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30/08/2004
Uma coletânea de contos confirma que a praia de Jorge Amado era mesmo o romance Jerônimo Teixeira Com mais de 20 milhões de livros vendidos no país e uma extensa galeria de personagens na memória dos leitores, Jorge Amado continua sendo, três anos depois de sua morte, um autor de enorme popularidade. Em Cinco Histórias (Casa da Palavra; 116 páginas; 60 reais), contudo, sua literatura popular vem em roupagem de luxo. A obra reúne contos que Jorge publicou em revistas e antologias, de 1959 a 1989. É um livro caro e vistoso, impresso em cores, com ilustrações (quase todas em estilo previsivelmente naïf) de cinco artistas plásticos da Bahia. Deverá ser o único título póstumo de ficção do escritor, que não deixou inéditos acabados. Seu interesse maior está em mostrar uma face menos conhecida do autor baiano – o contista – ao mesmo tempo em que confirma que a praia de Jorge era mesmo o romance. Ao morrer, em 2001, aos 88 anos, o escritor deixou sem conclusão o romance Bóris, o Vermelho. O tal Bóris é um personagem do conto O Episódio de Siroca. Uma pista, talvez, de que as histórias curtas serviriam como ensaios ou bosquejos para obras mais amplas. Quase todos os contos – a exceção é História do Carnaval, acanhada peça de crítica de costumes – acenam para uma forma mais expandida. Ao lado do enredo central correm casos paralelos que às vezes ficam pela metade, expediente que confere à narrativa a coloquialidade de uma mesa de bar. Aliás, os contos Do Jogo de Dados e dos Rígidos Princípios e De Como o Mulato Porciúncula Descarregou seu Defunto são histórias narradas em um boteco. O texto mais curioso é As Mortes e o Triunfo de Rosalinda, espécie de delírio erótico sobre uma mulher que nunca morre. No final hiperbólico, ela aparece cavalgando "os corcéis do proletariado", referência algo irônica ao ideário comunista do autor (o conto apareceu pela primeira vez em 1965, quase dez anos depois de Jorge abandonar o PCB). A idealização romântica dos pobres, porém, nunca seria abandonada. Na história que Porciúncula conta aos companheiros de copo, a protagonista é uma prostituta adolescente que morre sonhando casar-se com véu e grinalda. A pieguice da situação talvez fosse passável, se diluída em uma narrativa mais longa.
(© Revista VEJA) Trecho do livro Cinco Histórias, de Jorge Amado Maria dos Reis só se decidiu de verdade quando, depois de fechar a luz do quarto, se estirou na cama e ficou de olhos abertos espiando no escuro. Sairia mesmo, mesmo que ele se zangasse e acabasse o namoro. O namoro já era quase noivado, ele ia pedir em junho, quando o pai chegaria do interior para a solenidade do pedido oficial. Quase noiva, a família de Maria dos Reis sem fazer oposição, ele entrava em casa, cumprimentava dona Marocas e tia Clara, tomava o cafezinho das dez na sala de visitas antes de ir embora. Dona Marocas dissera-lhe uma noite em que chovia (ele, as abas do paletó suspensas, resistia heroicamente à carga d'água): - Seu Teodoro, não quer entrar? O senhor é capaz de pegar um defluxo... Não é bom facilitar. Teodoro entrara, meio encabulado, mas dona Marocas foi explicando: - Eu, de mim, não sou contra. Sei que o senhor tem boas intenções, sabe que minha filha não é uma qualquer. Não vou fazer oposição. Se fosse um vagabundo, sim. Mas já tive sabendo que o senhor é um moço direito, está para tirar o seu canudo e quer pedir Maria. Não me oponho, não. Agora, uma coisa quero pedir ao senhor. É que acabe esse namoro na janela. Atalhou o gesto que Teodoro esboçara: - Sei que não tem nada de mais. Mas é que o finado, se fosse vivo, não havia de gostar. Ele vivia falando contra esses namoros na janela. Sempre me dizia: - "É uma falta de vergonha, Marocas, esses gabirus encostados nas janelas falando baixinho pra essas sirigaitas. Filha minha não quero que faça isso. Se o rapaz tem boas intenções, que venha conversar dentro de casa. Se não tem, então pau nele". Teodoro concordou com um gesto com a teoria do finado. Dona Marocas continuou: - O senhor já falou