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O mar de histórias curtas de Jorge Amado

05/09/2004

O escritor baiano produziu contos para revistas e jornais, dos quais foram selecionadas as narrativas de Cinco Histórias. Veja especial sobre Jorge Amado

Ubiratan Brasil

   São Paulo - Jorge Amado gostava de dizer que seu texto era prolixo, sem chance para a síntese. Assim, escreveu praticamente só romances, pouco se aventurando em outros gêneros literários. Quando convidado, porém, ele produziu alguns contos, que estavam esparsos até a Fundação Casa de Jorge Amado, na Bahia, selecionar os mais representativos e reuni-los em Cinco Histórias (116 págs., R$ 60), livro que foi oficialmente lançado hoje, às 18h30, na Academia Brasileira de Letras, no Rio.

   São histórias sobre assuntos que Amado tratava com intimidade: carnaval baiano, jogatina, morte. Em alguns, como Do Jogo de Dados e dos Rígidos Princípios, percebe-se até o fôlego para se transformar em uma narrativa maior graças ao final aberto. "Para mim, é muito mais fácil dominar as grandes extensões do que fazer sínteses, que é o que o conto exige", disse ele em entrevista ao Cadernos de Literatura Brasileira, do Instituto Moreira Sales. "É por isso que me aventurei pouco em outros gêneros. Sou mesmo um romancista."

   "Mesmo assim, Jorge Amado utilizava os contos para dar espaço aos personagens de outros romances que insistiam em não abandoná-lo", comenta Myriam Fraga, diretora da fundação e organizadora dos textos. "Quitéria, por exemplo, da novela A Morte e a Morte de Quincas Berro D´Água, aparece em um dos contos, assim como Teresa Batista, que surge como irmã de uma prostituta em História do Carnaval."

   A edição conta com ilustrações de cinco artistas convidados, que buscaram criar com o texto a mesma intimidade mantida com Carybé, ilustrador cativo das obras de Jorge Amado.

   Myriam lembra que a seleção dos contos começou com a ajuda do próprio autor, que morreu em agosto de 2001, aos 88 anos - com a organização do acervo da fundação, pesquisadores iniciaram uma busca pelos textos curtos, publicados em sua maioria em revistas (História do Carnaval, por exemplo, saiu em uma edição de O Cruzeiro, de 1945). "Se era prolixo até na oratória, levando horas para contar um caso saboroso, Jorge, porém, não dava importância às pequenas histórias, que não considerava algo importante."

   Myriam não concorda. Segundo ela, os contos de Amado mostram a mesma característica essencial dos romances, que é a presença de um povo brasileiro reconhecido em toda a sua força e divindade, algo que dificilmente é notável no texto de outro nome da literatura nacional.

   É surpreendente a dimensão popular e internacional de sua obra, como mostra a freqüência da Fundação Casa de Jorge Amado: na semana passada, a instituição recebeu a visita de uma pesquisadora italiana e do presidente do Pen Clube da Galícia, na Espanha. "Há ainda muita curiosidade sobre seus livros", atesta Myriam, lembrando que, só no ano passado, cerca de 96 mil pessoas visitaram o espaço.

   Localizada em um estratégico ponto turístico de Salvador, o Largo do Pelourinho, a fundação conta com acervo de mais de 200 mil documentos entre fotos (que totalizam 50 mil), originais, correspondência e exemplares de traduções em 49 línguas.

   Myriam prepara agora a seleção de artigos publicados em jornais e de teses acadêmicas. Para isso, busca apoio cultural de empresas, como a Braskem, que financiou Cinco Histórias.

estadao.com.br)


Sem autógrafos e com muito fôlego

O jornalista Paulo Fernando Craveiro lança discretamente e com sucesso seu primeiro romance, que tem Hitler como personagem. Trama se passa na Paraíba

SCHNEIDER CARPEGGIANI

   Hitler, vencido na guerra, decide se exilar na Paraíba. Na vila de Rio Tinto, para uma melhor precisão geográfica. Chega de submarino e traz uma pistola Walther de 7,65mm nos quartos e a cruz gamada no peito. No café da manhã, come manga, abacaxi, queijo coalho, bebe água de coco, como se fosse mais um paraibano. Quando caminha pelas ruas, nem se preocupa com disfarces. É inegável: ainda é o mesmo das fotos, dos filmes. Disfarces seriam perda de tempo. O sol era testemunha que Hitler estava em Rio Tinto, assim como os moradores da vila, que não paravam de repetir “Eu vi Hitler”, como se a visão os restaurasse do banal do dia-a-dia.

   Um Hitler – e não necessariamente o Hitler – vagando sob o sol da Paraíba foi o mote escolhido pelo jornalista Paulo Fernando Craveiro no seu romance de estréia, Os Olhos Azuis da Sombra. O livro, lançado no final do ano passado, está tendo uma carreira na mão contrária daquela vivida em geral pelos livros pernambucanos.

