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05/09/2004
Adriana Pavlova Enviada especial OLINDA, PE
Na Igreja da Sé de Olinda, a mais
antiga do país, o mais celebrado pianista brasileiro da atualidade tinha
como missão seduzir um público de 800 pessoas, que, depois de muitas filas,
assistia à abertura da Mostra Internacional de Música em Olinda, a Mimo,
quinta-feira à noite. Se quando Nelson Freire tocou as cálidas notas do
Siloti Prelúdio para órgão em Sol menor, de Bach, uma multidão ainda gritava
fora da igreja para tentar entrar, atrapalhando a concentração do músico e
constrangendo os sortudos que estavam lá dentro, já na Sonata Alla Turca, de
Mozart, os ânimos pareciam acalmados no sereno e dentro da construção
centenária. ADRIANA PAVLOVA viajou a convite da produção do festival (© O Globo) Um mimo de música
em Olinda
Igrejas abrem as portas para receber festival de internacional de
música erudita, tendo como principais atrações o pianista Nelson Freire e
o Blas Rivera Trio O pianista mineiro Nelson Freire, que completa 60 anos dia 14 de outubro, abre a 1ª Mostra Internacional de Música de Olinda (Mimo), na quinta-feira. A notícia não poderia ser melhor: considerado um dos cinco maiores pianistas da atualidade, Freire dará um concerto grátis na Igreja da Sé, em Olinda. Tocará sonatas de Bach, Beethoven e Mozart e o Concerto para Piano e Orquestra do norueguês Edvard Grieg, com a Orquestra Sinfônica do Recife, sob a batuta do maestro Osman Giuseppe Gioia. O pianista, que é muito exigente com o instrumento que irá usar, tocará num piano de cauda da marca Steinway & Sons, comprado na Alemanha para o teatro da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Ele foi alugado pelo festival e é considerado o melhor no Estado. Para completar, o Mimo oferece, ainda, gratuitamente, a exibição do documentário Nelson Freire, de João Moreira Salles, que além de traçar um perfil do artista brasileiro exibe trechos de concertos e cenas em duo de piano com a amiga Marta Argerich, pianista Argentina. O Mimo, entre os dias 2 e 5, será realizado em várias igrejas de Olinda. E apresentará nomes consagrados da MPB, da música erudita e da portenha: Wagner Tiso, Márcio Malard, Lício Bruno, Blas Rivera Trio, Tito Cartechini, Elizabeth Mucha, Jerzy Milewski e Aleida Schweitzer. Os artistas tocarão no Convento de São Francisco, no Mosteiro de São Bento e na Igreja do Rosário dos Homens Pretos de Olinda. A entrada é grátis mas as senhas somente serão distribuídas uma hora antes dos cinco concertos e da exibição de três filmes nacionais sobre música erudita: Villa-Lobos – Uma Vida de Paixão, de Zelito Viana, Tônica Dominante, de Lina Chamie, e Nelson Freire, de João Moreira Salles. O Mimo é uma produção da empresa carioca Lume Arte e Marketing Cultural, com patrocínio da Fundação Nacional de Arte (Funarte) e da Infraero e com apoio da Prefeitura de Olinda. O custo total da produção ficou em R$ 120 mil, conta Lu Araújo, da Lume Arte, que promete que o evento passará “a fazer parte da programação anual da cidade, ampliando as apresentações em 2005 para 22 concertos, contemplando todas as igrejas de Olinda”. (© JC Online) “Não toco o que não
me comove”
Recatado, tímido, admirado. São adjetivos com os quais se constrói o
perfil do pianista Nelson Freire. Querido no meio musical, acostumado a
tocar para platéias seletas no Brasil e no exterior, Freire é um dos
maiores intérpretes da atualidade. Avesso a badalações, foi pego de
surpresa e tornou-se popular pelo sucesso do filme que João Moreira Sales
fez sobre ele. Na entrevista ao JC, Freire mostrou-se à vontade,