com Maria e com a mana Clara que vai pedir a menina em junho. Pois bem: eu prefiro que o senhor venha conversar aqui na sala do que essa coisa de estar encostado na janela. Não é por nada, é pela memória do finado... - ficou de repente encabulada, nem sabia como tinha falado tanto, baixou a cabeça, empregou as mãos em amarrotar a saia preta. Foi assim que Teodoro ficou freqüentando a casa, noivo semi-oficial, esperando o pai que vinha em julho para o pedido. O casamento seria depois dele formado e nomeado promotor de uma cidadezinha qualquer. No princípio do outro ano. Maria dos Reis já tratava do enxoval, comprava rendas e sonhava o casamento na igreja, a grande cauda do vestido arrastando, as amigas jogando flores, o padre tomando das alianças. Mas o Carnaval se aproximava. Fazia um ano, ela saíra numa prancha, Felizes Borboletas, saíra linda, linda, era a mais linda na mais linda prancha. Fora aí que começara o namoro com Teodoro, que fazia o corso num carro de estudantes. As Felizes Borboletas eram uma criação da família Cordeiro, cinco moças alegres e uma mamãe mais alegre ainda. Naquele tempo, o Carnaval da Bahia era feito principalmente pelas pranchas, bondes enfeitados de flores e papel, lotados de moças fantasiadas que corriam todos os itinerários dos trilhos, levando a alegria a todas as ruas e arrastando atrás de si os autos dos rapazes elegantes. Havia prêmios para as pranchas mais animadas e para as mais belas. Cinco anos eram passados desde que, pela primeira vez, a família Cordeiro fizera a prancha das Felizes Borboletas. E nesses cinco anos por duas vezes a prancha tirara o prêmio de beleza, por outras duas o de animação, perdendo uma única vez devido "à mais elevada injustiça jamais praticada sob céus da Bahia", como afirmava Reinaldo dos Santos Ferreira, amigo da família e pai de duas das felizes borboletas. Maria dos Reis, quando viera morar naquela rua, ficara amiga de Antonieta Cordeiro e das suas quatro irmãs. Mas principalmente de Antonieta, que era uma simpatia de morena, alegre e viçosa, namoradeira como ela só, dona da risada mais clara de todo o Largo 2 de Julho. Fora assim não só membro como uma das mais ardentes animadoras e entusiastas das Felizes Borboletas naquele ano. E, como era esguia e pálida, a fantasia foi-lhe muito bem e divertiu-se imenso nos dois primeiros dias. No terceiro, já de namoro forte com Teodoro, a alegria foi diferente, um pouco menos ruidosa, porém mais densa. Terminaram dançando até de madrugada na casa dos Cordeiros, festejando o prêmio. Teodoro dissera-lhe então que o prêmio tinha sido conferido principalmente devido a ela, à sua beleza, à sua voz, à sua graça radiante. Agora eram quase noivos, o Carnaval estava aí, as Felizes Borboletas ensaiavam e Antonieta, as quatro irmãs de Antonieta, a mãe de Antonieta, o Sr. Reinaldo dos Santos Ferreira, todos, contavam com ela, com sua voz e sua alegria. Seu concurso era imprescindível, Antonieta vivia repetindo, as quatro irmãs diziam em coro, mamãe Cordeiro dizia ainda mais alto. Só Teodoro não dizia nada, apenas fechava a cara toda vez que ela falava em sair na prancha. Quando ela suplicava muito que ele dissesse alguma coisa, se definisse, sim ou não, ele falava com voz soturna: - Se tá com vontade, saia... Ela não tinha coragem de confessar que estava com vontade. Ficavam os dois amuados, cada qual para seu canto, nem aproveitaram as idas de tia Clara à sala de jantar para os beijos rápidos porém ardentes. Maria dos Reis desabafou com Antonieta. Teodoro virava fera quando se falava no assunto "prancha". Fazia uma cara feia, se fechava em copas. Ela não podia mesmo sair. Antonieta prometeu resolver o assunto e nessa mesma noite abordou Teodoro: - Então, seu Teodoro, não quer deixar a dos Reis sair na nossa prancha, hein? Só porque é prancha de gente pobre e a futura esposa de um advogado não pode sair misturada com as filhas de um escriturário do correio, não é? Se fosse a prancha dos Andrades, ela podia, não é? Teodoro estava mais duro que um rochedo: - Se ela tiver vontade, pode sair... Antonieta