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A utopia, do poder ao palco

05/09/2004

Gilberto Gil


Hugo Sukman

   Gilberto Gil garante que não é dois. Seja na Esplanada dos Ministérios ou no palco do Canecão trata-se do mesmo artista-político-pensador com a missão de cantar, propor e pensar a mestiçagem como a melhor possibilidade de se reconstruir uma civilização brasileira.

   — O presidente Lula, quando me escolheu para ministro da Cultura, estava esperando isso do meu trabalho. Ideologicamente, o governo está afinado com a idéia da mestiçagem — disse Gil ao GLOBO em seu apartamento no Rio, ainda sonado pela viagem de volta da Alemanha, onde estava em missão oficial, e triste pela morte trágica do produtor do seu último disco, Tom Capone, que seria o produtor do próximo, “Eletracústico”, show que traz ao Canecão em três apresentações a partir da próxima sexta-feira.

   Gil admite que o governo “recuou para avançar” na política cinematográfica, recusa pecha de autoritário e comenta seu flerte com os sons eletrônicos.

As coisas parecem ter se apaziguado com o lançamento do anteprojeto final da criação da Ancinav, com a supressão ou correção de alguns artigos polêmicos. Mas qual foi a sensação de ter sido chamado de autoritário?

GILBERTO GIL: Não senti nada, porque aquilo era retórica do combate, típica da política e da gestão.

Quando você foi indicado ao ministério, houve grita da esquerda do PT, como que refazendo a velha rixa entre a esquerda ortodoxa e os tropicalistas. Agora, você é visto como membro desse grupo de esquerda. O que mudou?

GIL: Para você ver como era retórico (risos) . Primeiro, é legitimo que essas visões se dêem, porque tenho me deslocado politicamente no decorrer do tempo. Essa visões não necessariamente fogem a uma correspondência real, verdadeira. Estou num governo, se o governo é considerado isso ou aquilo, essa consideração pode colar em mim. Só que nesse caso não cola. Não há nada autoritário em mim, nem no modo de atuação do ministério. Até falei, depois da crise, que aquilo era a tática do abafa, jogar uma carga pesada em cima para inibir os nossos movimentos.

Quem são os adversários de sua gestão?

GIL: Cada setor quer regulamentação para os outros e não para si (risos) . O pessoal da produção se queixa daquilo que da regulação os atinge, idem para distribuição, exibição, TV, empresas internacionais. Há sempre uma queixa porque a regulação é feita para todos e não para uma área do setor.

A taxação às empresas multinacionais do cinema é uma velha reivindicação do setor cinematográfico. Por que a grita, agora que ela é proposta?

GIL: Porque na verdade, ainda que as pessoas se queixem daquilo que as atinge, precisam do papel do Estado na vida econômica, social e política. O enfraquecimento dos estados corresponde a vantagens obtidas pelo setor produtivo em relação a ter mais autonomia, liberdade, mas na verdade o papel mediador do Estado continua necessário. A auto-regulação não é algo ainda totalmente viável, porque o sistema não está completamente aperfeiçoado, os agentes ainda não estão totalmente civilizados, nem mesmo o nosso projeto de civilização está completamente concebido. Além da questão política, que é desautorizar um governo por disputa de espaço político. Tudo que puder ser atribuído negativamente ao governo melhor para os grupos políticos adversários.

Se a sua presença no ministério facilita uma série de coisas por sua popularidade, também expõe mais a figura do ministro...

GIL: Mas não me sinto atingido. É uma briga que extrapola a minha presença, ela é da política do país. Eu fico quieto. Evito me deixar perturbar. Fico o mais isento possível, tento considerar o posicionamento de quem se opõe a mim, ou o que eu represento e faço e até reconsiderar minhas posições, como foi o caso agora. Achei que a confecção do texto deixava margens aqui e ali a interpretações equívocas em relação às nossas intenções.

Em hora nenhuma a parte dura do governo, vinda da ortodoxia de esquerda, influenciou nesse processo?

GIL: Foi um erro, um descuido. No caso das expressões do projeto que causaram espécie e recusa elas vinham da Constituição, eram reproduções de trechos de artigos constitucionais. A de colocar em vigor princípios constitucionais é quando as pessoas são atingidas. E aí, reagem. No trecho geral da Constituição tudo bem.

Como está sua relação com seus pares? Volta e meia um compositor discorda de sua posição contrária aos interesses dos compositores, como sua posição pelo não pagamento de direitos autorais pelos exibidores de cinema...