contrariando o mito. NELSON FREIRE – Foi feito para Olinda mesmo, alguns queriam um recital, outros um concerto. Decidi fazer metade, metade. O repertório é bem popular mesmo, com a Sonata de Mozart, com a Marcha Turca, a Sonata ao Luar, de Beethoven, que é muito romântica, e o Concerto de Grieg, que é muito lindo. Achei que iria ficar bem essa combinação. JC – Por que não colocou Frederic Chopin, a sua especialidade? FREIRE - Deixei para uma próxima oportunidade, não dá para fazer todos de uma vez só (risos). Fica para o próximo recital. JC – O Concerto de Grieg oferece ao pianista oportunidade de mostrar técnica e elegância e sutileza de fraseado? NF – Dá muita chance sim, é um concerto muito romântico, muito virtuosístico e muito lírico e tem uma cadência muito difícil. O piano toca sozinho no primeiro movimento e é um concerto que está no meu repertório há muitos anos, que todo desde adolescente, que gosto muito e que gravei, inclusive, anos atrás para a Columbia. É um concerto que fazia alguns anos que não tocava e que voltei a tocar nessa temporada. Repertório tem dessas coisas: você deixa de tocar um pouco, sente saudades e retorna. Quando você passa muito tempo sem tocar uma obra, quando retorna vê de outra forma, descobre coisas novas. É como quem convive com um quadro a vida inteira e um dia descobre um detalhe que não viu antes. JC - O senhor gravou Chopin no ano passado e agora chega ao mercado um CD com obras de Robert Schumann. Haverá outros CDs pela Decca? NF – Já estão previstos para eu gravar pela Decca os dois Concertos de Brahms com a Orquestra de Leipzig, Alemanha. Deve ser no próximo ano. Mas, esse ano, ainda tenho outra gravação de Chopin, que deve ser os Estudos Opus 10, a Sonata da Marcha Fúnebre e a Barcarola. JC – Por que o senhor passou tantos anos, cerca de 25 anos, sem gravar? E volta a gravar num momento em que a indústria fonográfica não está nada bem... NF – Sim, foram 25 anos sim. É verdade, a indústria não anda bem, mas se não gravar agora, não grava mais. Como eu não sou mais uma criança, eu resolvi gravar, mesmo não gostando muito,mas tudo na vida é arte. E aí veio essa proposta da Decca, que apesar da crise toda eles tiveram essa confiança e eu achei então que não podia jogar fora essa oportunidade. JC – Guiomar Novaes, a pianista paulista que o senhor tanto admira, tocava com muita alegria. Essa alegria o senhor também sente quando está num recital ou concerto? NF – Eu procuro, eu procuro, mas às vezes ela não vem. Cada concerto é uma história mas, em algum momento do concerto a gente tem esse prazer, a gente fica satisfeito. Ela continua sendo minha grande referência e a cada vez que a escuto descubro uma coisa nova. É aquela coisa eterna, né? JC – O senhor acredita que a sua imagem no Brasil mudou depois do documentário do João Moreira Salles? NF – Eu acredito que sim porque o filme me popularizou muito. Eu era bastante conhecido, mas no meio musical. E foi inesperado esse sucesso porque esperávamos no máximo 15 mil espectadores e, até agora, já são mais de 70 mil pessoas que viram o filme. Então, muita gente na rua me reconhece, vem falar comigo e ficou essa coisa de ficar mais popular. Mas o pessoal que gosta de concertos também gostou muito do filme porque o palco distancia as pessoas do artista, ficam sem saber quem você é e o filme conseguiu mostrar bem como eu sou apesar de minha timidez... JC – Mas o que me chamou mais a atenção no filme não foi a sua timidez, mas o seu recato como artista. NF – Essa palavra recato o João Moreira Salles usou muito e ele até queria chamar o filme de Um Estudo sobre o Recato. Ele usou muito essa palavra para definir a minha personalidade. JC – Por que o senhor defende tanto o recato na arte num País em que se apela para o desnudamento da intimidade? NF – Uma das razões é precisamente essa: existe uma saturação quase obscena das pessoas pelos programas de TV, como o Big Brother e as revistas de intimidades. É um negócio tão intensivo que se torna indigesto (risos). No meu temperamento, tenho uma repulsa natural por isso e ao mesmo tempo isso me torna cada vez mais recatado. Deus me livre dessa coisa ostensiva, mas eu sempre fui assim, é de minha natureza. JC – Mas o senhor me passa a impressão de que está