tinha que ir para o ensaio, disse logo as últimas: - Pois eu saía, sabe? Não havia namoro que me empatasse. Ela é porque é uma tola. Deixa que namorado tome conta dela. Não tá vendo que eu... - e foi embora, não sem lançar antes um olhar de profundo desprezo ao futuro bacharel que assoviava, tentando bancar o indiferente. Aí ficaram os dois namorados calados. De vez em quando, Maria dos Reis espiava, Teodoro espiava, nenhuma palavra. Porém, na hora de despedir-se, ele avisou: - Se tiver com vontade, saia. Mas fica tudo acabado entre nós. Ela quis responder, ele já ia pelo meio da rua, nem se despediu. Por isso ("bruto, bruto, bruto") ela, na cama, resolve sair na prancha custe o que custar. Mas não saiu coisa alguma. Não só estava totalmente arrependida no dia seguinte, como também dona Marocas, quando soube do caso, ficou tiririca, mandou chamar Antonieta, gritou-lhe na cara: - Pensa que acaba assim o noivado de minha filha? Como não arranjam noivo, andam de namorado em namorado, todas cinco, todas cinco, sim senhor, quer ver se toma o noivo das outras com essa história de prancha. Mas nem pense. Minha filha não sai em prancha nenhuma. Tá noiva, vai casar, não é uma sirigaita como você que vai tomar o noivo dela, não. Saia daqui com sua prancha, vá se estourar no meio dos infernos. Tia Clara apoiou inteiramente dona Marocas. No fundo, Maria dos Reis apoiou também, começou a achar suspeito aquele grande interesse de Antonieta pela sua presença na prancha. E se fosse mesmo um plano para tomar-lhe o noivo? Essa gente é capaz de tudo... Antonieta é que nem ligou. Os ensaios tomaram-lhe todo o tempo. As Felizes Borboletas pretendiam, nesse ano, conquistar os dois prêmios: o de beleza e o de animação. Seu Reinaldo dos Santos Ferreira dizia que "seria um triunfo só comparável aos de Alexandre na antiguidade e aos de Napoleão na Idade Moderna". E foi mesmo. Na terça-feira, após a conquista dos dois prêmios, a prancha vinha festejando numa alegria imensa, quando, ao passar na Praça Castro Alves, Antonieta descobriu Maria dos Reis que ia pelo braço do noivo, um lança-perfume na mão, atrás a mãe e a tia, solenes os quatro, marchando pelo Carnaval com passos medidos e rostos sérios. Então as Felizes Borboletas cantaram ainda mais alto, tão alto que Maria dos Reis não pôde fingir que não ouvia e teve que parar, olhar, apertar os lábios para que os soluços não rebentassem. (© Revista VEJA) Painel brasileiro
No universo criado por Jorge Amado, a população é nômade e sempre transita pelos seus livros. Auto-intitulado “romancista de prostitutas e vagabundos, das roças de cacau e ladeiras da Bahia”, o escritor morto em 2001 encontrava no cotidiano material para suas obras, criando-as como um painel da vida brasileira. Daí seu pouco interesse por narrativas curtas. Os textos incluídos em Cinco histórias (Casa de Palavras/Fundação Casa de Jorge Amado, 116 págs., R$ 60), que será lançado na terça-feira 31, na Academia Brasileira de Letras, no Rio de Janeiro, originalmente foram publicados em revistas e antologias, mas só agora estão reunidos pela primeira vez num mesmo volume. Salta aos olhos que, mesmo no formato menos conhecido do escritor, seu espírito se mantém intocado. Seja na presença de personagens de seus romances, como Teresa Batista ou a moça de olhos arregalados de Quincas Berro D’água, seja nos achados verbais, na filosofia de boteco, no fatalismo dos desvalidos que nestes contos ele soube tão bem recriar. De acordo com a proposta da Fundação Casa de Jorge Amado, que, além de publicações do autor e sobre ele, funciona como incentivadora das artes baianas, a edição é ilustrada por artistas plásticos que trabalharam sob encomenda conforme o assunto. O veterano Calasans Neto – ilustrador original dos livros Teresa Batista cansada de guerra e de Tieta do agreste ficou com a história de amor impossível De como o mulato porciúncula descarregou seu defunto, publicada nos anos 1960. Datam da mesma época De jogos de dados e dos rígidos princípios, uma lição de caráter com imagens de Sergio Rabinovich, e As mortes e o triunfo de Rosalinda, outra história de amor impossível ilustrada por Murilo. O artista J. Cunha encarregou-se do texto mais antigo, História de Carnaval, da década de 1950, e Bel Barbosa do mais recente, O episódio de Siroca, dos anos 1980. Em ambos os casos, mais amor, mais abnegação, mas sempre um delicioso passeio pelo mundo de Jorge Amado. (© Revista ISTO É) Amado em forma breve Volume reúne cinco contos do escritor baiano, num clima de conversa em mesa de bar
