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05/09/2004
Além dos hábitos refinados, o autor Aguinaldo Silva entende o gosto popular e consegue a melhor audiência para uma novela global das oito nos últimos três anos
Quando começa a novela global das oito, Senhora do destino, milhares de televisores de todo o Brasil estão sintonizados no mesmo canal. É a glória e a tortura do autor Aguinaldo Silva. Neste momento, da sua bela casa num condomínio da Barra da Tijuca, zona oeste do Rio de Janeiro, ele cumpre um ritual ligeiramente diferente dos espectadores que há 40 capítulos acompanham ávidos a sua trama. Aguinaldo liga a televisão e gruda um olho na telinha e outro no aparelho do Ibope, equipado com o programa real time, que fornece a contagem dos índices de audiência. Aos poucos, o cenho franzido de tensão é substituído por uma expressão de alegria. “Meu Deus, tinha 40 milhões de pessoas em casa, paradas, vendo o que eu escrevo!”, pensa. Não sem motivo, hoje Aguinaldo Silva é o verdadeiro Senhor do Destino que o País elegeu. Com poucas semanas no ar, seu folhetim conseguiu 47 pontos de média de audiência, batendo as bem-sucedidas antecessoras Celebridade, que no mesmo período tinha 42, Mulheres apaixonadas, 40, Esperança, 39, e O clone, 40. Sem dúvida é uma das arrancadas mais espetaculares de uma novela das oito da Rede Globo nos últimos três anos. E o público ainda nem imagina a questão que promete causar a maior polêmica que ele revela com exclusividade a ISTOÉ. Senhora do destino vai falar sobre adoção de crianças pelas homossexuais femininas Eleonora (Mylla Christie) e Jeniffer (Bárbara Borges), que estão começando a ter um caso. A novidade aparecerá após o capítulo 100. “Em vez de repetir a velha história da aceitação ou não da dupla homossexual numa novela, eu vou dar um passo adiante. As duas vão viver juntas, sim, e vão tentar adotar uma criança abandonada no hospital público onde Eleonora, que é ortopedista, trabalha. Jeniffer acaba conhecendo o bebê e, como a companheira, também se apega a ele. Ambas decidem lutar pela adoção”, adianta Aguinaldo. “O que é melhor para essa criança, um orfanato, a Febem, as ruas, o abandono, a carência total ou um lar formado por uma dupla de mães?” Mylla Christie, feliz com a trajetória da sua personagem, confia no talento do autor. “O que vier de Aguinaldo Silva será de bom gosto. A abordagem deste tema é muito importante porque o Brasil tem uma fila enorme de crianças esperando para ser adotadas.” A questão tem a ver com o cerne da novela, que, como ressalta o autor, fala da “família em suas diversas formas”. O mote é a busca de Lindalva, filha de Maria do Carmo (Suzana Vieira), roubada ainda bebê. O fato de a história ter conquistado o público tão cedo tomou o autor de surpresa. “É muita responsabilidade manter e fazer crescer esse sucesso todo, não é?” Mas Aguinaldo dorme todos os dias à meia-noite com a sensação do dever cumprido e acorda às 5h30 sabendo que enfrentará nova batalha. Para amenizar suas inquietações, ele cozinha. Amigos contam que é um gourmet exigente. Todos os dias prepara o próprio jantar, põe a mesa com requinte e celebra com meia garrafa de vinho. Se não tiver com quem brindar, é suficiente a companhia de Tadeu, o gato que o acompanha há 12 anos. Na casa de dois andares, confortável sem ser muito grande, é flagrante a paixão por obras de arte. Ele coleciona peças do período de 1870 a 1930 e um dia pretende criar uma fundação aberta ao público. Por enquanto, sua residência é quase um museu, inclusive com os mais modernos sistemas de segurança. Outra paixão é o jornalismo. “Vão rir do que vou dizer, mas hoje, se eu tivesse que escolher, seria jornalista de novo.” Aguinaldo relembra um episódio que marcou sua carreira. “Eu trabalhava na Última hora do Nordeste e não me esqueço quando o editor saiu gritando: ‘A Marilyn Monroe morreu!’ Eu tenho saudade dessa adrenalina de saber a notícia em primeiríssima mão.” Aguinaldo Silva, hoje com 60 anos, marcou época por ser um dos fundadores do jornal alternativo Lampião da Esquina, que ficou conhecido como a primeira publicação gay do Brasil. “Nasceu em 1978, durou três anos e nos rendeu muitos processos”, conta. Mas foi o trabalho de repórter policial em O Globo que o levou à tevê. Convidado a fazer roteiros para o programa Plantão de polícia, nunca mais deixou a telinha, apesar de já ter ensaiado algumas vezes. “Não sou novelista, estou novelista”, costuma repetir. A frase destoa da contabilidade.