sempre dizendo para quem te ouve tocar: não preste atenção em mim não, ouça a música que estou tocando. Verdade? NF – O importante é isso mesmo, o importante é a música que estou tocando. JC – O senhor é valorizado no Brasil tanto quanto é admirado no exterior? NF – Acho que sim, sobretudo depois desse filme. Mas acho que sempre fui muito querido aqui também. JC – Como um pianista como o senhor irá reagir numa igreja aqui em Olinda, num concerto gratuito e para um público que não é precisamente o seu? NF – Eu acho ótimo, não sabia que será numa igreja. Gosto muito dessa idéia, gosto muito de tocar no Brasil e sair do eixo Rio-São Paulo. O público das grandes cidades é alguma coisa assim muito blasé e então é muito importante para eu sentir que estou tocando para quem não está acostumado e para gente que é capaz de captar isso. É muito importante e muito gratificante não ficar tocando só para a elite, acho que a arte deveria estar ao alcance de todos. JC – Quem é seu compositor preferido? Aquele que mais te toca e emociona? NF – Um só é muito difícil dizer: tenho Schumann, Mozart, Rachmaninoff, Liszt, Debussy, Villa-Lobos. JC – E qual é a obra que mais comove o senhor? NF – A gente toca a mesma peça várias vezes e existem algumas ocasiões em que a gente está mais sensível. Não toco nenhuma peça que não me comova, mas isso depende do momento. Acontece. Depende da lua (risos). O Schumann me comove muito, aquele terceiro movimento da Fantasia Opus 17, principalmente. Algumas vezes, em concertos, senti alguma coisa muito forte, uma emoção, acho que até uma lágrima caiu. Não é sempre que isso acontece, mas você não pode também tocar muito as obras que te comovem para não banalizá-las. (© JC Online) Do repertório clássico à música popular brasileira Publicado em 31.08.2004 Acostumado a tocar com grandes orquestras na Europa, EUA e Japão, como a Filarmônica de Berlim, a Sinfônica de Londres e a Royal Philharmonic, e sob a regência de reconhecidos maestros, como Pierre Boulez, Lorin Maazel e Kurt Mazur, Nelson Freire terá um único ensaio com a OSR, quinta pela manhã, na Igreja da Sé. Mas a orquestra vem ensaiando o Concerto de Grieg há duas semanas. O maestro Osman Gioia lembra que a peça faz parte do repertório da OSR e que essa oportunidade de se apresentar ao lado de Nelson Freire ajudará, por certo, colocar a OSR na pauta dos grandes solistas brasileiros. O Mimo apresentará o saxofonista e compositor argentino Blas Rivera, radicado em Madri, herdeiro da música de Astor Piazzolla e que se move entre o tango, o jazz e o clássico. O Blas Rivera Trio tem Diego Gonzalo ao piano, Ana de Oliveira no violino e o bandoneonista Tito Cartechini, compositor argentino radicado na Espanha e discípulo de Piazzola. Outro artista será o compositor, instrumentista e arranjador Wagner Tiso, que já tem 28 discos gravados e que compõe para cinema, teatro e televisão, dedicando-se à música popular, jazz e balé. Tiso irá se apresentar com o violoncelista Marcio Malard, que tem o recorde de ter permanecido 37 anos à Orquestra Sinfônica Brasileira e que já tocou no Carnegie Hall de Nova Iorque, no Concertgebouw de Amsterdã, na Salle Pleyel de Paris. O violinista polonês Jerzy Milewski, que vive há anos no Brasil, se apresentará ao lado da mulher e pianista Aleida Schweitzer. Os dois são instrumentistas versáteis que se adaptam a um vasto repertório, passando por Bach, Beethoven, Brahms e Mozart, jazz, Beatles e MPB. Nascido no Rio de Janeiro, o barítono Lício Bruno se apresentará ao lado da pianista escocesa Elizabeth Mucha, que já se apresentou nos EUA, Canadá, Caribe, Oriente e Europa como acompanhadora, camerista e recitalista. Lício Bruno é reconhecido como um dos principais intérpretes eruditos do Brasil, tendo como característica a versatilidade para cantar ópera, opereta, missa e oratório, repertório sinfônico e camerístico. (© JC Online)
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