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O Sertão dos ritos medievais

05/09/2004

A Dança de São Gonçalo em obra do artista paulista José Vieira Madalena

Pesquisa constata existência de manifestação folclórica tida como extinta

Júlio Cavani
Da equipe do DIARIO

   O dia do Folclore ganha novos significados à medida que as tradições se renovam, se modificam ou se acabam. A Dança de São Gonçalo quase se encaixa nesse terceiro caso em Pernambuco, pois já havia sido dada como extinta no Estado, apesar de ainda ser praticada em outras regiões do Brasil. Uma pesquisa do historiador pernambucano Biu Vicente está confirmando que o ritual, de caráter religioso, continua vivo, presente nos costumes dos municípios de Floresta, Belém do São Francisco, Santa Maria da Boa Vista e Cabrobó, todos no Sertão.

   "A dança nunca deixou de existir, mas não havia nenhum registro formal a seu respeito, pois ela era apenas mencionada em pesquisas sem aprofundamento", explica Vicente, que descobriu a sobrevivência da manifestação por acaso, quando prestava uma consultoria para uma instituição naqueles arredores. A pesquisa está sendo desenvolvida na Universidade Federal de Pernambuco, com o título Estudo da Sobrevivência do Catolicismo Medieval no Vale do São Francisco, mostrando que a dança continua sendo praticada com fins religiosos, que têm origem na Europa.

   Segundo Vicente, há indícios, em documentos e igrejas, de que a dança já tenha sido praticada no Recife e em outras regiões de Pernambuco, mas foi se extinguindo aos poucos e se restringindo à região. Hoje em dia, segundo ele, o ritual não é mais acompanhado pela Igreja Católica, sendo executado como um pagamento de promessas. Não há dia do ano ou local específico para a dança, que pode durar 24 horas ininterruptas. "Eu vi um grupo dançar das 10 horas da manhã até às 4 da madrugada", exemplifica. Dividida em várias partes, a coreografia precisa ser reiniciada se houver qualquer tipo de erro ou interrupção.

   Tem gente que pede casa, emprego e desejos de todos os tipos. Vi um rapaz sendo obrigado a participar da dança porque sua mãe fez promessa ao santo pedindo para ele passar no vestibular. O menino acabou sendo aprovado em três universidades", conta o historiador. A manifestação acontece normalmenteem frente à casa de quem fez a promessa, que também tem que organizar a festa. Se alguém chegar no meio, tem que participar e ser bem servido pelo organizador, que não pode deixar nada faltar", detalha Vicente. Uma imagem de São Gonçalo é carregada durante o ritual, que pode ter a participação de pessoas de todas as idades, de crianças a idosos.

   Enquanto pesquisa as origens, Vicente está fazendo o registro com descrições, fotografias e vídeo, além de ter gravado as músicas para depois transcrevê-las em partituras, como uma forma de preservação. Sua intenção não é interferir nesse costume para mantê-lo vivo, pois a "sobrevivência ou não deve ser sempre natural". Nos outros estados, inclusive na região Sul, a dança sobrevive com regras, vestimentas, músicas, significados e outras características diferentes.

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Nordestinos mergulham na tradição

   As danças sagradas dos índios da Tribo Kariri Xocó, de Porto Real do Colégio, em Alagoas, saíram dos lugares secretos e ganharam as ruas e praças de Belo Horizonte, com o espetáculo Toré, que traduz manifestação da espiritualidade em vários momentos importantes da tribo. Antes apenas permitida aos iniciados, a dança ganhou outros palcos, segundo seus integrantes, há 15 anos e, por uma questão de sobrevivência. Antes eles viviam da caça e da pesca e hoje trabalham com o artesanato e com apresentações. No sábado, o grupo fez uma apresentação num dos parques da cidade, lembrando que a primeira dança era para harmonizar o ambiente e a energia das pessoas. Depois de algumas outras coreografias, o público foi convidado a participar da roda.

   Outro grupo do Nordeste, o sergipano Imbuaça, completou 27 anos e foi convidado pelo festival para apresentar dois espetáculos: Os Desvalidos, de palco, e Antônio, Meu Santo, montagem de rua. A primeira é focada no Sertão nordestino. A dramaturgia une os desvalidos do título, largados à própria sorte, com a história da embosca em Angico, que culminou com a degola de Maria Bonita e Lampião, em 1938. A dramaturgia é problemática. Por um lado, a peça mostra uma história de amor difícil, entre Felipe e Maria Melona, que se desentendem por conta da perversidade dos vizinhos. Depois a mulher aparece como cangaceira, tenta salvar o marido, ambos já velhos e isso tudo de forma pouco resolvida.

   Já Antonio, Meu Santo é um desbunde. O grupo exagera na caricatura de cinco solteironas que fazem qualquer promessa a santo casamenteiro para assumir um matrimônio. Mas é o que o grupo sabe fazer de melhor. Desbocado, engraçado, popular, o espetáculo segurou um público de mais de mil pessoas por mais de uma hora, em pleno sol de meio-dia, no domingo.

   O Festival de Belo Horizonte ganhou reconhecimento e a aposta de muitos patrocinadores. Isso não é à toa. A partir de uma pesquisa realizada sobre o que fica na memória da população da política cultural ou das ações culturais da Prefeitura, a primeira lembrança são os espetáculo do FIT.

Pernambuco.com)

Com relação a este tema, saiba mais (arquivo NordesteWeb)


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