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28/08/2004
Prestes a lançar caixa do mundo livre e celebrar 10 anos do Mangue Beat, Fred Zeroquatro faz balanço do movimento Helena Aragão RECIFE - O nome artístico é referência aos últimos números do RG. Faz sentido. Fred Zeroquatro é um artista que tem na identidade pernambucana as marcas de tudo o que faz: das letras e melodias que cria para sua banda, o mundo livre s/a, ao pulso com que preside, há um ano e meio, o Conselho Municipal de Cultura, órgão consultivo da cidade do Recife composto por artistas de diversas áreas. Curiosamente, e por uma feliz coincidência, o ano de fim 04 tem sido de frutos saborosos para o compositor. No fim de setembro, a Deckdisc entrega às lojas uma caixa com um DVD de clipes e os quatro primeiros discos da banda (Samba esquema noise, Guentando a Ôia, Carnaval na obra e Por pouco), que estavam esgotados há tempos. O lançamento vem a calhar, no momento em que o Mangue Beat, movimento cultural lançado por ele, Chico Science e companhia completa 10 anos. Em outubro, Zeroquatro (que prefere assinar assim, por extenso) e trupe se unem ao pessoal do Nação Zumbi para lançar o livro Sob o calçamento está o mangue, com cartazes e flyers do início da empreitada e textos de gente como o antropólogo Hermano Viana e o jornalista Xico Sá. Um seminário, uma exposição com objetos pessoais de Chico e um show gratuito reunindo os dois grupos em Recife devem encerrar as comemorações. Zeroquatro garante que não serão eventos saudosistas. Há, sim, um clima de balanço - e com saldo positivo: a mensagem da parabólica cravada na lama ecoou pelo país, a proposta de miscelânea de tradição com modernidade contagiou outras regiões e contaminou a cabeça de muitos pernambucanos de outras praias. - O Mangue Beat motivou indiretamente a consciência política da cidade. Hoje Chico Science, um cara que falava de Zapata e Lampião, é um mito na periferia. João Roberto Peixe, secretário de Cultura do Recife, assina embaixo da idéia: - O movimento mangue foi nas raízes, propõe uma integração de ritmos que procuramos aplicar ao carnaval da cidade. Hoje temos frevo, mas também espaço para rock e outros gêneros. Quando o assunto é mercado, os pioneiros do mangue têm ainda mais o que comemorar. Nunca foi tão fácil tocar nas rádios locais. - Nossa arrecadação de direito autoral quase triplicou este ano, tem música que toca no Brasil todo. Como as grandes gravadoras não têm mais grana para pagar jabá fora do Sudeste, as emissoras estão sendo obrigadas a se abrir para a produção local. Foi preciso um terremoto na indústria fonográfica para o Mangue Beat chegar aos meios de comunicação de massa - atesta Zeroquatro, que no dia 30 vai estar na estréia da versão televisiva, na TV Universitária, do programa radiofônico Sopa Diário, que se dedica ao cenário musical pernambucano. É uma hipótese instigante. Vale lembrar que, criado em 1984, o mundo livre s/a precisou de 10 anos para gravar - fora do Recife - seu primeiro disco, Samba esquema noise. Hoje, as novas bandas já encontram estrutura para cumprir todas as etapas de produção de um CD na cidade. Ano passado, Zeroquatro e companhia fizeram o quinto disco, O outro mundo de Manuela Rosário, sem precisar pegar um avião para São Paulo. - As rádios que acordaram para a existência do mundo livre recentemente tocam as músicas antigas, justamente dos CDs que estavam esgotados. A caixa vai chegar num bom momento - conta o músico de 42 anos, acrescentando que o próximo trabalho da banda, que deve ser voltado para o exterior, já não contará com o percussionista Marcelo Pianinho, que saiu da banda. Os ventos começaram a soprar a favor em 2002, justamente no delicado momento em que o contrato da banda com a Abril Music acabou, pouco antes de a gravadora fechar as portas. Decidido a não aceitar propostas de majors (''Não é a gente que está sem gravadora, são as gravadoras que estão sem a gente'', bradou ele num show no Rio, na época), o grupo viu na internet um bom veículo de expressão. Lançou o single Caiu a ficha por meio da web. Dois anos e milhares de downloads depois, eles repetiram a experiência, com Dogville, Coleiras e Bombeiros, há quatro meses. - As faixas que lançamos na internet são os nossos maiores hits. Todo mundo canta nos shows. Quando o Moreira da Silva fazia aquelas crônicas sobre um acontecimento da cidade, corria o risco de perder o timing do assunto da moda até a música ser gravada. É massa saber que é possível compor num dia, gravar no outro e colocar para o mundo inteiro ouvir em seguida - conta, fazendo referência à letra que une o filme de Lars Von Trier às peripécias de Luma de Oliveira. Se vale o que atestou o pintor Cícero Dias em 1926, quando deu o título Eu vi o mundo... Ele começa no Recife a uma tela, é de lá que Zeroquatro quer continuar disseminando suas mensagens. E propiciar um ambiente saudável para seus conterrâneos produzirem. Por isso, aceitou o convite para compor a mesa do Conselho de Cultura e, mais tarde, a presidência. - Há uma mentalidade perversa por parte de músicos que só se envolvem em política por dinheiro. Mas também por parte das pessoas que acham que se envolver espontaneamente é coisa de fracassado. Aos poucos, os artistas daqui estão percebendo que não é assim. Só assim, ele acredita, será possível acabar com o rancor histórico que persegue alguns artistas. - Há uma certa melancolia pelo fato de Pernambuco já ter sido uma referência cultural, no século 17, quando São Paulo era uma vila. Isso só piorou em 1991, quando uma pesquisa revelou que Recife era a quarta pior cidade do mundo para se viver. Há um complexo de capital da inveja, que acha que produz coisas muito boas para ficar à margem. Isso é coisa de psicologia social, o estado inteiro precisava ir para o analista. Se levar Pernambuco para o divã é impossível, resta partir para a ação. - Quando estava na faculdade de jornalismo, ficávamos tristes de ver os melhores da turma sem nenhum projeto para ser realizado na cidade. Como eu e meus amigos não podíamos mudar de lugar, tínhamos que tentar mudar o lugar. Como a parabólica do mangue comunica a todo o país, eles conseguiram fazer a maré encher. (© JB Online)
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