernambuco.com)
Instrumentos
O trupé é a
característica rítmica mais marcante da música do coco Raízes de Arcoverde.
Seus integrantes explicam que o coco de ajuntar (aquele que servia para
criar as casas de taipa) apresentava uma estrutura mais simples e
descompassada. Na formação do Coco Raízes, foi Lula Calixto quem teve a
idéia de criar os tamancos, para que as batidas dos pés no chão ficassem
mais audíveis.
Elas
reproduzem o mesmo toque do surdo, no momento da embolada, segunda parte do
samba de coco. A primeira, quando se cantam os versos, os dançarinos ficam
na parcela (marcação de coco parecida com o coco dançado no litoral).
Somente na parte embolada (quando os versos ficam mais ligeiros) é que se
dança o trupé. Além dos tamancos e do surdo, também acompanham a música do
coco o ganzá, triângulo e pandeiro.
(©
Pernambuco.com)
Com relação a este tema, saiba mais
(arquivo NordesteWeb)
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