JOSÉ CASTELLO Autor de longos romances, Jorge
Amado (1912-2001) sempre evitou narrativas breves. Os relatos do livro
Cinco Histórias são, portanto, exceção em sua obra. Ainda assim, não
renegam, nem maculam, sua assinatura. Não são contos inéditos. O mais
antigo, ''História do Carnaval'', surgiu em 1959, numa antologia de contos
baianos. ''Do Jogo de Dados e dos Rígidos Princípios'', ''As Mortes e o
Triunfo de Rosalinda'' e ''De como o Mulato Porciúncula Descarregou Seu
Defunto'' datam dos anos 60. O mais recente, ''O Episódio de Siroca'', é
de fins dos 80. O primeiro, ''História do
Carnaval'', é um sensível conto de amor, que trata da hesitação entre a
fidelidade e a alegria. Quase noiva, e contrariando o amado, Maria dos Reis
resolve sair com uma amiga para pular o Carnaval. A escolha expõe a
fragilidade de seus sentimentos. ''Do Jogo de Dados e dos Rígidos
Princípios'' trata da fraqueza de caráter. Traz a história do sapateiro
Pedro Porro, que, depois de perder no jogo para o cabo Martim, é visto
batendo com a cabeça contra um poste porque se julgou roubado. Os amigos o
acusam de não saber perder, e só o mulato Massú o defende, certo de que seu
gesto é um mal inerente à condição masculina. ''As Mortes e o Triunfo de
Rosalinda'' é, como Amado explica na abertura, uma ''tentativa frustrada de
estabelecer a escola do realismo-anárquico''. O conto, o menos inspirado da
coletânea, é dedicado a Campos de Carvalho, mestre do fantástico. Depois de
matar Rosalinda, o assassino, que foi amante da morta, revela sua falta de
remorsos. Sua justificativa é perturbadora: foi ele, e não a mulher, quem
engravidou. ''De como o Mulato Porciúncula
Descarregou Seu Defunto'' narra a história de Maria Batista, irmã de Teresa
Batista - personagem-título do conhecido romance. Porciúncula apaixona-se
por Maria. Ela morre. Seu último desejo: ser enterrada vestida de noiva. Fechando o livro, ''O Episódio de
Siroca'' tem como personagem Boris, o Vermelho. Ele seria o protagonista de
um romance que Jorge prometeu durante muitos anos, mas nunca escreveu. Boris
sobrevive nesse conto, uma história simples, sobre a virgindade e o pudor
feminino. Os contos de Amado conservam a
atmosfera das histórias contadas nas mesas de bar. É o mesmo Jorge caloroso
dos romances, para quem a mulher é tudo e o homem um enigma a decifrar.
(© Revista ÉPOCA)
A vida de Jorge
Jorge Amado de Faria, jornalista,
romancista e memorialista, nasce em 10 de agosto de 1912 na Fazenda
Auricídia, em Ferradas, então um distrito de Itabuna (BA) obscurecido pelo
amarelo-ouro das plantações de cacau. Filho do fazendeiro de cacau João
Amado de Faria e de Eulália Leal Amado, passa a infância em Ilhéus, para
onde mudam-se seus pais quando ainda tinha 1 ano de idade por causa de uma
epidemia de varíola. Faz os estudos secundários em Salvador, em regime de
internato, período em que começa a trabalhar em jornais e a participar da
vida literária, sendo um dos fundadores da Academia dos Rebeldes, que
pregava, no dizer de Jorge Amado, "uma arte moderna sem ser modernista". Certa vez, ao chegar de férias com
o pai, Jorge Amado foge do colégio e viaja por dois meses até chegar à casa
de seu avô paterno, José Amado, em Itaporanga, no Sergipe. A pedido de seu
pai, seu tio o leva de volta para a fazenda em Itajuípe. De volta a
Salvador, no colégio Ginásio Ipiranga em regime de externato, vai morar num
casarão no Pelourinho, centro histórico de Salvador (Bahia), onde viveu,
livre e misturado com o povo, os anos da adolescência, tomando conhecimento
da vida popular que iria marcar fundamentalmente sua obra de romancista.
