|
27/08/2004
Mauro Ventura
Enviado especial LENÇÓIS MARANHENSES
O diretor Andrucha Waddington grita “Ação!” e a atriz Fernanda Montenegro,
ao volante de um jipe de 50 anos, tenta avançar com o carro. O ensaio não dá
certo.— É uma areia muito fofa e a embreagem é violentamente dura. Tentei
dirigir e me dei mal — diz ela. — Não vamos perder tempo. Põe gente com
experiência e manda ver.
No dia seguinte, na hora da filmagem, é a atriz e preparadora de elenco Laís
Corrêa quem está ao volante. Mesmo assim, o jipe atola. Sete homens chegam
para empurrar o carro. Nova tentativa, novo atolamento, novo resgate. A cena
tem que ser refeita, e é preciso empurrar mais uma vez o veículo. As horas
se passam, sob o sol forte, a areia fina, o vento intermitente e as dunas
mutantes dos Lençóis Maranhenses. O trecho não vai durar mais do que dez
segundos na tela, mas leva três horas para ser feito. No fim, Fernanda
elogia o desempenho de sua dublê:
— Vamos dar uma salva de palmas para a Laís!
O set de filmagens do drama “Casa de areia”, produção da Conspiração Filmes
e da Columbia prevista para estrear em maio do ano que vem, é um burburinho
incessante. Enquanto Andrucha prepara a cena, Fernanda tem sua maquiagem
retocada. Ao seu lado, Fernanda Torres gasta o tempo à espera de filmar
fazendo tranças de renda. Perto dali, a assistente de direção Maria Clara
Abreu aproveita os raros minutos de folga para fazer shiatsu com Roberta
Gomez, casada com o primeiro assistente de câmera Cristiano Conceição. Por
R$ 10, ela faz quick massage — massagem rápida — que dura 15
minutos.
— Você vai trazendo pequenos luxos para cá. É o jeito de ir sobrevivendo na
selva — diz Pedro Buarque, um dos produtores do filme.
Cidade ganhou filial de pizzaria
Entre outros confortos, há uma festa na véspera das folgas — uma a cada
cinco dias — e um bufê caprichado no set.
— Quando não tem boa cozinha é um tormento geral — diz Fernanda. — Já fiz
filme em que houve brigas sérias porque só tinha almôndega. Teve um levante
em “A falecida”.
Desde o dia 1 de julho, uma equipe de 230 pessoas — 80 do Rio e 150 da
região — transformou a vida da pacata Santo Amaro do Maranhão, cidadezinha
de chão de areia e poucas ruas de tijolo colada ao Parque Nacional dos
Lençóis Maranhenses.
O PIB da cidade deu um salto. As quatro pousadas — todas construídas este
ano — foram alugadas pela produção. A sede da colônia de pescadores foi
transformada em escritório. Uma placa na porta do restaurante também é
recente: “Maggiorasca”. É o nome de uma pizzaria da capital do estado, São
Luís. Andrucha insistiu tanto com o dono que ele abriu uma filial em Santo
Amaro. As prateleiras da pequena farmácia local se encheram de protetores
solares, soros reidratantes, energéticos e remédios para dor de barriga e
dor de garganta.
A rotina no set é estafante, por conta do sol forte, das 12 horas diárias de
trabalho, das filmagens que muitas vezes começam às 4h, da areia que
entranha até nos dentes e das longas distâncias enfrentadas aos solavancos
de jipe. Alguém faz o trocadilho “Estamos em maus lençóis”, mas ninguém
concorda. Para amenizar o desconforto, Fernanda Torres levou Joaquim, de 4
anos, filho da atriz com Andrucha.
— Você vai se minando e tem que ir se segurando igual soldado — diz ela.
O sol é combatido com dois filtros solares.
— Isso aqui é um enorme microondas. Fui na dermatologista e fiz um crediário
de cremes — brinca a atriz, que, assim como Andrucha, dá mergulhos diários
nas lagoas. — O Seu Jorge ( que interpreta o líder de um quilombo )
descascou de tanto sol. Brinquei: “Se até você está descascando o negócio
aqui está brabo”.
As condições adversas são enfrentadas sem reclamações por sua mãe.
— Quando chega aqui você leva um impacto. Seus olhos se enchem de água. Mas,
seis semanas depois, você se agarra no trabalho. É a sua terapia — diz
Fernanda Montenegro, de 74 anos. — Em “Central do Brasil”, fiquei 40 dias no
sertão. Mas aqui é mais confinado.
Desde 1 de julho, ela só se ausentou do set por quatro dias, aproveitando
uma folga nas filmagens.
— Tive uma ligeira insolação e desidratação. Voltei ao Rio para dar uma
checada geral — conta.
O mal-estar veio depois de esperar uma hora e meia por uma nuvem.
— No dia anterior, tínhamos começado a filmar a cena com céu coberto. Então,
era preciso esperar uma nuvem cobrir o sol e equalizar a luz.
Mas as nuvens vinham, passavam ao largo do sol e nada.
