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Caravanas culturais

28/08/2004

Obra sem título de João Câmara, no Instituto Ricardo Brennand

Listar referências da cultura pernambucana que ganharam dimensão nacional está longe de ser tarefa difícil. Mas, além do maracatu e da carne de sol, há muitos outros produtos que acabam limitados ao estado por diversos fatores, sobretudo a distância geográfica. Esse sentimento, recorrente entre os artistas locais, motivou a criação do projeto Pernambuco Cultural, cuja proposta é levar eventos de gastronomia, música, dança, teatro, cinema, literatura, moda e arquitetura da terra aos outros estados.

   - A idéia é selecionar um módulo itinerante a cada ano. Pretendemos começar as caravanas em 2005 com um evento de gastronomia em Santa Catarina ou um de literatura em Minas Gerais - explicou o poeta e jornalista Orismar Rodrigues, idealizador do projeto.

   Apoiado pelo governo do estado e patrocinado por diversas empresas, o projeto foi lançado com pompa no começo da semana, com uma festa no Instituto Ricardo Brennand (IRB), no bairro da Várzea, em Recife. A escolha do castelo suntuoso não foi à toa. Inaugurado em 2002 para abrigar a coleção de armas medievais e arte sacra do empresário de 77 anos - que é primo do escultor Francisco Brennand - o espaço recebeu nos últimos anos exposições importantes, como a que reuniu obras do pintor holandês Albert Eckhout (1610-1666), mas jamais tinha sido palco de mostras dedicadas à arte do estado. Um exemplo de que mesmo em território pernambucano a arte local tem espaços a explorar.

   Atividades diversas, como apresentações de grupos de maracatu e caboclinhos e distribuição de folhetos de cordel serviram de introdução para o mais importante evento da noite: a abertura da exposição que reúne 27 artistas locais de diversas vertentes, do consagrado Cícero Dias, morto ano passado, até contemporâneos como Tunga e Abelardo da Hora.

   - Tínhamos receio de desestabilizar as galerias do Recife se déssemos espaço a mostras de artistas locais aqui no Instituto. Como essa exposição é uma coletiva e tem esse enfoque de divulgar a arte do estado, achei que seria uma boa experiência - explicou Ricardo, que optou por organizar a mostra na sala ao lado da que abriga a exposição permanente com telas do holandês Frans Post.

   Boa parte dos 50 quadros é desconhecida do grande público por ter sido selecionada em acervos particulares ou nos próprios ateliês dos artistas. É o caso dos trabalhos de Gil Vicente, João Câmara, Guita Charifker e Lula Cardoso Ayres. O Instituto enriquece a lista com três quadros de Telles Júnior do acervo de Ricardo Brennand. O gravurista Gilvan Samico, que tem ampla exposição em cartaz na Pinacoteca de São Paulo até outubro, comparece no IRB com duas xilogravuras.

   - Mesmo os artistas selecionados que não nasceram no estado fazem arte pernambucana, por isso puderam ser incorporados à mostra. Alguns têm importância nacional, como a francesa Marianne Peretti, que fez os vitrais da Catedral de Brasília. Há muita coisa rica nos acervos particulares que merecem vir a público - atestou Orismar. (H.A.)

*A repórter viajou a convite da produção do evento.

JB Online)


Arte pernambucana ocupa o IRB
Publicado em 23.08.2004

Infográfico
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Mostra reúne 25 artistas plásticos pernambucanos sob curadoria do jornalista e poeta Orismar Rodrigues, que na ocasião também lança edição de luxo de sua antologia

OLÍVIA MINDÊLO

   Depois de sediar as exposições dos holandeses Albert Eckhout e Frans Post, o Instituto Ricardo Brennand reabre as portas hoje para promover a primeira edição do Pernambuco Cultural, evento que pretende celebrar todos os anos diferentes manifestações culturais do Estado, desde as artes plásticas à literatura. Idealizado pelo colunista e poeta Orismar Rodrigues, o projeto traz como carro-chefe exposição inédita, que reúne no local obras de coleções particulares assinadas por 25 artistas plásticos pernambucanos de diferentes estilos e influências.

   Telas, esculturas, xilogravuras e desenhos compõem a mostra, que fica em cartaz durante um mês no IRB e poderá ser apreciada pelo público a partir de amanhã. “Selecionei os artistas plásticos mais representativos do Estado, para mim os melhores”, assinala Orismar Rodrigues, responsável pela curadoria da exposição, que também contempla peças de sua coleção pessoal e do acervo do instituto.

   Trabalhos raros e antológicos de artistas consagrados de Pernambuco, como Cícero Dias (falecido no ano passado), João Câmara e Gil Vicente, por exemplo, muitas vezes restritos a poucos olhares contempladores e que por isso acabam desconhecidos pela maioria, poderão ser vistos no local. São cerca de 50 obras ao todo, que integram conjuntos de peças em óleo e acrílica sobre tela, madeira e eucatex, técnica mista, arte em aço, lápis de cera, aquarela, desenho, escultura em bronze e arte sobre madeira - as famosas xilogravuras, que se tornaram marca em Pernambuco nas mãos de Jota Borges e seus discípulos, no Agreste.

   Numa versão revisitada e moderna, os quadros em xilogravura de Samico, expostos no IRB, são exemplo de como a técnica, tão usada para ilustrar os livretos da literatura de cordel, é uma marca na identidade e no processo de criação dos artistas que têm referência na cultura popular local.

   Mas são as pinturas que compõem a maior parte do conjunto de obras da exposição, com destaque para as telas de grandes proporções. Nesse quesito, os trabalhos de Lula Cardoso Ayres, Luciano Pinheiro, Guita Charifker, Tereza Costa Rêgo, Gil Vicente e João Câmara já valem a ida ao castelo dos Brennand, na Várzea. O paraibano João Câmara, que firmou sua produção artística em Pernambuco, estará representado na mostra com quatro telas em óleo sobre madeira. Já Guita Charifker terá aquarelas, A Casa Nova e o Jardim e Sítio Santa Clara.

   As esculturas também são evidentes na exposição, através das peças de Eudes Mota, Tunga, Mirella Andreotti, Marianne Peretti e, como não poderia deixar de Ser, Abelardo da Hora, conhecido por suas peças inspiradas na nudez feminina. Ele compõe o local com a escultura Nega Fulô, feita em bronze.

   O Instituto Ricardo Brennand entra na mostra do Pernambuco Cultural com três obras de seu acervo: Souvenir de Campo Grande, Panorama da Praia de Gaibu e Estrada da Matriz da Várzea para o Engenho do Meio, todas assinadas por Telles Júnior, em 1922, ano em que se inaugurava no País a arte de vanguarda, com a Semana de Arte Moderna.

   ABERTURA – A festa de hoje à noite, reservada para convidados, abre o projeto com o lançamento da edição de luxo do livro Antologia Poética (ed. Íbis Libris), de Orismar Rodrigues. Na ocasião, um exemplar será doado à biblioteca do instituto, que será aberta ao público amanhã. “Não haverá noite de autógrafos. Farei as dedicatórias e depois entregaremos os exemplares onde as pessoas desejarem”, explica o jornalista.

   Apresentações de dança e música popular e erudita fazem parte da celebração. “Tudo o que se faz em favor da exaltação dos valores culturais de Pernambuco merece o melhor incentivo. Esse evento é um referencial de estímulo à cultura local e de resgate às nossas raízes”, resume Ricardo Brennand.

JC Online)

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