Emprega-se como repórter policial no "Diário da Bahia". Pouco depois vai
para o jornal "O Imparcial". Uma poesia de sua autoria, "Poema ou prosa", é
publicada na revista "A Luva". Conhece o pai-de-santo Procópio, que o
nomeará ogã (protetor), o primeiro de seus muitos títulos no candomblé. Em 1930, transfere-se para o Rio
de Janeiro para estudar. Conhece Vinicius de Moraes, Otávio de Faria e
outros nomes importantes da literatura. O primeiro romance, O país do
carnaval, vem em 1931, aos 18 anos de idade. O livro recebe elogios dos
críticos e torna-se um sucesso de público. Nesse mesmo ano, é aprovado,
entre os primeiros colocados, na Faculdade de Direito da Universidade do Rio
de Janeiro. Em 1932, muda-se para um apartamento em Ipanema com o poeta Raul
Bopp. Conhece José Américo de Almeida, Amando Fontes, Rachel de Queiroz
(através de quem se aproxima dos comunistas) e Gilberto Freyre. Um ano mais
tarde, casa-se com Matilde Garcia Rosa, com quem tem uma filha, Lila. Nesse
mesmo ano publica seu segundo romance, Cacau. O livro esgota-se em
um mês. Entre a primeira e a segunda edição de Cacau, Jorge tem
acesso, através de José Américo de Almeida, aos originais de Caetés,
romance de Graciliano Ramos. Empolgado com o talento do escritor alagoano,
viaja para Maceió só para conhecê-lo, iniciando uma amizade que duraria até
a morte de Graciliano. Conhece também José Lins do Rego, Aurélio Buarque de
Holanda e Jorge de Lima. Em 1934, começa a trabalhar na
Livraria José Olympio Editora, do Rio de janeiro, primeiro escrevendo
releases e depois na parte editorial propriamente dita, tendo
influenciado na publicação de "O conde e o passarinho", primeiro
livro de Rubem Braga, e no lançamento de autores latino-americanos. Em 1935,
conclui a faculdade de direito, por insistência dos pais. Sofre sua primeira
prisão em 1936, por motivos políticos. Publica "Mar morto", que
recebe o Prêmio Graça Aranha, da Academia Brasileira de Letras. No ano seguinte, viaja pela
América Latina e depois vai aos Estados Unidos. Enquanto está fora, sai no
Brasil "Capitães da areia". Quando chega a Belém, vindo do exterior,
é avisado do golpe de Vargas. Foge para Manaus, mas lá é preso. Seus livros,
considerados subversivos, são queimados em praça pública. Segundo as atas
militares, foram queimados 1.694 exemplares de "O país do carnaval",
"Cacau", "Suor", "Jubiabá", "Mar morto" e "Capitães
da areia". É libertado em 1938. Mora no Rio, em São Paulo, Bahia,
Sergipe, e volta para o Rio em 1939, onde exerce intensa atividade política,
em decorrência das torturas de presos e da desarticulação do Partido
Comunista. Torna-se redator-chefe das revistas Dom Casmurro e
Diretrizes. Compõe, com Dorival Caymmi e Carlos Lacerda, a serenata "Beijos
pela noite". O escritor franco-argelino Albert Camus escreve artigo
classificando "Jubiabá" de "magnífico e assombroso". Entre 1941 e 1942, sua militância
comunista leva-o ao exílio na Argentina e no Uruguai, período em que fez
longa viagem pela América Latina. Ao voltar, em 1944, separa-se de Matilde. No ano seguinte, foi eleito membro
da Assembléia Nacional Constituinte pelo Partido Comunista Brasileiro (PCB),
tendo sido o deputado federal mais votado do Estado de São Paulo. Jorge
Amado foi o autor da lei, ainda hoje em vigor, que assegura o direito à
liberdade de culto religioso. Nesse mesmo ano, conhece e passa a morar com
Zélia Gattai, apresentada ao romancista pelo Barão de Itararé na Boate
Bambu, durante jantar em homenagem aos participantes do I Congresso de
Escritores, em São Paulo. Passa a viver na capital paulista, onde chefia a
redação do jornal Hoje, do Partido Comunista Brasileiro. Escreve
também na Folha da Manhã. Em julho, participa, ao lado de Pablo
Neruda, do comício de Luís Carlos Prestes no Estádio do Pacaembu.
