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Nelson Rodrigues no escurinho

07/09/2004

Nelson Rodrigues


Dono de uma obra que inspira a cinematografia nacional, o dramaturgo tem sua ligação com a tela investigada em festival que reúne desde seus longas preferidos até versões de suas peças

Rodrigo Fonseca

   Ele era um espectador muito exigente. E, na hora de escolher a que filme assistir, era muito seletivo. Talvez pela agenda apertada, dividida entre crônicas de jornais, a autoria da maior obra da dramaturgia brasileira e a torcida pela consagração do Fluminense, Nelson Rodrigues (1912-1980) não perdia tempo com cineastas de segunda. Apostava nos clássicos. Deleitou-se com Marlene Dietrich em O anjo azul, de Josef Von Sternberg, acompanhou os gângsteres de Howard Hawks em Scarface e, principalmente, torceu para Charlton Heston em Ben-Hur.

   Infelizmente, por falta de uma cópia em 35mm, o épico estrelado por Heston foi um dos raros filmes dos quais o dramaturgo gostava a ficar de fora do festival Nelson Rodrigues e o cinema: Traduções - Traições. Sediado no Centro Cultural Banco do Brasil, o evento vai, de hoje até o dia 19, desfilar rolos e rolos de película que permitam entender melhor a cabeça daquele que decifrou a alma suburbana. Inclua aí, portanto, longas que ele comentou em suas colunas de jornal e os que indicava aos amigos. É o caso de Rashomon, de Akira Kurosawa, e Os amantes (1958), de Louis Malle, pinçados pelo curador Eugenio Puppo.

   - Nelson era um homem que gostava de filmes. Foram dois anos e meio de pesquisas, leituras e conversas com parentes que me deram essa certeza. Gostava de Ben-Hur, tinha apreço pelos expressionistas e era apaixonado por O ébrio, filme com Vicente Celestino que não conseguimos para esta edição, mas que entra numa próxima - explica Puppo, que já fez mostras-tributo a personalidades como o diretor Ozualdo Candeias (de A margem) e ao produtor A. P. Galante (A filha de Calígula).

   Para a abertura do evento, às 19h, Puppo selecionou um filme inédito em tela grande: A serpente (1982), de Alberto Magno, sobrinho de Nelson, que pela polêmica que gerou, nunca foi exibido comercialmente (leia mais na página B3). Mas a sua seleção não deixou de fora nem as ilustres adaptações de seu universo literário e teatral feitas por cinemanovistas como Nelson Pereira dos Santos (Boca de Ouro, 1962), Leon Hirszman (A falecida, 1965) e Arnaldo Jabor (Toda nudez será castigada , 1973, e O casamento, 1975). Tampouco fitas recentes, como Traição, de José Henrique Fonseca, Arthur Fontes e Cláudio Torres, estréia da produtora Conspiração.

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Imagens de morbidez

Arquivo JB

 'Boca de Ouro', de Nelson Pereira dos Santos: puritanização

 

   Raridades como Meu destino é pecar (1952), do uruguaio Manoel Peluffo, produzido em São Paulo, que inaugurou o fascínio do cinema nacional pela ficção rodriguiana, entraram no pacote. Esse resgate permite entender como os grandes movimentos do cinema nacional transportaram suas tragédias para o écran. O Cinema Novo, por exemplo, nem sempre o fisgou.

   - A falecida, do Hirszman, é um filme belíssimo, Nelson o achava sem humor. Quando chamei a mostra de Traduções - Traições queria sublinhar quem teve êxito - diz Puppo.

   Nem Nelson Pereira dos Santos foi poupado das cobranças do dramaturgo. O veterano cineasta lembra que o ''xará'' lhe cobrou mais pimenta quando viu Boca de Ouro.

   - Nelson foi de extrema gentileza comigo nas filmagens: ''Vai fazendo, meu filho. Que Deus o ajude!'', dizia. Quando viu, gostou, mas disse: ''Ô, xará, você puritanizou minha obra'' - lembra.

   O flerte da TV com o escritor também não foi esquecido. A partir de amanhã, Engraçadinha - Seus amores, seus pecados, minissérie de 1995 que revelou Alessandra Negrini e Alexandre Borges e consagrou Cláudia Raia em um papel sério, será reprisada em vídeo no CCBB. Assim como a série A vida como ela é.

   E já que a idéia é investigar influências audiovisuais de Nelson, Puppo não dispensou uma referência aos desenhos de seu irmão, o ilustrador Roberto Rodrigues, assassinado em 1929, aos 23 anos, na redação de Crítica, jornal que pertencia ao pai de ambos, Mário Rodrigues. O curador escolheu 14 nanquins, quatro originais das páginas de Crítica e um auto-retrato a óleo. Elas transmitem a mórbida visão de mundo que o dramaturgo herdou.

   - O jogo de luz e sombras nos desenhos de Roberto foram importantes na formação de Nelson. Foi ele também quem falava para o irmão da beleza que existe em velórios, elemento recorrente em seus trabalhos - explica Puppo, que incluiu um retrato de Roberto pintado por Cândido Portinari.

   À disposição do público da mostra, haverá uma caixa no hall de entrada do CCBB com adesivos reproduzindo a arte de Roberto e frases do vasto repertório do dramaturgo. A mostra marca ainda o lançamento do livro Nelson Rodrigues e o cinema: Traduções - traições, com ensaios dos cineastas Arnaldo Jabor, Haroldo Marinho Barbosa e Luiz Rosemberg Filho, além artigos de pesquisadores.