GIL: Mas o ministro não é compositor, o choque é esse. Tenho que estar eqüidistante de todos os interesses e, em princípio, interesse de ninguém, mas o interesse público. Eu não tenho relação pessoal, como ministro, ou melhor, não coloco qualquer coisa que venha do plano da relação pessoal a influenciar ou determinar o posicionamento ministerial. Não se ganha, imediatamente com um cargo, a condição de super-homem ou sub-homem então residualmente pode-se reagir humanamente a isso. Mas as próprias pessoas não me cobram porque sabem que eu sou ministro, que se puxar a brasa para a sardinha deles não pegaria nem bem. Podem falar disso até em reivindicações públicas, mas pessoalmente não.

Num artigo, Cacá Diegues diz que, sendo você quem é, não pode concordar com a intenção autoritária. Ou seja, ele personaliza...

GIL: Mas isso é natural que seja, o que diferencia os governos são os homens. É isso que ele quer dizer: uma pessoa não autoritária não pode ter atos autoritários.

Há resquícios autoritários de esquerda no governo?

GIL: Não acho.

O objetivo de sua gestão é regular os setores culturais?

GIL: Um deles. Regular áreas onde isso seja mais urgente, necessário e ainda insuficiente. Basicamente no setor complexo, que é o de audiovisual. Na área do direito autoral, em que nós não temos atribuição regulatória, mas podemos mediar, encaminhar, apoiar movimentos mas não podemos tomar iniciativa.

A Ancinav será implantada do jeito que foi proposta?

GIL: Do jeito que tem que ser, que a demanda requer, e é uma demanda geral do setor. Quando a imprensa diz “o governo recua”, se recuamos para avançar, então está bom.

Mas recuou, não?

GIL: No sentido de admitir, corrigir, rever, retocar o texto e tal, neste sentido, sim. Exatamente para que se avance no sentido da manutenção dos princípios pretendidos, na decisão de que a Ancinav seja criada, neste sentido o recuo fez avançar a proposta básica.

A taxação, cuja intenção seria beneficiar a produção nacional, é acusada de aumentar os preços dos ingressos...

GIL: Não é necessário aumentar preços, a taxação representa 1,5%. Será que é preciso repassar isso para os ingressos? Venho usando o exemplo da cesta básica, que o setor, as cadeias de supermercado se uniram aos esforços governamentais e da sociedade para não reajustar preços. É um esforço, o governo não deve fazer tudo sozinho.

Há um esforço do governo notadamente na área do audiovisual. Outros setores reclamam de falta de atenção, como o da música popular, que tirando o Projeto Pixinguinha pouca atenção teria do governo...

GIL: Uns setores necessitam mais, algumas áreas estão mais preparadas para responder à proposta de atuação, mais organizadas.

Ao fim da sua gestão, o que espera ter alcançado?

GIL: Espero ter conseguido tratar da questão do aperfeiçoamento institucional do ministério, no sentido da capacidade de atuar, do aumento do orçamento, e ter deixado um pouco mais impregnado tanto na sociedade quanto no governo um sentido amplo da cultura, um significado mais moderno da dimensão cultural. Quero inserir a cultura na mesa de cada brasileiro, que ela seja vista como o feijão e o arroz, ou seja, como algo comum e necessário para as pessoas.

O Globo)

Conceito da ‘Refavela’ resume o trajeto de Gil

Em seu novo show você canta coisas como “Imagine”, de John Lennon, que é uma proposta utópica. A sua atuação política está impregnando sua atividade musical?

GIL: Esse show é baseado naquela apresentação que fiz na ONU, no ano passado, a dimensão conceitual vem dali. Era abordar a dimensão utópica da vida, a idéia do aperfeiçoamento da vida. Utopia é isso, como ter homens melhores, sociedades melhores, vida humana melhor. Neste sentido o show é isso.

Como isso aparece no show?

GIL: Há músicas que defendem universalização de direitos, a humanização de relações políticas e econômicas.

Então você não despe o terno de ministro quando entra no palco?

GIL: É. A dimensão do serviço público, da responsabilidade com o papel de governo não está totalmente despida de mim no palco, como você diz. Porque acho que não tem mesmo como ser diferente. São todas as duas, a do artista e a do ministro, dimensões públicas.

E o conceito “eletracústico”?

GIL: Foi para simplificar, para enxugar, para sair do compromisso com a pletora. E aí veio a coisa de usar instrumentos acústicos misturados com instrumentos elétricos e aproveitar, na parte eletroeletrônica, a dimensão atual com samplers, midi nas percussões e cordas. Usar acordeom, teclados. É aquele regional-universal que eu sempre fiz. É trazer as novas tecnologias para esse campo regional nordestino, carioca bossa-novístico.

Por que você não está compondo?

GIL: Como sei que há falta de tempo eu inibo o impulso, não crio expectativas para mim mesmo de que vou compor.

Como nasceu a idéia do próximo disco?

GIL: Tom Capone viu um show na Marina da Glória e depois daquele dia me propôs. Estava tudo pronto para gravar no estúdio dele, da mesma forma que ele fez O Rappa, ao vivo no estúdio. E vou manter isso, até como uma homenagem à memória dele.

