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28/08/2004
Depois de anos inacessível por ação da censura e da má conservação, o aclamado documentário volta à tela Rodrigo Fonseca No princípio, era o risco: fazer um filme-denúncia sobre as mazelas do homem sertanejo no Rio do Peixe, vale dos confins da Paraíba, em plena ditadura militar. No fim, também. Só que dessa vez, era o risco de extinção, devido à conservação irregular, de uma obra-prima do cinema documentário nacional. Graças a esforços de seu diretor, Vladimir Carvalho, e do Centro de Pesquisadores do Cinema Brasileiro, O país de São Saruê - longa-metragem filmado de 1966 a 1970, concluído e interditado pela censura em 1971 e só exibido em 1979 - finalmente está salvo do perigo de ''virar água'', como definiu o montador Francisco Sérgio Moreira, responsável pela delicada restauração da fita, que estava com os dias contados. O resultado da recauchutagem de O país de São Saruê - realizada ao custo de R$ 100 mil, com patrocínio da Petrobrás Distribuidora - será exibido no dia 14 no Cine Odeon Br. Ela circulará novamente no Festival do Rio - de 23 de setembro a 7 de outubro -, pondo um ponto final na azarada trajetória do longa. - Filme, para quem faz, vira um parente. E esse ''meu filho'' já nasceu preso, me deixou nove anos aguardando sua libertação e, quase no fim da vida, precisou ser safenado para sobreviver - brinca Vladimir, que nos anos 70 lutou com afinco pela liberação do longa junto à Divisão de Censura de Diversões Públicas. - Hoje, censura não significa muita coisa. No tempo da ditadura Médici, ela representou a falência de muitos diretores, que tiveram seus filmes proibidos. O país... foi interditado com a alegação de que ''feria os interesses nacionais e a dignidade brasileira''. Na época, mesmo sabendo disso, eu o inscrevi no Festival de Brasília, que conseguia passar filmes vetados. Não tive sorte. Arrancaram ele da mostra, desrespeitando a comissão de seleção que o classificou, e puseram no lugar Brasil bom de bola, sobre futebol - lembra Vladimir, que tirou o nome do filme de um cordel. O texto refere-se a Saruê como uma terra prometida - conceito bem contrário à miséria mostrada no documentário. No início da semana, o documentarista pôde conferir nos laboratórios da Labocine, em Vila Isabel, o ''tratamento'' dado ao filme, ao lado de seu irmão, Walter Carvalho, aclamado diretor de fotografia e responsável pela marcação de luz nos fotogramas restaurados. Foi em O país de São Saruê que Walter, ainda adolescente, debutou no cinema, como assistente de direção de Vladimir. - O primeiro curso de cinema que fiz na vida foi O país de São Saruê. Nele, eu fiz tudo, desde desenhar letreiros até tirar fotos de cena. Era um filme feito por uma equipe de três pessoas: meu irmão, o fotógrafo Manoel Clemente e eu, sem ganhar nada - lembra Walter. Ele atribui ao irmão sua opção pela arte de filmar. - Por ser 13 anos mais velho, Vladimir me influenciou muito. Alguém que dá João Cabral de Mello Neto para um jovem ler tem culpa no cartório. Eu perdi minha virgindade cinematográfica com São Saruê e acabei virando dependente químico. A restauração do documentário - que, em 1980, depois de liberado ganhou o prêmio especial do júri no Festival de Brasília - foi feita a partir de um negativo ampliado para 35mm a partir do original, em 16mm. Riscos finos, que marcavam toda a seqüência de abertura, foram eliminados; as manchas, diminuídas. Além disso, cerca de três minutos necessitaram de intervenção digital. A matriz de som teve de ser inteiramente tratada por computador. - O filme estava com seu atestado de óbito assinado. Agora, ele está salvo - afirma Francisco Sérgio, que comandou o restauro na Labocine. A visão do restaurador sobre a situação dos clássicos brasileiros não é das mais otimistas: - O cinema brasileiro está podre. Não há um filme livre de fungo. Um dia desses, o (Eduardo) Coutinho me disse que o negativo de Cabra marcado para morrer está indo embora. Estamos falando de um clássico, lançado há 20 anos. É necessária uma política de restauração urgente. Com a segurança de ver o filme protegido, Vladimir só lamenta que a árida realidade nordestina que documentou em 60 tenha mudado pouco: - O sertão de São Saruê só desapareceu superficialmente. Hoje, vaqueiro anda de motocicleta, com boné de time de beisebol na cabeça. Os centauros encourados de antes viraram uma assombração, como se o Nordeste de outrora fosse um museu de si mesmo. Mas permaneceu o problema da terra, domina da pelo latifundiários. (© JB Online)
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