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Poeta colhe palavras num campo de imagens que brotam na mente

28/08/2004

Geografia Íntima do Deserto, obra de Micheliny Verunschk

Micheliny Verunschk é finalista do Portugal Telecom

LUCIANA ARAUJO
DA REDAÇÃO

   A poeta Micheliny Verunschk, 32, é a única mulher, a única estreante, a única nordestina e a mais jovem entre os dez finalistas que concorrem ao Prêmio Portugal Telecom de Literatura Brasileira. A lista foi divulgada no último dia 10. O vencedores serão conhecidos no dia 9 de novembro, mas a indicação já revela a singularidade da escritora.

   Nascida em Recife, Micheliny tem raízes em Arcoverde, primeira cidade do sertão pernambucano. Ali, onde a seca assola e falta água, cresceu a poeta, em meio à fertilidade de manifestações culturais. Samba-de-coco, coco raízes e reisado. Entretanto não é daí que brota sua poesia.

   "Geografia Íntima do Deserto" (Landy, 2003), que concorre ao prêmio, ao contrário do que pode sugerir o título e a associação deste com a biografia da autora, nada tem desse imaginário nordestino. É "poesia do não-lugar". "Procuro não deixá-la datada", diz.

   Contra os rótulos, para ela, "poesia não tem gênero, local, etnia ou temática. O poeta tem de fingir que não é ele sendo ele mesmo. Sou uma farsante", se diverte com a idéia. "Não é porque sou mulher que minha poesia tem de ser erótica ou cor-de-rosa."

   Micheliny cria a partir de imagens. "Tento transformar imagens em palavras. Travo uma luta com as palavras. Elas fogem. Preciso laçá-las. Escolho ritmos e metáforas para traduzi-las. O poema me acompanha por alguns dias de gestação. É muito triste quando não consigo fazê-lo nascer."

   Segundo ela, esse processo nada tem a ver com inspiração, mas com elaboração. "Para construir um edifício de palavras, a base precisa ser firme. Caso contrário, o prédio fica torto e não é a Torre de Pisa", compara.

   "O rei está nu e no jornal", diz Micheliny, se referindo ao interesse que seu trabalho vem despertando. "Temo ser a bola da vez. O que quero é fazer bons poemas. Não quero me tornar uma escritora profissional. Enquanto achar que há um poema bom, continuo a publicar. Se não, não publico."

   Micheliny se considera tímida, mas vê como especial a possibilidade de ser instrumento de destaque para a poesia. "Ela é o patinho feio da literatura. Quando a poesia aparece, é importante aproveitar o momento. Dar voz aos contemporâneos, revelar aqueles que ainda têm uma estrada por fazer."

   Nesse caminho, o objetivo de Micheliny é passar pelo crivo de sua autocrítica. "Preciso muito escrever bem. Reescreveria o "Geografia Íntima.." todinho. Meu exemplar está todo rabiscado."

Origens

   Filha de um militar e de uma professora de geografia, diz que isso não tem relação com o título do livro. No entanto não nega a influência dos pais em sua formação. "Desde muito cedo ganhava livros. Era colocada para dormir ouvindo poemas", recorda. Hoje, ambos são seus leitores. "Eles são críticos e deslumbrados pelo monstro que criaram", brinca.

   Micheliny começou a cursar faculdade de psicologia, no Recife, mas não se identificou. Optou pela história, que cursou em Arcoverde, motivada por uma leitura "um pouco torta", nas palavras dela. "Não queria fazer letras, mas gostava de literatura. Escolhi história, porque toda história é uma invenção, uma ficção a partir da visão de um herói", avalia.

   Em São Paulo desde fevereiro, atualmente trabalha como revisora no Instituto Itaú Cultural e acaba de iniciar mestrado em crítica literária na Pontifícia Universidade Católica (PUC). Os alvos de sua investigação acadêmica são os ensaios "Sobre a Cegueira" e "Sobre a Lucidez", do escritor português José Saramago.

   Entre os trabalhos que vem desenvolvendo está um livro-calendário de contos, "Uma Lua de Doidos". "A idéia é escrever um conto de louco para cada dia do ano. O mês de fevereiro está pronto", comemora. Está também "exercitando" um romance. "É a história de uma santa suicida", conta e ri, como que intimidada por sua própria ousadia.

   Há ainda um livro para crianças, "Pé de Pimenta e Outros Poemas Peraltas", além da continuação de uma trilogia, a qual teve como primeiro título seu "Geografia Íntima do Deserto". O segundo deverá se chamar "A Cartografia da Noite". Micheliny espera visualizar "aparição" que transformará em poemas no terceiro livro da série.

Folha de S. Paulo)


Desprendimento vai ajudar na leitura
Publicado em 23.08.2004

SCHNEIDER CARPEGGIANI

   Orismar Rodrigues ganha enfim uma edição funcional da sua poesia. A sua Antologia Poética, organizada pela poeta Lucila Nogueira, não tem nada a ver com o álbum Poemas de Amor Erótico – em que as páginas eram lâminas ornamentadas por trabalhos de artistas plásticos feitos para o projeto. Ou mesmo com a ‘roupa de gala’, a cargo da Ibis Libris, com a qual essa mesma antologia se veste para a festa de hoje à noite no IRB.

   Lançada via Editora Landy, Orismar Rodrigues – Antologia Poética é um livro que apresenta Orismar – o poeta, não o colunista social – para iniciantes e, pela primeira vez, para leitores de todo o Brasil.

   Em versão sóbria, ele chega às livrarias apenas como poesia, e não fanfarra.

   Livre do aparato que cerca sua imagem pública (estigma que tanto divulga quanto embaça sua poesia, e também céu e inferno que ele entende bem), Orismar Rodrigues prova na antologia que tem fôlego distante da coluna diária que assina. Os seus dois universos de atuação não só são bem distintos, quanto conscientemente bem separados entre si pelo próprio autor.

   Sua poesia é trágica, solitária e objetiva. Em todas as fases presentes na antologia, Orismar se mostra mais preocupado em narrar uma angústia, uma lembrança súbita ou alguma epifania qualquer durante uma viagem do que se prender a correntes literárias fixas.

   De fácil diálogo, ele escreve como quem chega, conta uma história pelo meio e deixa para o interlocutor/o leitor a tarefa de completar as lacunas do início e do fim. Cada um constrói sua própria trilha na hora de ler um poema, e Orismar parece saber bem disso.

   Apesar de escrito em primeira pessoa, seus textos não devem ser lidos como uma simples colcha de retalhos biográficos. Sempre é uma armadilha (daquelas fáceis de tropeçar) achar que literatura é um carbono da vida. Poesia é um exercício de redimensionar experiências, lição que Orismar aprendeu e coloca em prática com maestria, sobretudo quando escreve e reinventa haicais – formato que pede imagens rápidas e efeitos prolongados na cabeça de quem lê. Antologia Poética é uma boa surpresa para os iniciados. E para um melhor efeito dos seus textos, esqueça o colunista.

JC Online)

Com relação a este tema, saiba mais (arquivo NordesteWeb)


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