Entusiasmado com a leitura de "Jubiabá", chega à Bahia o fotógrafo e
etnólogo francês Pierre Verger, que acabaria se radicando em Salvador e se
tornando um dos amigos mais íntimos de Jorge Amado. Em 1947, nasce o primeiro filho do
casal, João Jorge. Nesse mesmo ano, o PCB é declarado ilegal e tem seus
membros perseguidos e presos. Com o mandato cassado e tendo seus livros
considerados como "material subversivo", Jorge Amado decide partir para o
exílio voluntário com a família, na França. É nesta ocasião que o escritor
trava amizade com Jean-Paul Sartre, Picasso e outros expoentes da literatura
e da arte mundial. Em 1949, morre no Brasil sua filha Lila. No ano seguinte
é expulso da França e segue para a Tchecoslováquia, onde nasce sua filha
Paloma. Em 1952, vai à China, à Mongólia e retorna ao Brasil com a família.
Viaja à Europa, Argentina e Chile, em 1953. Dois anos depois
desiste da militância política e passa a dedicar-se inteiramente à
literatura. Viaja ao Oriente ao lado de Zélia, Pablo e Matilde Neruda, em
1957. Conhece a mãe-de-santo Menininha do Gantois, a quem ficaria ligado até
a morte dela, em 1986. Na tranqüilidade de Petrópolis, em
1958, escreve "Gabriela, cravo e canela". O livro esgota 20 mil
exemplares em apenas duas semanas e coleciona prêmios. Recebe em Salvador,
do Axé Opô Afonjá, um dos mais altos títulos do candomblé, o de obá orolu
(também receberam tal distinção o compositor Dorival Caymmi e o artista
plástico Carybé). Em 6 de abril de 1961, é eleito
por unanimidade para a cadeira de número 23 da Academia Brasileira de
Letras, que tem por patrono José de Alencar e por primeiro ocupante Machado
de Assis. No mesmo mês estréia na Tv Tupi a adaptação de "Gabriela".
Com o dinheiro, Jorge adquire um terreno em Rio Vermelho, então na periferia
de Salvador, e começa a construir uma casa onde viveria pelo resto da sua
vida. Homenagens acontecem no Rio, na Bahia e em outros estados por seus 30
anos de atividade literária. Mais de mil pessoas comparecem à
primeira sessão de autógrafos de Jorge Amado em Portugal, em 1966, e o
escritor chega aos mil autógrafos no lançamento de "Dona Flor e seus dois
maridos" na livraria Civilização Brasileira, em Salvador. Em 1968, o
cineasta polonês Roman Polanski visita o escritor na Bahia para "agradecer a
alegria que seus livros me proporcionaram na juventude". Em 1975, Marcel Camus leva para o
cinema o romance "Os pastores da noite", que é exibido na França com
o título de "Otalia da Bahia". Este é o ano também da estréia do
maior sucesso do escritor na Tv: a adaptação de "Gabriela, cravo e canela",
com Sônia Braga no papel-título. No ano seguinte, estréia no cinema "Dona
Flor e seus dois maridos", de Bruno Barreto, com Sônia Braga, José
Wilker e Mauro Mendonça. Após três meses de exibição, o filme bate recorde
de bilheteria — dez milhões de espectadores. Em 1978, oficializa sua união com
Zélia Gattai. Em 1982, passa a ser nome de rua em Itapuã (Salvador, BA).
Toma posse na Academia de Letras da Bahia (cadeira 21), em 1985. Recebe o
título de Grão-Mestre da Ordem do Rio Branco, no grau de Grande Oficial,
oferecido pelo governo brasileiro. Participa do Festival de Cinema de
Cannes. É homenageado pelo Centro Georges Pompidou, de Paris, onde se
realiza um debate sobre sua obra. Em 1986, participa, como presidente do
júri, do VIII Festival Internacional do Novo Cinema Latino-Americano, em
Cuba. Na ocasião, é homenageado por Fidel Castro. Em 1987, é inaugurada em Salvador,
Bahia, no Largo do Pelourinho, a Fundação Casa de Jorge Amado, que abriga,
preserva e divulga a obra do escritor, colocando-a à disposição de
pesquisadores. A escola de samba Império Serrano, do Rio de Janeiro,
apresenta o enredo "Jorge Amado - Axé, Brasil", em 1989. Estréia na
Rede Globo a novela "Tieta", com Bety Faria no papel-título. Em 1990, participa, como
representante do Brasil, da comissão internacional que dará assessoria ao
projeto de reconstrução da antiga biblioteca de Alexandria, no Egito.
