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27/08/2004
Cena musical pernambucana caminha a passos largos rumo à independência: bandas gravam aqui os discos e público está ávido pelo produto RAFAEL GUERRA Alguns passos para a cena musical pernambucana se tornar auto-sustentável estão sendo dados. As bandas independentes já conseguem gravar seus discos e lançar, ainda que precariamente, no mercado. O público jovem começa a consumir a música pop local, casas noturnas estão abrindo já com o propósito de servir de palco para as bandas daqui. Junto com essas peças, há mais uma que é de fundamental importância e significa muito para este tipo de modelo independente que se implanta, espontaneamente, no Estado: estúdios e produtores evoluíram bastante em pouco tempo e hoje já se pode gravar um disco com qualidade profissional sem sair do Estado, com custos bastante razoáveis. A tecnologia digital ajudou bastante. Os softwares de gravação e mixagem baratearam o processo. O mais importante de tudo, porém, é a dedicação das poucas pessoas que trabalham com isso, pesquisando e estudando para se aperfeiçoar, conseguindo superar muitas das dificuldades locais. De 2003 até o primeiro semestre de 2004, uma enxurrada de discos independentes de bandas pernambucanas foi lançada, todos com boa parte da produção realizada no Estado. Os exemplos vão desde bandas novas, como Vamoz! e Mombojó e até ‘medalhões’ como Eddie e Mundo Livre S/A. É curioso observar que, apesar dos estúdios locais ainda estarem a anos-luz de distância dos concorrentes do eixo Rio-São Paulo em termos de equipamentos, o resultado dos trabalhos que são feitos aqui conseguem ficar praticamente no mesmo nível das grandes produções. É como se a precariedade dos equipamentos obrigasse os produtores a usar mais a criatividade, a tirar leite de pedra. Zé Guilherme Lima, músico, produtor musical e técnico de gravação, é um dos mais atuantes profissionais desse mercado independente. Ele acredita no potencial da cena e diz que a insuficiência de equipamentos atrapalha um pouco, mas também tem seu lado positivo. “A deficiência torna as produções menos viciadas”, explica Zé Guilherme. Como produtor, ele já trabalhou com bandas como A Roda e Superoutro (Autópsia de um Sonho), participou das gravações dos discos de Mombojó (Nada de Novo), Mundo Livre S/A (O Outro Mundo de Manuela Rosário), Suvaca di Prata (Corega Check) e Mula Manca e a Triste Figura (Circo da Solidão), entre outros. Atualmente, trabalha na finalização da bolacha do grupo de música regional Azabumba e num trabalho mais pretensioso, o disco de Sivuca com a Orquestra Sinfônica de Recife. O mercado fonográfico dá demonstração de crescimento e já está mais fácil comprar instrumentos, gravar discos e divulgar o trabalho. Preconceitos são rompidos, o que se reflete no aumento do consumo da música pop feita aqui. Com isso, é natural que os estúdios acompanhem o avanço. É mais uma peça neste quebra-cabeça que está sendo formado. Partes importantes já estão montadas, mas ainda faltam pedaços estratégicos, como a veiculação no rádio e televisão, para um maior volume de dinheiro começar a circular e a cena se tornar economicamente viável. Artisticamente, ela já vingou, há uma década. (© JC Online) Vontade de fazer bem-feito aplaca dificuldades Os principais estúdios que funcionam no Recife são: Fábrika, comandado por Pablo Lopes, Mr. Mouse, de Léo D. e William P., o Estúdio do Poço, de Gabriel Furtado, o Batuka, de Berna Vieira, e o Musak. Leo e Willam, que também respondem pela alcunha de Mad Mud, acham que os discos feitos aqui não estão devendo quase nada aos produzidos no Sul e Sudeste. “Conseguimos fazer uma produção que chega a 80% de uma top de linha, só que com 10% da grana e dos equipamentos”, explica Leo D. Passaram pela mão da dupla os discos de estréia da Vamoz! e do Astronautas, além de metade da produção do Nada de Novo – a outra metade ficou a cargo de Igor Medeiros. O segundo do Astronautas já foi finalizado no Mr. Mouse, com lançamento previsto para o fim do mês. Agora eles estão mixando o primeiro álbum da Parafusa. Para Leo e William, só falta o dinheiro começar a circular para as produções ficarem cada vez mais profissionais. “Por enquanto ainda não dá para fugir da realidade local, mas a vontade de fazer, neste nosso caso, é muito importante”, afirmou William P. “A atitude das pessoas que fazem e produzem música no Estado ajuda bastante a melhorar a qualidade dos produtos”, completou Leo D. Para a dupla, a diferença dos preços daqui e do Rio e São Paulo são absurdos. Se a comparação for feita com a produção realizada nos Estados Unidos e na Europa, a distância das cifras sobe ainda mais. “Essa precariedade não nos impede de tentar se assemelhar às melhores sessões de gravação do mundo”, desabafa Leo D. Outros nomes que estão batalhando para o melhor funcionamento deste ‘novo mercado fonográfico recifense’, além de todos os já citados acima, são alguns músicos que também trabalham como produtores. Fábio Trummer, por exemplo, vocalista e líder da Eddie, produziu, recentemente, o disco da Mula Manca e atualmente trabalha na realização da trilha sonora do filme Orange de Itamaracá. (© JC Online) Masterização e prensagem são o ‘x’da questão O processo de feitura de um disco passa por várias etapas. De uma maneira em geral, na pré-produção, os músicos se reúnem com os produtores musicais para discutir questões de timbre e arranjo das músicas. A segunda fase é a gravação em estúdio. Depois acontece a mixagem, a masterização e, por fim, para o disco chegar às lojas, existe a prensagem. Estes dois últimos são os mais problemáticos para quem trabalha de forma independente. Das bandas que lançaram discos neste último ano, algumas optaram por fazer a masterização em São Paulo, como Mombojó, a Roda e Suvaca di Prata. Para Pablo Lopes, do estúdio Fábrika, que é praticamente o único refúgio para quem opta por masterizar no Recife, a maior diferença é que em São Paulo e no Rio de Janeiro, há estúdios que só trabalham fazendo as masters. “No Classic Master (SP) e Magic Master (RJ), os investimentos são exclusivamente em equipamentos e mão-de-obra especializados. Aqui no Fabrika, fazemos todas as etapas e o programa que a gente usa para masterizar é o Pro-Tools, que não é um software específico para a master”, explicou Pablo. Pablo garante que não existe mais problema com deficiência técnica no processo de masterização. “Há um conjunto de fatores que comprometem o resultado final. Falta de grana, falta de produtores executivos, ou seja, o próprio mercado fonográfico da cidade que ainda não dá suporte para os artistas se dedicarem exclusivamente à música”, explicou o produtor. “Quem tem grana e escolhe masterizar fora é porque quer dar um know-how nacional ao trabalho. As bandas que finalizaram no Fabrika saíram satisfeitas com o resultado”, complementou. Já para a prensagem dos discos de uma forma profissional, Recife não oferece opções. Quem quiser fazer as bolachas em uma fábrica tem que optar ou pela Microservice (Manaus) ou a CD + (no Ceará). (© JC Online)
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