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28/08/2004
Pesquisa minuciosa em jornais dos século 19 e 20, feita pelo historiador Evandro Rabello, traça o roteiro da folia momesca pernambucana, desde a época do entrudo até os primeiros corsos JOSÉ TELES Durante 20 anos, o pesquisador Evandro Rabello debruçou-se sobre as coleções de jornais das hemerotecas da Biblioteca Pública, da Fundaj e do Arquivo Público a fim de traçar a trajetória do Carnaval pernambucano. Foram centenas de exemplares empoeirados do Jornal Pequeno, A Província, Diário de Pernambuco, Jornal do Commercio, jornais de clubes carnavalescos: “A escolha do período pesquisado foi aleatória”, esclarece Rabello. O material resultou numa pilha de 29 tomos manuscritos. Parte deste trabalho resultou no livro Memórias da Folia – O Carnaval do Recife pelos Olhos da Imprensa 1822/1925, que terá lançamento, hoje, a partir das 19h, no Café Burle Marx (Praça de Casa Forte, 611). Evandro Rabello diz que, depois de percorrer alguns gabinetes de orgãos oficiais, tentando viabilizar a publicação de sua pesquisa, perdeu a esperança de que isto acontecesse. No entanto, um grupos de jovens, da agência Publikimagem Emprendimentos Culturais, decidiu tocar o projeto. Conseguiu que ele fosse aprovado pelo Funcultura, e Rabello pôde enfim tornar pública ao menos parte da pesquisa. Na compilação ele teve a colaboração do historiador Lucas Victor, que também assina a esclarecedora introdução do livro. O Carnaval pelos Olhos da Imprensa traça um evolução do Carnaval recifense, por meio de notícias curiosas, pitorescas, mas sempre seguindo um roteiro lógico: “Nestas notas, pode-se acompanhar, por exemplo, o surgimento dos blocos, as primeiras notícias sobre o frevo, como as brincadeiras populares eram reprimidas”, diz Evandro Rabello. Lucas Victor ressalta que a pesquisa é de suma importância para a história do Carnaval pernambucano, não só pelos fatos que divulga, mas também porque muitos exemplares dos jornais pesquisados estragaram-se: “É um trabalho precioso, por ajudar no estudo da transformação não apenas do Carnaval, mas da própria sociedade. Uma documentação difícil porque a gente sabe que o arquivo público é muito maltratado”. Victor também aponta para o noticiário a respeito dos festejos dos negros, sobretudo o maracatu: “Em todo o século 19, e já entrando pelo século 20, há uma tentativa constante de repressão aos festejos dos negros. O que reflete o medo da elite de que esses encontros acabassem descambando para uma revolução. Ao mesmo tempo, os extratos mais pobres da sociedade tentavam impor sua identidade cultural”. Segundo Victor, o que se traz à luz não vai além de dez por cento do que Evandro Rabello pesquisou. A Publikimagem pretende dar prosseguimento ao projeto até disponibilizar todo o acervo reunido, em um site e em CD-ROM. (© JC Online) DIVERTIMENTO AGRADÁVEL, LÍCITO E HONESTO OU ORGIAS? “São incalculáveis as desconfianças, os ódios, as rixas, e até os homicídios, que se tem originado dos chamados brinquedos do entrudo. E podemos chamar divertimento agradável, lícito e honesto, tais orgias? ... (DP 4/2/1842) “...Que quererá significar os maracatus, essa escola de perdição dos negros, das negras e dos moleques? Será tal ajuntamento proibido por alguma lei? Quem terá inspeção sobre esse criminoso ajuntamento? Que dirão a isto, e ao mais que fica por dizer, o nosso velho José Correia (o onça) ou mesmo Cazuza do forno, se hoje ressuscitassem?” (DP 28/3/1845) “Avisos Diversos: No botequim de Santa Isabel haverá nos dias de baile de máscaras mascarados, presunto de fiambre e outras diversas comidas, champanhe, vinhos engarrafados e outras diversas bebidas, assim como haverá um lugar reservado para as senhoras, tudo com aceio (sic) e decência” (DP 1/3/1851) “Maracatu! Não precisa ser descrito, todos nós podemos falar de experiência, o maracatu é uma cousa infama, estúpida e triste! Estamos todos acordos, mas por quê consentimos nisto? Pois o povo (se é o povo, senão uma horda de escravos vadios, que faz o maracatu) não pode divertir-se pelo Carnaval, de um modo menos estupidamente infame e triste, e degradante e incômodo? Pois estamos ainda em estado de consentir que o maracatu continue a