Estréia na Rede Globo, em 1992, a minissérie "Tereza Batista", com
Patrícia França no papel-título. Uma série de eventos comemora os 80 anos do
escritor. Em maio de 1996, o escritor sofre
em Paris um edema pulmonar. Depois de dez dias de internação, recebe alta e
viaja para Salvador, onde em julho comemora com os amigos os 80 anos de
Zélia. Estréia "Tieta do Agreste", filme de Cacá Diegues. Em outubro,
é submetido a uma angioplastia. A operação mobiliza atenções do país
inteiro. Na saída do hospital o escritor anuncia que retomará "brevemente"
seus projetos literários. O romance "Tieta do Agreste"
é escolhido como tema do carnaval de Salvador, em 1997. No ano seguinte,
estréia na Rede Globo a mini-série "Dona Flor e seus dois maridos". Fonte: Fundação Jorge Amado e Releituras
(© Revista ÉPOCA)
Os anos difíceis
Jorge Amado morreu em Salvador, no
dia 6 de agosto de 2001. Desde 1998, quando um enfarte o surpreendeu em meio
a outra viagem a Paris, o escritor vinha enfrentando problemas de saúde que
lhe custaram inquietantes internações em hospitais. Nos últimos meses de
vida, sob dieta rigorosa, impedido de ler ou escrever, oscilava entre
períodos irritadiços e mergulhos na depressão. Tornou-se um homem triste – e
não houve quem pudesse injetar-lhe a carga adicional de energia que
oferecia, com a onipotência de dono da história, a alguém castigado por
ventos hostis. Costumava submergir no silêncio e virtualmente suprimiu cenas
de alegria explícita. Na casa em Salvador, Jorge passava
os dias sentado num banco do jardim. Consolava-o a presença constante dos
dois filhos – João Jorge Amado, de 53 anos, sociólogo que também escreve
peças para teatro infantil, e Paloma, de 50, psicóloga, escritora e
gastrônoma. E confortava Jorge Amado, acima de tudo, a companhia diuturna de
Zélia Gattai, ao lado de quem mostrou, em 56 anos de casamento, evidências
sucessivas de que o amor pode, sim, ser eterno. Zélia sempre exerceu com
prazer e orgulho o que considerava sua atividade principal: era a mulher de
Jorge Amado. Jamais negligenciou as exigências do cargo litúrgico,
acompanhou o marido nas andanças pelo planeta. Apesar da agenda sem espaços,
tornou-se, com a discrição de sempre, escritora também. Escritora das boas. Jorge submetia-se a sessões de
fisioterapia diariamente e convalesceu em ritmo aceitável da crise cardíaca
ocorrida poucas semanas antes da data fatídica. Mas permaneceram a apatia e
o desinteresse por fatos ou pessoas. "Ele é hipertenso, o organismo foi
agredido por problemas circulatórios e conserva apenas a visão lateral",
resumiu na época o médico Jadelson Andrade, que cuidava do escritor. "A
perda da visão central não o deixa ler. É Zélia quem faz a leitura em voz
alta dos jornais." Enfim, o destino confiscou-lhe o prazer das viagens, da
leitura e da criação literária. Zélia providenciou lupas que ampliam
notavelmente as letras impressas. Num espasmo de ira, Jorge quebrou-as. Ela
então descobriu um aparelho destinado a aumentar as letras na tela dos
computadores. Sem paciência para o arrastado desfile de frases, ele
aposentou a novidade. Zélia contou que escreveu A
Casa do Rio Vermelho, publicado em 1999, e Città di Roma (2000)
para espantar os fantasmas da depressão. "Minha vida tem sido muito difícil
dia e noite", disse na época num raro desabafo. "Não posso aceitar nenhum
convite, nenhum compromisso. Preciso cuidar de Jorge." Apesar de enfermeiros
em vigília permanente, só com a mulher por perto ia-se o sentimento de
desamparo que afligia o escritor cujo último livro, O Milagre dos
Pássaros, foi lançado em 1997. A pedido do próprio escritor, seu
corpo foi cremado e suas cinzas foram enterradas no jardim de sua
residência, na Rua Alagoinhas, em 10 de agosto, dia em que completaria 89
anos.