Em 26 anos de carreira, assinou vários dos Dossiê – Tal constatação deixou feliz o garoto nascido na pequena Carpina, em Pernambuco, mas causou enorme desgosto à mãe, a dona-de-casa Maria do Carmo Ferreira da Silva – sim, o mesmo nome da personagem central de Senhora do destino. “Eu não te eduquei para você fazer isso!”, dizia ela. Até porque ele tinha acabado de perder o emprego de office-boy no Banco Nacional do Norte num episódio obscuro para a família. “O gerente me chamou e mostrou um verdadeiro dossiê de pessoas, como o meu professor de latim, que era padre, dizendo que eu tinha tendências homossexuais. Eu era uma criança, nem sabia se era ou não. Aí ele perguntou: ‘Você é?’ Aquelas pessoas eram tão definitivas nos depoimentos que me tiraram qualquer dúvida naquele momento e falei: ‘Sim.’ Fui demitido na hora. O problema é que tive de esconder o motivo da minha família.” Para dona Do Carmo, entretanto, a pior tendência era ele querer ser escritor. “Sempre coloco coisas da minha mãe em minhas personagens femininas fortes, inclusive nas vilãs. A Perpétua, de Tieta, costumava dizer assim: ‘Ah, eu não tenho apetite.’ Depois comia escondido. Isso é de minha mãe.” Sobre a composição da protagonista de Senhora do destino, faz revelações vibrantes. “Eu diria até que a Maria do Carmo é parente bastante próxima do Tony Soprano”, diz, referindo-se ao personagem interpretado por James Gandolfini no seriado Família Soprano, um dos maiores sucessos da televisão a cabo americana, que é um chefe da máfia, faz análise e esconde de todos sua verdadeira profissão. O novelista ainda confessa que Maria do Carmo também homenageia o presidente Lula, que, como ela, é um migrante nordestino. “Aliás, o primeiro nome da novela era Lula e seus irmãos. Lula está fazendo o melhor governo permitido a um presidente num país tão cheio de vícios políticos como o Brasil.” Ética – Com elogios extensivos a Fernando Henrique Cardoso, afirma que hoje estamos menos ameaçados por figuras demagogas como o Reginaldo (Eduardo Moscovis), o vereador que vai ser instrumento para o autor dar toques sobre a importância do voto. Outros personagens são boa contrapartida de valores éticos, entre eles o jornalista Dirceu (José Mayer) e o casal de barões Pedro (Raul Cortez) e Laura (Glória Menezes). Nobres e ainda elegantes no empobrecimento, a dupla de veteranos vem dando um show de interpretação. O Barão de Bonsucesso é um amálgama de pessoas, mas, no fundo, é um retrato delicado do falecido Jorginho Guinle, o mais famoso playboy brasileiro, representante de um Brasil esquecido. Com personagens de comportamento tão naturalista, Aguinaldo Silva desviou-se do seu estilo sempre cheio de toques de realismo fantástico. “Fiquem tranquilos, desta vez ninguém vai voar nessa novela.” Em compensação, ele viaja no tempo da história e, assim, provoca polêmica. “Já expliquei várias vezes. A novela foi de época em 1968, mas a partir do letreiro ‘Muitos anos depois’, passou a ter o tempo que interessa ao autor.” Não só o público está entendendo e aprovando como os anunciantes também. Antes mesmo de estrear, Senhora do destino já contava com 12 contratos fechados de merchandising, algo inédito na dramaturgia da televisão brasileira. Entre as empresas que apostam na novela está a Votorantim Cimentos, que, em quase 70 anos, nunca havia feito este tipo divulgação do seu produto, como conta o gerente de marketing Maurício Mansur.
Tantos aplausos – e algumas críticas – na verdade têm se transformado em capítulos, só que de literatura. Aguinaldo está escrevendo um romance policial sobre as paranóias dos folhetins chamado 52 pontos de audiência, no qual vai contar a história de uma diva da tevê que é morta no meio da trama. “Matar a protagonista é o auge dessa paranóia, não é? Como não incorporo a figura do novelista – estou novelista, lembra? –, tenho uma visão meio distanciada e abrangente do espetáculo. Planejo um dia parar de escrever novela. Provavelmente, vou passar a escrever sobre novelas...”
(© Revista ISTO É)
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