   Os Olhos Azuis da Sombra, com selo da Editora Nossa Livraria, chegou ao mercado sem noite de autógrafos, quando, de acordo com a crença corrente no Recife, um livro pernambucano tem seu berço e ápice no dia do lançamento. Depois, morre e é esquecido. Nesse caso, o livro foi salvo da morte prematura por uma propaganda boca-a-boca das mais eficientes. É hoje uma dos mais vendidas nas livrarias do Recife, sem marketing, sem nada.

   “As pessoas chegam para mim dizendo que leram ou ouviram falar bem do meu livro. Fico surpreso. Não houve propaganda alguma”, afirma, Paulo Fernando Craveiro.

   Sua estréia tem várias razões de merecer o boca-a-boca. O romance coloca o leitor junto ao impasse diante da verdadeira identidade do estranho alemão que aporta no interior paraibano. Ele tem a mesma nacionalidade de Hitler, as mesmas feições, sua mãe tem o mesmo nome da mãe do ditador e pela sua cabeça passam lembranças imprecisas de um exército vencido de milhares de homens. Tudo é muito vago.

   Com o decorrer da trama, fica explícito que não é a real identidade do forasteiro que está em jogo, mas o que sua presença errante, como uma assombração, pode causar à vida dos moradores de Rio Tinto. É o jogo de espelhos entre Hitler e seu outro que cria a atmosfera de estranhamento presente em toda trama. Esse estranhamento é o grande trunfo do livro.

   Sinônimo da essência do mal do século passado, Hitler é tratado com a mesma reverência e curiosidade que qualquer outra celebridade despertaria, se vista distante das páginas de jornais, e aparecesse, em carne e osso, vagando pela praia.

   “Hitler é um personagem fascinante, seja através do conceito de realidade introduzido na filosofia ocidental no século 13, seja a partir do imaginário coletivo. Logo percebi que ele transpunha os limites do real para se transformar num ente literário e a partir do qual poderiam ser tiradas ilações ficcionais”, justifica Craveiro, que completa “Hitler já aparecia na minha infância, em agosto de 1942, quando eu ainda era um menino, momento em que os submarinos nazistas atacaram cinco navios brasileiros na costa do Nordeste. O torpedeamento dos navios marcou minha infância.”

   O Hitler de Os Olhos Azuis da Sombra foi construído a partir de diversas pesquisas do autor pela Europa. Craveiro queria se aproximar dos traços do ditador alemão para fazer do Hitler original o seu próprio Hitler e aquele dos moradores de Rio Tinto – “Saí atrás de uma lenda, como um caçador atrás de sua cabeça e através dela descobri caminhos para criar personagens. O livro é a celebração de um processo criativo literário a partir da legenda de um anti-herói e da realidade social da vila paraibana nos anos 40, assustada com a II Guerra.”

   “O comportamento do principal personagem de Os Olhos Azuis da Sombra, Adolf, induz a atrelar o livro ao conceito de transfiguração psíquica que propõe a ruptura com a realidade”, explica Craveiro.

   ESTRÉIA TARDIA – Só agora, aos 70 anos, que Craveiro decidiu lançar o seu primeiro romance. Antes havia publicado livros de poesia e de crônicas, recolhidas em seu trabalho como jornalista. “Faltava tempo para escrever. O jornalismo e o tipo de texto que ele me exigia não me possibilitavam fazer o romance. Agora, aposentado, eu tenho tempo para isso. Só me arrependo não ter começado mais cedo”, atesta.

   Os Olhos Azuis da Sombra já tem seu sucessor pronto. É O Último Dia do Corpo, romance engavetado de Craveiro, que chega às livrarias em novembro, também pela Editora Nossa Livraria e também sem noite de autógrafos. “Nunca me senti à vontade de fazer noite de autógrafos. É interessante que o único livro que eu não fiz lançamento está sendo, por ironia, aquele com maior fôlego.”

   “O Último Dia do Corpo, que escrevi durante longa temporada que passei nos Estados Unidos, conta a história de uma atriz que morre e se vê morta. Os acontecimentos da sua vida começam a fluir em retrocesso. A história é um drama psicológico em que a morte e o erotismo andam juntos. O leitor perguntará ao longo do desenvolvimento do enredo: a atriz suicidou-se ou foi assassinada? Isso somente se revela nas últimas páginas do livro que descreve um palco em que os personagens usam sempre máscaras naturais”, completa Craveiro.

JC Online)


Trechos do livro Os olhos azuis da sombra

De Paulo Fernando Craveiro

   A falsa impressão de que o sol poderia estar nascendo em pé, a partir do fundo do mar, haveria de prevalecer no fim daquela madrugada. O sol se levanta dentro d'água. O sol tem patas. É um cavalo raro que se embaralha com a linha do horizonte.

   Na praia, essa elevação de círculos ascendentes hipnotiza as pessoas no momento em que alguém sai de uma grande forma oval de bolo de chocolate. É um homem que transporta a escuridão de antes do amanhecer grudada ao corpo. Emerge, molhado, em meio aos pingos de uma chuva rala que ajuda a encher o mar. Olha para as coisas com os olhos brilhantes mais de um gato vivo, um gato pingado, do que com os olhos baços de um peixe.

