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05/09/2004
Sem espaço no Brasil para seu forró incrementado, Silvério Pessoa volta
de uma terceira turnê internacional, firmando-se como nome importante da
world music Hoje é quase impossível folhear uma publicação estrangeira especializada em world music, termo ao mesmo tempo muito vago e bastante abrangente, para não se deparar com algum músico brasileiro, ou melhor, pernambucano. Lenine, DJ Dolores, Siba, Silvério Pessoa são alguns dos artistas mais freqüentes nessas publicações. No mais recente número da revista inglesa fRoots, há uma elogiosa crítica, assinada pelo editor Ian Anderson (o mesmo do Jethro Tull), ao último disco de Siba. Entre os dez CDS que os redatores da revista afirmam ter escutado enquanto criavam a edição está Bate o Mancá, de Silvério Pessoa. Silvério desembarcou no Recife, com a Refinaria, banda que o acompanha, voltando de mais uma turnê internacional. O grupo viajou 65 mil quilômetros, realizou 18 shows em nove países, um deles em plena selva malaia, no Rain Forest World Music Festival, em Bornéu, e manteve contatos que já garantiram uma outra turnê, em novembro. Ele dividirá o palco com o francês Massilia Sound System. “A música nordestina está com aceitação cada vez maior, e não apenas na Europa. Ficamos encarregados de encerrar o festival na Malásia e fiquei com medo de que não ficasse ninguém para assistir. Pelo contrário, fomos aplaudidos por um público de dez mil pessoas”, entusiasma-se Silvério Pessoa. A maior aceitação de sua música está mesmo na França. Segundo ele, o país passa por um movimento de afirmação de identidade cultural e apoia os músicos estrangeiros que se encaixam neste contexto, de valorizar suas tradições e seu idioma: “Além disso, há a semelhança do forró com a música que se faz no Sul da França, onde se fala um dialeto que tem muitas semelhanças com o português”. Da geração de músicos surgida com o manguebeat, Silvério Pessoa e o Cascabulho (grupo do qual foi vocalista e que está no páreo do Grammy latino deste ano, com o CD Caco de Vidro Puro) foram os únicos a assumir o forró (com todas suas variações) como influência principal, enfrentando a concorrência da vertente universitária e do retrô pé-de-serra: “Faço música dentro da tradição nordestina, mas não tenho medo de encarar o novo, utilizando elementos contemporâneos, samplers, programações. As raízes do meu trabalho estão em Jackson do Pandeiro e Frank Zappa”, diz Silvério Pessoa. Quando ele deixou a Cascabulho, virou um espécie de azarão da música pernambucana. Correndo por fora, Silvério Pessoa garante que nunca teve a preocupação de disputar o mercado com bandas que fazem música de mais fácil aceitação: “Implantou-se no Brasil mais uma ditadura estética. As novas gerações são bombardeadas pela música que passa na MTV. Para se fazer sucesso no País atualmente é preciso ter respaldo de uma grande rede de TV. Ter música em novela vale muito mais do que uma carreira internacional”, dispara. Mesmo assim, boas perspectivas abrem-se para ele no Brasil. Silvério confessa ter voltado de viagem certo de que, até cruzar novamente o Atlântico, não teria muito o que fazer por aqui, a não ser concluir o terceiro disco solo, Cabeça Elétrica Coração Acústico (que terá participações da banda Mei Tei Shô, de Lyon, e dos vocalistas Jari e Tatou, da Massilia Sound System), e produzir uma coletânea com forrozeiros de Caruaru. No entanto, mal chegou, recebeu um e-mail da Funarte parabenizando-o por sido escolhido para participar da segunda etapa do Projeto Pixinguinha, no ano que vem. E mais: seus dois primeiros CDs foram licenciados, por três anos para a Tratore Music, selo independente vinculado a ABMI, o que lhe alivia do trabalho de distribuição dos discos no Brasil. (© JC Online) O forró pode