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Atrações rodriguianas

   A dama do lotação – Um dos maiores sucessos de público da história do cinema nacional, com 6,5 milhões de ingressos vendidos, o filme coroou carreiras. As de Sonia Braga e do diretor Neville D’Almeida. Passa dias 9 e 15.

   A Nelson Rodrigues – Nos dias 11 e 16, vale conferir o curta-metragem de Haroldo Marinho Barbosa (de Baixo Gávea), um realizador por vezes subestimado, sobre a vida e a obra do dramaturgo. O filme, de 14 minutos, é de 1978.

   A vida como ela é – Exibido originalmente como um quadro do Fantástico, a série comandada por Daniel Filho a partir da produção mais folhetinesca de Nelson, cativa os olhos pelo apuro técnico e pelo esmero de atores como Caio Junqueira, Giulia Gam, Tony Ramos e Malu Mader. Exibição na sala de vídeo do CCBB até o dia 19.

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Inédito na telona

Arquivo JB

 Nanini e Monique Lafond vivem o casal de 'A serpente', adaptação proibida no governo Figueiredo

   Foi o próprio Nelson quem alertou: ''Toda coerência é, no mínimo, suspeita''. Mas, no caso da adaptação cinematográfica de A serpente (1982) - que após 22 anos será exibida pela primeira vez em tela grande, hoje, às 19h -, ela foi perigosa. Quando a censura, unanimemente, achou coerente apoiar o moralismo e vetar qualquer apoio financeiro ao longa, considerado indigesto para olhos pudicos, o cineasta Alberto Magno, 46 anos, sobrinho do dramaturgo, sabia que devia desistir de ser diretor no país.

   - Mas não abandonei o cinema. Tinha uma carreira no exterior, atuando em efeitos especiais e som. Mas dirigir de novo aqui, não. Quero o futuro - afirma Magno, filho de Jece Valadão e afilhado de Glauber Rocha.

   Hoje, escritor e diretor de uma empresa especializada em transmissões digitais, a AS-TV, Magno fez o que pôde para liberar A serpente, que, por ordem do governo Figueiredo, foi impedido de receber apoio da Embrafilme. O motivo: a má fama de Magno.

   Nos anos 80, dois de seus curtas-metragens - A loucura, inspirado em Erasmo de Roterdam, e O elogio histérico da razão, decalcado das idéias de Voltaire - geraram tumulto e quebra-quebra nas salas em que foram exibidos. O público rejeitava as imagens provocativas de Magno, que abordava tabus como incesto no esforço de propor um ''cinema satânico'', conforme anunciava nas seqüências iniciais de seus filmes.

   - Satânico é manipular as massas e brincar com o poder de iludir. Filmes como O sexto sentido e o recente A vila, do M. Night Shyamalan, são assim. Ora, o cinema só será divino se passar pelo satânico.

   Com fotografia de Dib Lutfi e cenografia de Roberto Cruz, A serpente conta a história da bela Ligia (Monique Lafond). Preterida e humilhada pelo marido Décio (Marco Nanini), que jamais consumou sexualmente a união, ela recebe da irmã Guida (Cristina Bério, mulher de Magno à época) uma oferta estranha: perder a virgindade com o cunhado, Paulo (Jece Valadão).

   Na sessão de hoje, o professor Ismail Xavier, um dos maiores pesquisadores do cinema no Brasil, faz colóquio sobre o filme, às 18h30, antes da projeção. Colóquio que promete ser elogioso.

   - É um filme original, que assume na estrutura aspectos teatrais. Antinaturalista, combate a internalização de códigos de censura - diz Ismail.

JB Online)


Onde encontrar Nelson Rodrigues no cinema

Jaime Biaggio

   Amostra Nelson Rodrigues e o Cinema: Traduções-Traições, que tem início hoje no CCBB, indo até o próximo dia 19, não está completa. Isto é, não traz todos os filmes baseados na obra do dramaturgo que, na década de 70, em especial, tornou-se um elemento central no quadro do cinema brasileiro. E, ainda que fosse intenção inicial dos organizadores que ela trouxesse mais filmes, não fez grande diferença para o conceito, pois este não era nem o de trazer tudo nem o de apresentar as melhores adaptações do autor para a tela grande.

   — Hierarquização das obras não foi um critério — diz o curador Ismail Xavier, que dividiu este papel com o organizador da mostra, Eugênio Puppo. — Nós queríamos trabalhar com filmes que pudessem gerar alguma reflexão sobre as peças. Inclusive filmes que não sejam adaptações de Nelson, como é o caso de “Amarelo manga”, de Cláudio Assis, em que há ecos do imaginário rodriguiano.

   Devido a essa proposta, o filme de Cláudio Assis integra a mostra, bem como “Ganga bruta”, de Humberto Mauro, “Porto das caixas”, de Paulo César Saraceni, ou “Tudo bem”, de Arnaldo Jabor, nenhum dos quais é adaptação de texto do dramaturgo. Há ainda a seção “O espectador”, com filmes clássicos de que Nelson gostava, e cujos elementos aparecem de alguma maneira na sua obra, entre eles “O anjo azul” e “Rashomon”. Ismail destaca “O segredo da porta fechada”, de Fritz Lang, também presente na mostra.

   — Tem direta relação com “Meu destino é pecar”, no retrato da mulher que é carregada por determinado contexto familiar, no caso o casamento, e isso se revela uma estação no inferno.

   E, claro, há as adaptações de Nelson propriamente ditas, desde aquelas que circularam relativamente bem por TV, vídeo e mostras como “Toda nudez será castigada”, de Arnaldo Jabor, de 1974, às relativamente sumidas, como “O beijo”, dirigida em 1966 por Flávio Tambellini.

O Globo)

Com relação a este tema, saiba mais (arquivo NordesteWeb)


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