— Aqui a natureza é quem manda — diz Buarque.
Tem horas que dá para usar a natureza a favor do filme, como na cena em que
a personagem de Fernanda Torres acorda após dormir com o tenente vivido por
Enrique Diaz. Já tinham sido rodados cinco takes quando Andrucha viu a
tempestade vindo ao longe.
— Falei: “Vamos rodar também com chuva.” Tivemos três minutos para armar
tudo. Acabou dando dramaticidade à cena. No fim, a equipe inteira vibrou com
o resultado — conta ele, barba de dois meses, os 30 cigarros diários
aumentados aqui para dois maços e meio.
A mesma chuva que ajudou num dia atrapalhou no outro. O plano de filmagens
teve que ser todo mudado por causa de um aguaceiro que caiu de manhã. Mais
tarde, o sol voltou e, com ele, o planejamento inicial. Mas o barulho
provocado pelo vento transformou a filmagem em ensaio.
— É uma briga muito dura com a natureza — reconhece o diretor de fotografia,
Ricardo Della Rosa.
(©
O Globo)
Operação de guerra para produzir filme no deserto
A idéia do filme “Casa de areia”, que tem roteiro da antropóloga Elena
Soárez e orçamento de R$ 8,2 milhões, surgiu de uma conversa de Andrucha com
o produtor Luiz Carlos Barreto.
— Em 2000, eu estava indo embora de uma festa, às 2h da manhã, quando ele me
falou da foto de uma casa enterrada pela areia. Sonhei com o assunto,
acordei e falei com ele. Ficamos um ano trabalhando na elaboração do
argumento — lembra o diretor.
Foto em botequim deu a idéia para o filme
A foto estava na parede de um botequim a 200 quilômetros de Fortaleza. Uma
mulher tinha passado a vida varrendo a areia que o vento botava na casa, até
que ela morreu e o lugar foi soterrado. O elenco tem ainda os músicos Seu
Jorge, Luiz Melodia e Jorge Mautner, além de Ruy Guerra, Stênio Garcia e
Emiliano Queiroz. Melodia faz sua estréia no cinema. Ele interpreta o mesmo
papel, vivido na juventude, por Seu Jorge.
— Estou mais ansioso que nervoso. Só não posso rir em cena — explica ele,
exibindo três brilhantes incrustados nos dentes.
Sua maquiagem levou quase duas horas para ser feita. Mais que o tom grisalho
aplicado nos cabelos, o que deu trabalho foi esconder os dreadlocks que há
cinco anos enfeitam sua cabeça.
O dia-a-dia de Santo Amaro vai voltar à sonolência habitual a partir da
próxima semana, quando se encerram as filmagens. Até lá, é possível ver a
pousada da mulher do prefeito, Alzenira Azevedo Carneiro, toda alugada para
a produção, a um custo de R$ 3 mil por mês.
— Temos muita gente desempregada aqui. Qualquer real que entra a mais já é
muito bem-vindo para a cidade — diz ela.
Os criadores de animais também sentirão falta de Andrucha e companhia. Eles
alugam cada cabra a R$ 1 por dia — já foram usadas mais de 1.500 — e cada
jegue a R$ 25. Os 12 búfalos saíram a R$ 1.200 a diária.
É uma operação de guerra, como diz o produtor Pedro Buarque, que envolve
três tratores, dois caminhões e a construção de 14 cenários. As primeiras
barracas feitas para proteger os equipamentos quebraram, assim como quatro
câmeras. Pior sorte tiveram os carros. Dos 22 alugados pela produção, em
certo momento só sete não estavam na oficina.
— Os carros são os maiores heróis do filme — diz Fernanda Torres.
O ator Emiliano Queiroz atolou com o jipe e teve que esperar quase duas
horas no sol.
— Apareceu um turista e disse: “Vou tirar o Dirceu Borboleta daqui” — diz o
ator, referindo-se a seu personagem na novela “O bem amado.” — Com um cabo
de aço ele nos puxou e depois tirou foto.
A maior parte do filme — 85% — foi feita fora do Parque Nacional, por conta
das restrições ambientais. Lençóis Maranhenses já foi chamado de o Saara
brasileiro — com a diferença de que a areia é pontilhada por lagoas e
igarapés. Mas, na tela, o cenário paradisíaco de deserto à beira-mar tem que
perder o glamour, para contar a história de uma mulher ao longo de três
gerações. Durante 59 anos, ela se debate entre sair ou ficar no areal, para
onde foi levada pelo marido, que comprou as terras imaginando que eram
produtivas. A trama se passa em 1910, em 1919, em 1942 e em 1969.
— Na vida real, é um cartão-postal, mas, no filme, a paisagem é áspera,
inóspita. A água é preta e o céu é branco, e não azul — diz Andrucha, que
tem dormido em média três horas por noite. — Não sei que dia do mês ou da
semana é hoje. Sei que é o dia 36 da filmagem.
(©
O Globo)
Com relação a este tema, saiba mais
(arquivo NordesteWeb)
|
|