servir de termômetro a nossa civilização e aos nosso costumes? Isto não! Estamos em plena Abyssinia, não há dúvidas”. (A Província, 16/2/1877) “Lance-parfum, assim denomina um novo sistema de bisnagas próprias para as folias de Carnaval. No acreditado estabelecimento comercial do sr. Lourenço Alves Salazar Júnior, à Rua do Bom Jesus nº 58, o público encontrará grande sortimento dessas bisnagas. Agradecidos pela amostra que nos foi oferecida”. (Jornal do Recife 214/2/1900) “O dr. Ulysses Costa, chefe de polícia, fez expedir hoje a todos os subdelegados da Capital uma circular proibindo terminantemente, até segunda ordem, os divertimentos públicos intitulados bumba-meu-boi e pastoris, os quais se achavam funcionando em alguns distritos”. (JP, 23/9/1910) “Foi surpreendente a animação do Carnaval ontem de 18 horas em diante. O corso se intensificou mais notando-se lindos caminhões e automóveis garridamente ornamentado, enquanto o brinquedo do lança-perfume, serpentinas, getoni e confeti nada deixava a desejar como a eloqüente demonstração de alegria com o que povo aceitou e aplaudiu a idéia do segundo Carnaval”.(JC 3/4/1923) (© JC Online) Leia outros trechos do livro Memórias do Carnaval 1. "... 'Estúpido folguedo africano'. O denominado Maracatu, segundo artigo, estava se 'desenvolvendo cada vez mais nesta cidade e seus arrebaldes e parece que, se não com a conivência ao menos com a aquiescência das autoridades policiais . Nesses 'pretenso' divertimento, via-se 'senas supinamente imorais e depontentes dos bons costumes'. Nos Maracatus, 'não raro saem os festeiros feridos por cacete ou faca". 2. Preços das entradas: N.B. As senhoras vestidas de homens e os homens vestidos de senhoras estão sujeitos ao pagamento de suas entradas. 3. 04/02/1883 - Domingo - Nº 28 - p.5
Proibido também a venda de limas de cheiro. Os infratores pagarão uma multa de 4$ além de perderem o material. 5. Gazetilha. Clube dos Vassourinhas - Esteve em vista em nossa porta, nos dias de caranaval esse clube que se apresentou muito bem organizado. Tivemos o prazer de ouvir o seu hino carnavalesco que é magnífico e de assistir as suas evoluções muito bem ensaiadas. Somos gratos pela amabilidade da visita e fazemos votos pela prosperidade dos valentes rapazes do Vassourinhas. 6. Gazetilha. Lance-parfum - Assim denomina um novo sistema de bisnagas próprias para as folias de carnaval. No acreditado estabelecimento comercial do sr. Lourenço Alves Salazar Júnior, à rua do Bom Jesus nº 58, o público encontrará grande sortimento dessas bisnagas. Agradecidos pela amostra que nos foi oferecida. 7. O João Minhoca, a troça a carne e osso, declara que só exibirá as pernas das formosa damas tendo pelo menos 50 espectadores. 8. 09/08/1907 - Sexta-feira "Necrologia Foram sepultados no Cemitério Público de Santo Amaro no dia 12 de julho as seguintes pessoas (...) Dia 13 de julho (...) Mathias Theodoro da Rocha, Pernambuco, 43 anos, solteiro, Hospital Pedro II. (© JC Online)
Memórias do Carnaval nas páginas dos jornais
Artigos e crônicas, dos séculos 19 e 20, embasam livro Michelle de Assumpção Maracatu! Não precisa ser descrito; todos nós
podemos falar de experiência: o maracatu é uma coisa infama, estúpida e
triste! Estamos todos de acordo, mas por que consentimos isto? Pois o povo
(que é senão uma horda de escravos vadios, que faz o maracatu) não pode
divertir-se pelo Carnaval de um modo menos estupidamente infame e triste, e
degradante e incômodo". Esta era uma das visões da imprensa recifense no ano
de 1877, quando um artigo com este teor saiu publicado no jornal A
Província, durante os dias de Momo. Após pesquisar por mais de 40 jornais,
entre os anos de 1822 a 1925, o pesquisador, folclorista e folião assumido
Evandro Rabello lança o livro O Carnaval do Recife Pelos Olhos da Imprensa.
Foram vinte anos dedicados à pesquisa, feita nas hemerotecas do Arquivo
Público Estadual, Biblioteca Pública, Fundação Joaquim Nabuco e Associação
Comercial. Lançamento do Livro Memórias da Folia - O Carnaval do Recife Pelos Olhos da Imprensa Quando: hoje, a partir das 19h Onde: Café Burle Marx (Praça de Casa Forte, 611, Casa Forte) Entrada franca. (© Pernambuco.com)
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