(© Revista ÉPOCA)
A obra de Jorge
Jorge Amado logrou um duplo
feito em 32 livros traduzidos para 49 idiomas em 55 países e mais de 21
milhões de exemplares, inclusive em braile e em fitas gravadas para cegos:
fez seus personagens se tornarem vivos até parecerem reais. Além disso,
transformou os cidadãos baianos (os de carne e osso) em personalidades tão
carismáticas que é justo dizer que brotam das páginas dos livros. Pode-se
afirmar, a respeito das obras de Jorge Amado, o que Graciliano Ramos
identificou em Suor, de 1934 : "Em Suor, há um personagem muito
mais importante do que os outros: é Jorge Amado, que morou na Ladeira do
Pelourinho, 68, e lá conheceu Maria Cabussu e todos aqueles seres
estragados que lhe forneceram material para um excelente romance". Jorge,
sobretudo depois de Capitães da Areia (1936), tornou-se conhecido
por entrar em quartos untados de sexo, em becos e ruas de paralelepípedos,
em cortiços e terreiros de candomblé. O escritor publicou o primeiro
romance, O País do Carnaval, com apenas 18 anos. "É um livro ruim",
estigmatizou-o o próprio autor. Ruim, mas histórico: virou a certidão de
nascimento literário de um baiano chamado Jorge Amado. Viriam muitos outros,
cada vez melhores. Depois da ruptura com o dogmatismo opaco do Partido
Comunista, meia dúzia de obras-primas o levaria ao clube dos autores
eternos. "Com Jorge Amado, o povo
brasileiro encontrou pela primeira vez sua expressão estética, conquistou a
autonomia literária", escreveu o sociólogo francês Roger Bastide
(1898-1974). Sempre mais debochado, o antropólogo, escritor e político Darcy
Ribeiro (1922-1997) mirou numa questão habitualmente tratada com eufemismos.
"A meu juízo, Jorge é até um romancista pedagógico: ensinou gerações de
brasileiros que transar com preto é bom." Até 1956, quando a revelação dos
horrores do stalinismo precipitou sua ruptura com o comunismo, ele não
percorria com tamanho desembaraço estradas besuntadas de lascívia. Então
veio Gabriela. Só poderia ter sido em 1958, ano em que fomos descaradamente
felizes. Além da Copa, o país do futebol ganhou o escritor que merecia. "Nenhum escritor brasileiro criou
um universo tão sintonizado com o imaginário de seu povo e do país", resumiu
o autor cubano Severo Sarduy. A sintonia, insista-se, foi consolidada depois
que Jorge renunciou a escorregões panfletários e compreendeu que, para
atacar disfunções sociais, um autor não precisa abdicar do sorriso.
Principalmente numa nação que, apesar de desdentada, segue risonha. Deve ter
havido algum conluio dos orixás para que se desse a luminosa metamorfose. O
político sem maior brilho resolveu concentrar-se no ofício de escritor, o
deputado liberado pela cassação das tediosas sessões no Congresso encontrou
tempo para sessões nos terreiros a serviço dos orixás. Na hierarquia do
candomblé da Bahia, existem dez obás. Obá quer dizer "homem sábio". Jorge
Amado é um deles. Provou que era mesmo sábio ao incorporar a lira do
delírio, revogar todas as fronteiras do fantástico e cair no gosto do povo.
Coisas do candombé. Com os sucessos seguintes, Jorge
atingiu simultaneamente dois órgãos muito sensíveis. Um foi o coração dos
leitores. Outro, o fígado de críticos para os quais quem ganha dinheiro com
atividades intelectuais, no Brasil, comete crime de desacato à autoridade
acadêmica. Para que tanto barulho em torno de um autor incapaz das
invencionices que surpreendem (e atordoam) os leitores de um Guimarães Rosa?
O romancista baiano tinha talento para contar histórias, concediam alguns.
Mas que nota atribuir-lhe depois de confrontar seus livros com a obra de
Machado de Assis? "Se é verdadeiro dizer que o estilo é o homem, temos que
Machado é mais estilo que homem, e Jorge mais homem que estilo", encerrou a
questão um juiz inatacável: Vinicius de Moraes. Ele foi um dos incontáveis amigos
de Jorge que freqüentaram a casa do Rio Vermelho, seguindo a procissão que
incluiu, além de todos os escritores brasileiros que valem um dedo de prosa,
gente como Nicolás Guillén, Pablo Neruda, Paul Éluard, Jean-Paul Sartre e
Simone de Beauvoir. A cada 10 de agosto, aniversário do escritor, a revoada
de cabeças notáveis completava a paisagem. Jorge morreu em 06 de agosto de
2001, pouco antes de completar 89 anos. No entanto, os personagens a quem o
escritor conferiu a graça da vida sem fim garantiram a Jorge Amado a
eternidade.
(© Revista ÉPOCA)
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