desbancar a salsa nas pistas francesas Na edição do dia 2 deste mês, a revista L’Express, dedicou duas páginas à influência do forró no Sul da França, aventando ainda a possibilidade dos ritmos nordestinos virarem uma nova mania naquele país, assim como aconteceu com a lambada em 1989. Aproveitando as semelhanças com a musette, música regional francesa, e o forró, que comungam, entre outras coisas, o uso da sanfona como principal instrumento, grupos como o Fabulous Trobadors e Le Bombes 2 Bal passaram a se valer também de triângulo e zabumba. O Fabulous Trobadors, principalmente. Ele participou do último disco de Lenine e canta emboladas como se estivesse na praça de uma cidade do Nordeste. E não é algo recente. Claude Sicre, um dos fundadores do Fabulous Trobadors, descobriu os emboladores em 1983 e de imediato fez uma associação dos improvisos com os dos trovadores provençais. Outro desses grupos com influências nordestinas, o Nux Vomica, até arrisca uma versão de Mulher rendeira, música do repertório do bando de Lampião. Sicre acha que o forró da Mestre Ambrósio, Heleno dos Oito Baixos e Silvério Pessoa possui qualidades rítmicas e coreográficas para contribuir para a volta das festas populares na França. “Há uma tendência de o forró substituir a salsa, como a principal música de dança lá. Eles me dizem que gostam mais do forró porque ele, em vez de afastar, aproxima as pessoas”, comenta Silvério Pessoa, que foi personagem da matéria da L’Express. Bruno Boulay, coordenador do Bureau Brésil de la Musique Française, um departamento ligado aos ministérios da Cultura, e do Comércio Exterior franceses, concorda com essa hipótese: “É algo que pode acontecer, até porque quem está por trás disso é o mesmo empresário que montou o Kaoma e fez a lambada virar sucesso internacional”, analisa. A perspectiva fica ainda mais ampla por ser 2005 o ano da MPB na França. Agora, é preciso pressa, antes que algum aventureiro se aposse da coroa. Já começa a fazer sucesso entre os franceses, a Orquestra do Fubá, grupo de forró universitário, formado por jovens paulistas e cariocas que vivem em Paris (JT). (© JC Online)
Cirandeira é homenageada com CD e livro
Vitalina Alberta de Souza Paz não nasceu na praia do Janga, mas soube cantá-la como ninguém, antes mesmo de conhecê-la. Nascida no engenho Muçaíba, em Jaboatão dos Guararapes, foi apelidada Duda desde a infância. Aos 12 anos, por influência de um tio, chamado Manoel, compôs sua primeira ciranda, fascinada pelas imagens sugeridas pelo parente que, sambador de coco, circulava por tudo quanto era festa popular de Pernambuco. Influenciada pelas histórias do tio Manoel, Duda iria compor muitas outras cirandas. Até que o próprio gênero tivesse seu nome agregado ao dela, como uma característica adquirida com muita propriedade: a ciranda de D.Duda. Nos anos 60 e 70 tal adjetivação consagrou-se com a criação de um bar de mesmo nome, na beira-mar do Janga, para onde mudou-se tempos depois. Aos sábados D.Duda puxava a sua ciranda. Ao longo dos anos, milhares de pessoas compareceram ao ponto. Estréia - D.
Duda cantava para divertir os filhos, as mulheres de pescadores e os
visitantes que vinham de longe. Suas composições, portanto, nunca tiveram
nenhum tipo de registro. É por isso que, segundo diz, a noite de hoje vai
ficar para sempre na sua memória. Por iniciativa de outra moradora da praia
do Janga, a compositora e intérprete Cylene Araújo, D. Duda ganha o primeiro
CD e um livro, que mistura dados biográficos com trajetória artística, e
ainda depoimentos de artistas e parentes, que dão uma visão mais pessoal. O
lançamento do CD Ciranda do Amor, e do livro Dona Duda - Primeira Cirandeira
do Brasil acontece hoje, às 20h, no Pátio de São Pedro. (© Pernambuco.com)
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