Quais as características de Tom Capone que lhe agradavam?

GIL: Ele tinha um gosto muito aberto, é de família nordestina, eclético, brasileiro. A ambição dele era de abranger tudo, de compreender a pluralidade brasileira com essa vastidão de ingredientes, de elementos de formação. E estava se dedicando a isso, a produções variadas. E como produtor, no estúdio, talvez tivesse mais do que outros produtores o compromisso com a artesania , com a sonoridade. Ainda que tivesse também o compromisso com o conceitual, os significados. Ele significava um amadurecimento do setor no Brasil.

Você ouve música eletrônica ortodoxa?

GIL: Só em festas. Mas outro dia ouvi o disco novo do Marcos Susano, que é radical na eletrônica. É interessante que os jovens estejam experimentando isso. Porque tem uma quantidade imensa de recursos, barateia, democratiza. Muitos não-músicos fazem música, pessoas que têm sensibilidade musical mas não têm o treino, então vão tocar máquinas que tocam. Mas que de qualquer maneira é veículo para expressão, sensibilidade. É música. Além de se poder inventar. É um campo aberto e gosto do aspecto mutante que os sons têm com a eletrônica. O sampler: um martelo percutindo numa mesa é gravado e processado através de vários filtros, expedientes eletrônicos. Vira um som que você nunca ouviu, que não está na natureza.

Você usa isso no show?

GIL: Logo no primeiro som do show. Já é um som percutido como se estivesse dentro de um túnel imenso. Sai dos aparelhos do Susano aquela sonoridade agônica que você tem nas paisagens cósmicas. Parece que vem ou vai para um lugar distante, a sensação tubular, da expansão do tubo. Isso introduz “Refavela”.

“Refavela” é uma espécie de seu hino, seu ideário? Você sempre a utiliza em momento em que quer dizer o que pensa...

GIL: É, gosto muito mesmo dessa música cujo assunto é o meu principal, a mestiçagem. Mestiçagem em todos os sentidos, política, ideológica, poética, musical, artística. Esse paradoxo da pós-modernidade que é a exigência de juntar fragmentos e a quase impossibilidade de que isso resulte em novas unidades. É uma fragmentação inevitável, irrecusável mas ao mesmo tempo de difícil operação. Como reconstruir novas totalidades, novas sínteses a partir dessa fragmentação. Tem sido tudo que tenho feito na minha vida, o tropicalismo foi isso, como conciliar impertinências fundamentalistas com aberturas radicais, o cosmopolitismo universal com o fundamentalismo paroquial e os fragmentos de tudo isso como reconciliar em totalidades democráticas, que avancem realmente na direção das utopias. Minha viagem tem sido essa, e “Refavela” fala disso.

O ministro também atua assim?

GIL: O meu interesse em ser ministro foi por isso. O presidente, quando me escolheu, esperava isso do meu trabalho. Ideologicamente, o governo está afinado com a idéia da mestiçagem.

Então não é um governo de esquerda?

GIL: É um governo social-democrata. Eu já dizia que esse governo seria uma continuação do anterior. Disse que Lula era o candidato de Fernando Henrique. Apoiei a política do Malan até o final. O dia em que fui apoiar Lula em São Paulo, com Alfredo Sirkis, Juca Ferreira, representando uma ala do Partido Verde, era dois anos antes das eleições. Fernando Henrique só não apoiou Lula porque não era do partido dele (risos) . No fundo, ambos pertencem aos quadros da centralidade, da política ao centro, como convergência do que há de melhor na tendência liberal e o que há de melhor na tendência socialista. É a democracia, o único regime possível para a mestiçagem.

O Globo)


Político no conteúdo, experimental na forma

   “Eletracústico” é um show eminentemente político, em termos de conteúdo, e experimental na forma, meio acústica, meio elétrica, meio eletrônica de “ resignificar ” canções durante o forçado período de entressafra autoral de Gilberto Gil.

   — Sem compor, me dedico integralmente a performar — diz Gil.

   A política está no repertório: canções como “Imagine” de John Lennon (ultra-enriquecida em termos harmônicos), “Refavela”, “Soy loco por ti America”, “Não chore mais”, “Asa Branca”, “Aquele Abraço”, entre outras que, de alguma forma, tratam de utopias ou questões políticas e sociais.

   Formalmente, Gil e banda — Sérgio Chiavazzoli (guitarra), Marcos Suzano (percussão e instrumentos eletrônicos), Gustavo Di Dalva (percussão) e Cícero Assis (acordeom e teclado) — fazem um diálogo entre os regionalismos brasileiros, sobretudo nordestino e carioca, com as novas possibilidades de sons eletrônicos. A ser gravado em estúdio em outubro, “Eletracústico” será seu próximo disco.

O Globo)

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