   Tudo acontece antes do sol sair inteiro do mar como um bicho que se coloca de pé. No escuro é difícil ver o descorado rigor de sua cara, uma cor calcária plantada na pele, algo revelando-se aos poucos na anterioridade do foco luminoso do mar.

   O estranho chega à Barra de Mamanguape, a bordo do sub-marino nazista U-5 10, no sábado momo de sete de abril de 1945. Está acompanhado de um homem quase gordo e de outro quase magro. Há dois bigodes em cena. O dele e o do homem quase gordo. Ele desce por inumeráveis degraus de estrelas afogadas. Arrecifes. Um barco com nome de mulher, Moema, remos atados como suspensórios. Suposição da existência de Deus, submerso, coroado de algas, extasiando peixes. Ninguém lhe diz que errou de mar, o mar não é esse, como se avisa uma pessoa que se enganou de rua. Quem o vê, tão feminino com trejeitos de ator do cinema mudo, duvida que ele seja o absurdo déspota e o furioso personagem da guerra.

   O submarino abre-se igual a uma tampa de piano. Aí ele desponta, cabelo caído na testa. Traz uma pistola Walther de 7,65mm nos quartos e a cruz gamada no peito. Pergunta-se, transtornado, quantos mil homens me restam?, quantos mil homens me restam?, sem atinar para o fato de que há somente mortos para comandar nas batalhas perdidas. Aparece na escotilha, o ar expulsando ainda a água do tanque de lastro do submarino, como se fizesse parte da torre do periscópio, chaminé e timões de imersão.

   Foi assim, dizem uns, não foi assim, dizem outros, uns e outros se desdizendo porque talvez estejam equivocados ou em transe. Saltou de galocha, garante um dos pescadores que testemunhara os estágios do desembarque, logo desmentido por outro que viu no estranho uma língua vermelha comprida, maior do que a boca, uma língua extraordinária, peluda e substanciosa.

   Ao chegar improvisa pantomimas sobre o mar da Paraíba. Em seguida desembarca com um pólipo falso nos intestinos. Repara tudo sem piscar, desde a escuridão que se esvazia até a descamação de eczema do submarino. Passados alguns minutos, avalia se haverá realmente manhã, depois dessa madrugada, ou se por acaso pisará em terra firme na procissão do próprio enterro.

   Ontem, de seu navio de guerra, ordenara do fundo do mar, pela última vez, o avanço de soldados mutilados, a ofensiva de panzers decrépitos e a revoada de bombardeiros de fuselagens arrancadas.

   Ele chega de maneira incomum, se efetivamente as narrativas batem com a realidade, versão diversa da história prosaica segundo a qual entrara na vila sentado na parte dianteira de um automóvel negro, ao lado do chofer, olhando em todas as direções sem quê parecesse perturbado, embora demonstrasse cansaço.

   Aqui o brilho do meio da tarde desvenda-lhe a cara com bigode pouco espesso, nariz de asas arredondadas, olheiras intumescidas e cabelo formando uma pastinha, traços medíocres facilmente esquecíveis se não fossem os de quem poderia ser. Ao contrário de Mercúrio, que assumira as feições do escravo Sósia para cumprir uma tarefa, é a cópia que assume a cara do deus para melhor se passar pelo outro.

   Cruza vagarosamente a vila de Rio Tinto, observa mulheres fazendo tricô à sombra de árvores projetadas nas calçadas das casas, homens velhos jogando firo e crianças seminuas correndo atrás de cachorros. Parece tolerante e enternecido, falta-lhe clareza ao pronunciar duas ou três palavras em português e se assusta quando um menino que pula corda escorrega na direção do veículo. Equívocos à parte, pensa que as crianças seminuas são saltimbancos ou anões barrigudos, figuras que se agitam nos dois pés, ou num só, como um saci, fazendo piruetas antes de desatar a gemer e a apunhalar com facas de brinquedo as sombras do chão.

   O estranho pergunta pouco ao chofer, não sabe perguntar quase nada, e o pior é que não responde, quando lhe fazem perguntas, porque não sabe responder. Começa a assoviar baixinho, o chofer sem saber o que ele assovia, um silvo brotando inchado das bochechas.

   O estofo do automóvel arde-lhe nas costas com o recheio de fogo do calor, um fogareiro progredindo no lombo, um incêndio instalado entre o úmero e a clavícula.

   Ao vê-lo no automóvel, uns sujeitos olham demais para ele, que não tem outra cara. Dão um giro de cento e oitenta graus no como para acompanhar-lhe o relance do rosto. Dois tipos de chapéu na cabeça, outros dois não.

   Ele chega e homens o olham, reconhecendo-o, ou pensando que o reconhecem. Não é aquele de quem tratam jornais, revistas, emissoras de rádio, movietones e pessoas aflitas?, não é esse que é o outro, se é que esse não é o outro que passara a ser ele?

JC Online)

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